O MEU P DE LARANJA LIMA
Jos Mauro de Vasconcelos


2 edio

1975


PRIMEIRA PARTE

No Natal, s vezes nasce o Menino Diabo

CAPTULO PRIMEIRO

O descobridor das coisas

A GENTE VINHA DE MOS DADAS, sem pressa de nada pela rua. Totoca vinha me ensinando a vida. E eu estava muito contente porque meu irmo mais velho estava me dando a mo e ensinando as coisas. Mas ensinando as coisas fora de casa. Porque em casa eu aprendia descobrindo sozinho e fazendo sozinho, fazia errado e fazendo errado acabava sempre tomando umas palmadas. At bem pouco tempo ningum me batia. Mas depois descobriram as coisas e vivem dizendo que eu era o co, que eu era capeta, gato ruo de mau plo. No queria saber disso. Se no estivesse na rua eu comeava a

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cantar. Cantar era bonito. Totoca sabia fazer outra coisa alm de cantar, assobiar. Mas eu por mais que imitasse, no saa nada. Ele me animou 'dizendo que era assim mesmo, que eu ainda no tinha boca de soprador. Mas como eu no podia cantar por fora, fui cantando por dentro. Aquilo era esquisito, mas se tornava muito gostoso. E eu estava me lembrando de uma msica que Mame cantava quando eu era bem pequenininho. Ela ficava no tanque, com um pano amarrado na cabea para tapar o sol. Tinha um avental amarrado na barriga e ficava horas e horas, metendo a mo na gua, fazendo sabo virar muita espuma. Depois torcia a roupa e ia at a corda. Prendia tudo na corda e suspendia o bambu. Ela fazia igualzinho com todas as roupas. Estava lavando a roupa da casa do Dr. Faulhaber para ajudar nas despesas da casa. Mame era alta, magra, mas muito bonita. Tinha uma cor bem queimada e os

cabelos pretos e lisos. Quando ela deixava os cabelos sem prender, dava at na cintura. Mas bonito era quando ela cantava e eu ficava junto aprendendo.

"Marinheiro, Marinheiro
Marinheiro de amargura
Por tua causa, Marinheiro
Vou baixar  sepultura...

As ondas batiam
E na areia rolavam
L se foi o Marinheiro
Que eu tanto amava...

O amor de Marinheiro
 amor de meia hora
O navio levanta o ferro
Marinheiro vai embora...

As ondas batiam"...

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At agora aquela msica me dava uma tristeza que eu no sabia compreender.

Totoca me deu um puxo. Eu acordei.
- Que  que voc tem, Zez?
- Nada. Tava cantando.
- Cantando?

. Ento eu devo estar ficando surdo. Ser que ele no sabia que se podia cantar para dentro? Fiquei calado. Se no sabia eu no ensinava.

Tnhamos chegado na beira da estrada Rio-So Paulo. Passava tudo nela. Caminho, automvel, carroa e bicicleta.

- Olhe, Zez, isso  importante. A gente primeiro olha bem. Olha para um lado e para outro. Agora.

Atravessamos correndo a estrada.
- Teve medo? Bem que tive mas fiz no com a cabea.
- Ns vamos atravessar de novo juntos. Depois quero ver se voc aprendeu.

Voltamos.
- Agora voc sozinho. Nada de medo que voc est ficando um homenzinho.

Meu corao acelerou.
- Agora. Vai. Meti o p e quase no respirava. Esperei um pedao e ele deu o sinal para que eu voltasse.

- Pela primeira vez, voc foi muito bem. Mas esqueceu uma coisa. Tem que olhar para os dois lados para ver se vem carro. Nem toda hora eu vou ficar aqui para lhe dar o sinal. Na volta, a gente treina mais. Agora vamos que eu vou mostrar uma coisa para voc.

Agarrou a mo e samos novamente devagar. Eu estava impressionado com uma conversa.

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-  Totoca.
-  Que ?
-  Idade da razo pesa?
-  Que besteira  essa?
-  Tio Edmundo quem falou. Disse que eu era `precoce" e que ia entrar logo na idade da razo. E eu no sinto diferena.

- Tio Edmundo  um bobo. Vive metendo coisas na sua, cabea.

- Ele no  bobo. Ele  sbio. E quando eu crescer quero ser sbio e poeta e usar gravata de lao. Um dia eu vou tirar retrato de gravata de lao.

Por que gravata de lao? Porque ningum  poeta sem gravata de lao. Quando Tio Edmundo me mostra retrato de poeta na revista, todos tm gravata de lao.

- Zez, deixe de acreditar em tudo que ele fala pra voc. Tio Edmundo  meio trongola. Meio mentiroso.

- Ento ele  filho da puta?
- Olhe que voc j apanhou na boca de tanto dizer palavro; Tio Edmundo no  isso. Eu falei trongola. Meio maluco.

- Voc falou que ele era mentiroso.
- Uma coisa nada tem a ver com a outra.
- Tem, sim. Noutro dia Papai conversava com seu Severino, aquele que joga escopa e manilha com ele e falou assim de seu Labonne: "o filho da puta do velho mente pra burro"... E ningum bateu na boca dele.

- Gente grande pode dizer, que no faz mal. Fizemos uma pausa.
- Tio Edmundo no ... Que  que  mesmo trongola, Totoca?

Ele girou o dedo na cabea.
- Ele no , no. Ele  bonzinho, me ensina as coisas e at hoje s me deu uma palmada e no foi com fora.

Totoca deu um pulo.
- Ele deu uma palmada em voc? Quando?
- Quando eu estava muito levado e Glria me mandou para a casa de Dindinha. A ele queria ler o jornal e no achava os culos. Procurou, danado da vida. Perguntou para Dindinha e nada. Os dois viraram a casa pelo avesso. A eu disse que sabia onde estava e se ele me desse um tosto para comprar bolas de gude, eu dizia. Ele foi no colete e apanhou um tosto.

- Vai buscar que eu dou.
- Eu fui no cesto de roupa suja e apanhei eles. A ele me xingou. - "Foi voc, seu patife!" Me deu uma palmada na bunda e me tomou o tosto.

Totoca riu.
- Voc vai l para no apanhar em casa e apanha l. Vamos mais depressa se no a gente no chega nunca.

Eu continuava pensando em Tio Edmundo.

Totoca, criana  aposentado?
O qu? Tio Edmundo no faz nada, ganha dinheiro. No trabalha e a Prefeitura paga ele todo ms.

- E da?
- Criana no faz nada, come, dorme e ganha dinheiro dos pais.


- Aposentado  diferente, Zez. Aposentado  quem j trabalhou muito, ficou de cabelo branco e anda devagarzinho como Tio Edmundo. Mas vamos deixar de pensar coisas difceis. Que voc goste de aprender com ele, v l. Mas comigo, no. Fique igual aos outros meninos. Diga at palavro, mas deixe de encher essa cabecinha com coisas difceis. Seno, no saio mais com voc.

Fiquei meio emburrado e no quis mais conversar.

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Tambm no tinha vontade de cantar. Meu passarinho que cantava pra dentro voou pra longe.

Paramos e Totoca apontou a casa.
-  bem ali. Voc gosta? Era uma casa comum. Branca de janelas azuis. Toda fechada e caladinha.

- Gosto. Mas por que a gente tem que mudar para c?

-  bom a gente sempre se mudar.

Ficamos observando pela cerca um. p de mangueira de um lado e um tamarindeiro do outro.

- Voc que quer saber tudo no desconfiou o drama que vai l em casa. Papai est desempregado, no est? Ele faz mais de seis meses que brigou com Mister Scottfield e puseram ele na rua. Voc no viu que Lal comeou a trabalhar na Fbrica? No sabe que Mame vai trabalhar na cidade, no Moinho Ingls? Pois bem, seu bobo. Tudo isso  pra juntar um dinheiro e pagar o aluguel dessa nova casa. A outra, Papai j est devendo bem oito meses. Voc  muito criana para saber dessas coisas tristes. Mas eu vou ter que acabar ajudando missa para ajudar em casa.

Demorou-um pouco, em silncio.
- Totoca, vo trazer a pantera negra e as duas leoas pra c?

- Claro que vo. E o escravo aqui  que vai ter de desmontar o galinheiro.

Me olhou com certa meiguice e pena.
- Eu  que vou desmontar o jardim zoolgico e armar ele aqui.

Fiquei aliviado. Porque seno eu teria que inventar uma nova coisa para brincar com o meu irmozinho mais novo: Lus.

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- Bem, viu como eu sou seu amigo, Zez. Agora no custava me contar como foi que voc conseguiu @4aquilo"...

- Juro, Totoca, que no sei. No sei mesmo.
- Voc est mentindo. Voc estudou com algum.
- No estudei nada. Ningum me ensinou. S se foi o diabo que Jandira diz que  meu padrinho, que me ensinou dormindo.

Totoca estava perplexo. No comeo at me dera cocorotes para eu contar. Mas nem eu sabia contar.

- Ningum aprende essas coisas sozinho. Mas ficava embatucado porque realmente ningum vira ningum me ensinar nada. Era um mistrio.

Fui me lembrando de alguma coisa que tinha acontecido uma semana antes. A famlia ficou atarantada. Comeou quando eu me sentei perto de Tio Edmundo na casa de Dindinha, que lia o jornal.

- Titio.
- Que , meu filho. Ele puxou os culos para a ponta do nariz como toda gente grande e velha fazia.

- Quando o senhor aprendeu a ler?
- Mais ou menos com seis ou sete anos de idade.
- E uma pessoa pode ler com cinco anos?
- Poder, pode. Ningum gosta de fazer isso porque a criana ainda  muito pequena.

- Como  que o senhor aprendeu a ler?
- Como todo mundo, na Cartilha. Fazendo B mais A: BA.

- Todo mundo tem que fazer assim?
- Que eu saiba, sim.
- Mas todo mundo mesmo?
- Ele me olhou intrigado.

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2 laranja Lima

Olhe, Zez, todo mundo precisa fazer assim. Agora me deixe terminar a minha leitura. Veja se tem goiaba no fundo do quintal.

Colocou os culos no lugar e tentou se concentrar na leitura. Mas eu no sa do canto.

- Que pena!... A exclamao saiu to sentida que ele de novo trouxe os culos para a ponta do nariz.

- No adianta, quando voc quer...
-  que eu vim l de casa, andei pra burro s para contar uma coisa para o senhor.

- Ento vamos, conte.
- No. No  assim. Primeiro preciso saber quando o senhor vai receber a aposentadoria.

- Depois de amanh. Deu um suave sorriso me estudando.
- E quando  depois de amanh?
- Sexta-feira.
- Pois na sexta-feira o senhor no quer trazer um

"Raio de Luar" pra mim, da cidade?
- Vamos devagar, Zez. O que  Raio de Luar?
-  o cavalinho branco que eu vi no cinema. O dono dele  Fred Thompson.  um cavalo ensinado.

- Voc quer que eu traga um cavalinho de rodas?
- No, senhor. Quero aquele que tem uma cabea de pau com rdeas. Que a gente coloca um cabo e sai correndo. Eu preciso treinar porque eu vou trabalhar no cinema mais tarde.

Ele continuou rindo.
- Compreendo. E se eu trouxer, o que eu ganho?
- Eu fao uma coisa pro senhor.
- Um beijo?
- No gosto muito de beijos.
- Um abrao?

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A eu olhei Tio Edmundo com uma pena danada. Meu passarinho l dentro falou uma coisa. E eu fui lembrando que muitas vezes tinha escutado... Tio Edmundo era separado da mulher e tinha cinco filhos  ... Vivia to sozinho e caminhava devagar, devagar       ... Quem sabe se ele no andava devagar era porque tinha saudade dos filhos? E os filhos nunca vinham fazer uma visita para -ele.

Dei a volta na mesa e apertei com fora o seu pescoo. Senti o seu cabelo branco roar na minha testa, bem macio.

- Isto no  pelo cavalinho. O que eu vou fazer  outra coisa. Vou ler.

- Voc sabe ler, Zez? Que histria  essa? Quem foi que lhe ensinou?

- Ningum.
- Voc est com lorotas. Me afastei e da porta comentei:
- Traga meu cavalinho sexta-feira pra ver se eu no leio!...

Depois quando foi de noite e Jandira acendeu a luz do lampio porque a Light cortara a luz por falta de pagamento, eu fiquei na ponta dos ps para ver a "estrela". Tinha um desenho de uma estrela num papel e embaixo uma orao para proteger a casa.

- Jandira me pegue no colo que eu vou ler ali.
- Deixe de invenes, Zez. Estou muito ocupada.
- Pois me pegue e veja se eu no sei ler.
- Olhe, Zez, se voc estiver me aprontando alguma, voc vai ver.

Me colocou no colo e me levou bem atrs da porta.
- Ento, leia. Quero ver. A eu li mesmo. Li a orao que pedia aos cus, bno e proteco para a casa e afugentasse os maus espritos.

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Jandira me depositou no cho. Estava de queixo cado.

- Zez, voc decorou aquilo. Voc est me enganando.

- Juro, Jandira. Eu sei ler tudo.
- Ningum pode ler sem ter aprendido. Foi Tio Edmundo? Dindinha?

- Ningum. Ela pegou um pedao de jornal e eu li. Li direitinho. Ela deu um grito e chamou Glria. Glria ficou nervosa e foi chamar Alade. Em dez minutos uma poro de gente da vizinhana veio ver o fenmeno.

Era isso que Totoca estava querendo saber.
- Ele ensinou e prometeu o cavalinho se voc aprendesse.

- No foi, no.
- Eu vou perguntar a ele.
- Pois v perguntar. Eu no sei dizer como foi, Totoca. Se eu soubesse eu contava pra voc.

- Ento vamos embora. Voc vai ver. Quando pre- cisar de uma coisa... Pegou minha mo, zangado, e me puxou de volta para a casa. A ele pensou numa coisa para se vingar.

- Bem feito! Aprendeu cedo demais, seu bobo. Agora vai ter que entrar na Escola em fevereiro.

Aquilo tinha sido idia de Jandira. Assim a casa ficava a manh inteira em paz e eu aprendia a ter modos.

- Vamos treinar a Rio -So Paulo. Porque no pense que no tempo da Escola eu vou ficar de sua empregada, atravessando voc todo tempo. Voc  muito sabido, que aprenda logo isso tambm.

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Taqui o cavalinho. Agora eu quero ver. Abriu o jornal e me mostrou uma frase de reclame de um remdio.

- "Esse produto se encontra em todas as pharmacias e casas do ramo".

Tio Edmundo foi chamar Dindinha no quintal.
- Mame. At Pharmacia ele leu direitinho. Os dois juntos comearam a me dar coisas para ler e eu lia tudo.

Minha av resmungou que o mundo estava perdido. Ganhei o cavalinho e novamente abracei Tio Edmundo. Ento ele pegou no meu -queixo e me falou emocionado.

- Voc vai longe, peralta. No   toa que voc se chama Jos. Voc ser o sol, e as estrelas vo brilhar ao seu redor.

Fiquei olhando sem entender e pensando que ele era mesmo trongola.

- Isto voc no entende.  a histria de Jos do Egipto. Quando voc crescer mais eu conto essa histria.

Eu era doido por histrias. Quanto mais difceis, mais eu gostava.

Alisei o meu cavalinho, bastante tempo e depois levantei a vista para Tio Edmundo e perguntei:

- A semana que vem, o senhor acha que eu j cresci?...

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CAPTULO SEGUNDO

Um certo p de Laranja Lima

L EM CASA cada irmo mais velho criava um mais moo. Jandira tomara conta de Glria e de outra irm que fora dada para ser gente no Norte. Antnio era o quindim dela. Depois Lal tomara conta de mim at bem pouco tempo. At ela gostar de mim, depois parece que enjoou ou ficou muito apaixonada pelo namorado dela que era um almofadinha igualzinho ao da msica: de cala larga e palet curtinho. Quando a gente ia aos domingos fazer o "footing" (o namorado dela falava assim) na Estao, ele comprava bala pra mim que dava gosto. Era para eu no falar nada em casa. Nem tambm

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podia perguntar a Tio Edmundo o que era aquilo, seno descobriam...

Meus outros dois irmozinhos morreram pequenos e eu s ouvi falar deles. Contavam que eram dois bugrezinhos Pinags. Bem queimadinhos e de cabelos negros e lisos. Por isso que a menina se chamou Aracy e o

menino Jurandyr.

Depois ento vinha o meu irmozinho Lus. Esse quem tomava mais conta dele era Glria e depois eu. Ningum precisava tomar conta dele, porque menininho mais lindo, bonzinho e quietinho no existia.

Foi por isso que quando ele falou com aquela falinha toda sem errar, e eu que j ia ganhar o mundo da rua, mudei de idia.

- Zez, voc vai me levar ao Jardim Zoolgico? Hoje no est ameaando chuva, no ?

Mas que gracinha, como ele falava tudo direitinho. Aquele menino ia ser gente, ia longe.

Olhei o dia lindo todo de azul no cu. Fiquei sem

coragem de mentir. Porque s vezes eu no estava com vontade e dizia:

-  T doido, Lus. Veja s o temporal que vem!... Dessa vez agarrei a mozinha e samos para a aventura do quintal.

O quintal se dividia em trs brinquedos. O Jardim Zoolgico. A Europa que ficava perto da cerca bem feitinha da casa de seu Julinho. Por que Europa? Nem meu passarinho sabia. L que a gente brincava de bondinho de Po de Acar. Pegava a caixa de boto e enfiava todos eles num barbante. (Tio Edmundo falava cordel). Eu pensei que cordel fosse cavalo. E ele ex-

plicou que era parecido, mas cavalo era corcel. Depois a gente amarrava uma ponta na cerca e a outra na

ponta dos dedos de Lus. Subia todos os botes e soltava devagarzinho um por um. Cada bonde vinha cheio

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de gente conhecida. Tinha um bem preto que era o bonde do negro Biriquinho. No raro ouvia uma voz do outro quintal:

- Voc no est estragando a minha cerca, Zez?
- No senhora, Dona Dimerinda. Pode ver.
-  assim que eu gosto. Brincando bonitinho com o irmo. No  melhor assim?

Podia ser mais bonito mas no momento que o meu "padrinho", o capeta, me empurrava, no podia haver nada mais gostoso do que fazer artes...

- A senhora vai me dar uma folhinha no Natal, como no ano passado?

- O que voc fez da que eu dei?
- Pode ir l dentro ver, Dona Dimerinda. Est em cima do saco do po.

Ela riu e prometeu. O marido dela trabalhava no armazm de Chico Franco.

O outro brinquedo era Luciano. Lus, no comeo, tinha um medo danado dele e pedia pra voltar puxando as minhas calas. Mas Luciano era amigo. Quando me via soltava guinchos fortes. Glria tambm no queria aquilo, dizendo que morcego  vampiro e chupa sangue de criana.

-  no, Godia. Luciano no  desses.  amigo. Ele me conhece.

- Voc com essa mania de bicho e de falar com as coisas...

Foi um custo a convencer que Luciano no era um bicho. Luciano era um avio voando no Campo dos Afonsos.

- Olhe s, Lus. E Luciano rodava em volta da gente todo feliz como se compreendesse o que se falava. E compreendia mesmo.

- Ele  um aeroplano. Est fazendo...

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Embatucava. Precisava pedir de novo para Tio Edmundo repetir aquela palavra. No sabia se era

acorbacia, acrobacia ou arcobacia. Era uma daquelas. S que no devia ensinar errado ao meu irmozinho.

Mas agora ele estava querendo o Jardim Zoolgico. Chegamos at perto do galinheiro velho. Dentro as

duas frangas claras estavam ciscando e a velha galinha preta era to mansa que a gente at coava a

cabea dela.

- Primeiro vamos comprar os bilhetes de entrada. D-me a mo que a criana pode se perder nessa multido. Viu como est cheio aos domingos?

Ele olhava e comeava a enxergar gente por toda a

parte e apertava mais minha mo.

Na bilheteria empinei a barriga para frente e dei um pigarro para ter importncia. Meti a mo no bolso e perguntei  bilheteira:

- At que idade criana no paga?
- At cinco anos.
- Ento uma de adulto, faz favor. Peguei as duas folhinhas de laranjeira de    bilhete e

fomos entrando.

- Primeiro, meu filho, voc vai ver que beleza so as aves. Olhe papagaios, periquitos e araras de todas

as cores. Aquelas bem cheias de penas diferentes so as araras arco-ris.

E ele arregalava os olhos extasiado. Caminhvamos devagar, vendo tudo. Vendo tanta coisa que at eu vi por trs de tudo que Glria e Lal estavam sentadas no tamborete e descascavam laranjas. Os olhos de Lal me olhavam de um jeito... Ser que j tinham descoberto? Se j, aquele Jardim Zoolgico ia acabar em grandes chineladas na bunda de algum. E s quem podia ser esse algum era eu.

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E agora, Zez, o que ns vamos visitar? Novo pigarro e pose.
- Vamos passar nas jaulas dos macacos. Tio Edmundo diz sempre, os smios.

Compramos algumas bananas e atiramos aos bichos. A gente sabia que aquilo era proibido, mas como tinha muita multido, os guardas nem davam conta.

- No se chegue muito perto que eles atiram cascas de banana em voc, pequerrucho.

- Eu queria era chegar logo nos lees.
- J vamos l. Relanceei a vista onde as duas "smias" chupavam laranja. Da jaula dos lees, daria para escutar a conversa.

- Chegamos. Apontei as duas leoas amarelas, bem africanas. Quando ele quis alisar a cabea da pantera negra...

- Que idia, pequerrucho. Essa pantera negra  o terror do Jardim. Ela veio pra c porque arrancou dezoito braos de domadores e comeu.

Lus fez uma cara de medo e retirou o brao apavorado. - Ela veio do circo?

- Veio.
- De que circo, Zez? Voc nunca me contou antes. Pensei e pensei. Quem que eu conhecia que tinha nome pra circo? Ali! Veio do circo Rozemberg.

- Mas l no  padaria? J estava ficando difcil enganar ele. Comeava a ficar muito sabido.

-  outro.  melhor sentarmos um pouco e comer a merenda. Andamos muito.

Sentamos e fingimos que comamos. Mas meu ouvido estava l, escutando as conversas.

- A gente devia aprender com ele, Lal. Veja s a pacincia que ele tem com o irmozinho.

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E, mas o outro no faz o que ele faz. Isso j  maldade. No  arte.

- T certo que ele tem o diabo no sangue, mas mesmo assim  engraado. Ningum fica com raiva dele na rua, por mais que pinte...

- Aqui ele no passa sem tomar umas chineladas. Um dia ele aprende.

Joguei uma flecha de piedade nos olhos de Glria. Ela sempre me salvara e eu sempre prometia a ela que no ia fazer nunca mais...

- Mais tarde. Agora no. Eles esto brincando to quietinhos...

Ela j sabia de tudo. Sabia que eu tinha ido pelo valo e entrado nos fundos do quintal de Dona Celina. Fiquei fascinado com a corda de roupa balanando ao vento uma poro de pernas e braos. A o diabo me disse que eu podia dar uma queda ao mesmo tempo em todos os braos e pernas. Eu concordei com ele que ia ser muito engraado. Procurei no valo um caco de vidro bem afiado e subi na laranjeira e cortei a corda com pacincia.

Eu quase que ca ao mesmo tempo que aquilo tudo veio abaixo. Um grito e todo mundo correu.

- Acode minha gente, que a corda rebentou. Mas uma voz, no sei de onde, gritou mais alto.
- Foi aquela peste do menino de seu Paulo. Eu vi ele trepando na laranjeira com um caco de vidro...

- Zez?
- Que , Lus?
- Conte pra mim como  que voc sabe tanta coisa do Jardim Zoolgico?

- J visitei -muitos na vida. Mentia, tudo o que eu sabia era Tio Edmundo quem me contara e at me prometera me levar l um dia.

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Mas ele andava to devagarzinho que quando a gente chegasse l, j no existia mais nada. Totoca fora uma

vez com Papai.

- O que eu gosto mais  o da Rua Baro de Drummond, na Vila Isabel. Voc sabe quem foi o Baro de Drummond? Claro que voc no sabe.  muito criana para saber dessas coisas. O tal Baro devia ser muito amigo de Deus. Porque foi ele que ajudou Deus a criar o jogo de bicho e o Jardim Zoolgico. Quando voc ficar maiorzinho...

As duas continuavam l.
- Quando eu ficar maiorzinho o qu?
- Ai que criana perguntadeira. Quando voc chegar l eu ensino os bichos e o nmero dos bichos. At * nmero vinte. Do nmero vinte at o nmero vinte * cinco, eu sei que tem vaca, touro, urso, veado e tigre. No sei direito o lugar deles, mas vou aprender para no ensinar errado.

Ele estava se cansando do brinquedo.
- Zez, cante pra mim a Casinha Pequenina.
- Aqui no Jardim Zoolgico? Tem muita gente.
- No. A gente J veio s'imbora...
-  muito grande a letra. Vou cantar s o pedao que voc gosta. Sabia que era onde falava de cigarras.

Abri o peito.

"Voc sabe de onde eu venho

 de uma casinha que tenho Fica junto de um pomar...  uma casa pequenina L no alto da colina E se v ao longe, o

Pulei uma poro de versos.

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"Entre as palmeiras bizarras' Cantam todas as cigarras Ao pr de oiro do sol. Do beiral v-se o horizonte. No jardim canta uma fonte E na fonte um rouxinol..."

Parei. Elas continuavam firmes l me esperando. Tive uma idia; ficava cantando ali at chegar de noite. Elas iam acabar, desistindo.

Mas qual o que. Cantei a Casinha toda, repeti, cantei "Por teu afeto passageiro" e at Ramona. As duas letras diferentes que eu sabia de Ramona... e nada. A me deu um desespero danado. Era melhor acabar com aquilo. Fui l.

- Pronto, Lal. Pode me bater. Virei as costas e ofereci o material. Trinquei os dentes porque a mo de Lal tinha uma fora danada no chinelo.

Mame quem teve a idia.
- Hoje, todo mundo para ver a casa.

Totoca me chamou de lado e me avisou num sussurro:
- Se voc contar que a gente j conhece a casa, eu te rebento.

Mas eu no tinha nem pensado nisso. Foi aquele mundo de gente pela rua. Glria me dava a mo e tinha ordens para no me desgrudar um minuto. E eu segurava a mo de Lus.

- Quando  que a gente tem de mudar, Mame? Mame respondeu para Glria com uma certa tristeza.
- Dois dias depois do Natal temos que comear a

arrumar os cacarecos.

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Ela falava com uma voz cansada, cansada, E eu estava com muita pena dela. Mame nasceu trabalhando. Desde os seis anos de idade quando fizeram a Fbrica que puseram ela trabalhando. Sentavam Mame bem em cima de uma mesa e ela tinha que ficar limpando e enxugando ferros. Era to pequenininha que fazia molhado em cima da mesa porque no podia descer sozinha... Por isso ela nunca foi  Escola e nem aprendeu a ler. Quando eu escutei essa histria dela fiquei to triste que prometi que quando fosse poeta e sbio eu ia ler minhas poesias para ela...

E o Natal se anunciava pelas lojas e armarinhos. J tinham desenhado Papai Noel -em tudo que era vidro de porta. Tinha gente comprando carto para que quando chegasse a hora no enchesse demais de gente tudo quanto era casa de comrcio. Eu tinha uma esperana l longe que dessa vez o Menino Deus fosse nascer. Ele mesmo para mim. Enfim quando eu ficasse da idade da razo, talvez eu melhorasse um pouco.

-  aqui. Todos ficaram encantados. A casa era um pouco menor. Mame ajudada por Totoca destorceu um arame que prendia o porto e foi aquele avana. Glria soltou a minha mo e esqueceu-se que estava ficando mocinha. Desabalou  carreira e abraou a mangueira.

- A mangueira  minha. Peguei primeiro. Antnio fez a mesma coisa com o p de tamarindo. No sobrara nada para mim. Olhei quase chorando para Glria.

- E eu, Godia?
- Corre l no fundo. Deve ter mais rvore, bobo. Corri, mas s encontrei um capinzal crescido. Um bando de laranjeira velha e espinhuda. Junto do valo tinha um pequeno p de Laranja Lima.

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Fiquei desapontado. Todos estavam visitando os cmodos e determinando para quem seriam os quartos.

Puxei a saia de Glria.
- No tinha nada mais.
- Voc no sabe procurar direito. Espere a que vou achar uma rvore para voc.

E logo depois ela veio comigo. Examinou as laranjeiras.
- Voc no gosta daquela? Olhe que  uma bela laranjeira.

No gostava de nenhuma mesmo. Nem daquela. Nem daquela e nem de nenhuma. Todas tinham muito espinho.

- Pra ficar com essas feiras eu ainda preferia o p de Laranja Lima.

- Onde? Fomos l.
- Mas que lindo pezinho de Laranja Lima! Veja que no tem nem um espinho. Ele tem tanta personalidade que a gente de longe j sabe que  Laranja Lima. Se eu fosse do seu tamanho, no queria outra coisa.

- Mas eu queria um p de rvore grando.
- Pense bem, Zez. Ele  novinho ainda. Vai ficar um baita p de laranja. Assim ele vai crescer junto com voc. Vocs dois vo se entender como se fossem dois irmos. Voc viu o galho?  verdade que o nico que tem, mas parece at um cavalinho feito pra voc montar.

Estava me sentindo o maior desgraado da vida. Me lembrava da garrafa de bebida que tinha a figura dos anjos escoceses. Lal disse, esse sou eu. Glria apontou outro para ela. Totoca pegou outro pra ele e eu? Eu fiquei sendo aquela cabecinha l atrs, quase sem asa. O quarto anjo escocs que nem era um anjo inteiro... Sempre eu tinha que ser o ltimo. Quando crescesse iam ver s. Ia comprar uma selva amaznica e todas as rvores que tocavam no cu, seriam minhas. Compraria

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um armazm de garrafas cheias de anjo e ningum ganhava um pedao de asa.

Emburrei. Sentei no cho e encostei a minha zanga no p de Laranja Lima. Glria se afastou sorrindo.

- Essa zanga no dura, Zez. Voc vai acabar descobrindo que eu tinha razo.

Cavouquei o cho com um pauzinho e comeava a parar de fungar. Uma voz falou vindo de no sei onde, perto do meu corao.

- Eu acho que sua irm tem toda a razo.
- Sempre todo mundo tem toda a razo. Eu  que no tenho nunca.

- No  verdade. Se voc me olhasse bem, voc acabava descobrindo.

Eu levantei assustado e olhei a arvorezinha. Era estranho porque sempre eu conversava com tudo, mas

pensava que era o meu passarinho de dentro que se encarregava de arranjar fala.

- Mas voc fala mesmo?
- No est me ouvindo? E deu uma risada baixinha. Quase sa aos berros pelo quintal. Mas a curiosidade me prendia ali.

- Por onde voc fala?
- rvore fala por todo canto. Pelas folhas, pelos galhos, pelas razes. Quer ver? Encoste seu ouvido aqui no meu tronco que voc escuta meu corao bater.

Fiquei meio indeciso, mas vendo o seu tamanho, perdi o medo. Encostei o ouvido e uma coisa longe fazia tique... tique...

- Viu?
- Me diga uma coisa. Todo mundo sabe que voc fala?

- No. S voc.

3  Laranja Limo

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- Verdade?
- Posso jurar. Uma fada me disse que quando um menininho igualzinho a voc ficasse meu amigo, que eu ia falar e ser muito feliz.

- E voc vai esperar?
- O qu?
- At eu me mudar. Vai demorar mais de uma semana. Ser que voc no vai se esquecer de falar nesse tempo?

- Nunca mais. Isto , para voc s. Voc quer ver

como eu sou macio?

- Como  que...
- Monte no meu galho. Obedeci.
- Agora, d um balancinho e feche os olhos.

Fiz o que mandou.
- Que tal? Voc alguma vez na vida teve cavalinho melhor?

- Nunca.  uma delcia. At vou dar o meu cavalinho Raio de Luar para meu irmo menor. Voc vai gostar muito dele, sabe?

Desci adorando o meu p de Laranja Lima.
- Olhe, eu vou fazer uma coisa. Sempre quando puder, antes de mudar, eu venho dar uma palavrinha com voc... Agora preciso ir, j esto de sada l na frente.

- Mas, amigo no se despede assim.
- Psiu! L vem ela.

Glria chegou mesmo na hora em que eu o abraava.
- Adeus, amigo. Voc  a coisa mais linda do mundo!
- No falei a voc?

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- Falou, sim Agora se vocs me dessem a mangueira e o p de tamarindo em troca da, minha rvore, eu no queria.

Ela passou a mo nos meus cabelos, ternamente.
- Cabecinha, cabecinha!... Samos de mos dadas.
- Godia, voc no acha que sua mangueira  meio burrona?

- Ainda no deu para saber, mas parece um pouco.
- E o p de tamarindo de Totoca?

 meio sem jeito, por qu? No sei se posso contar. Mas um dia eu conto um milagre para voc, Godia.

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CAPTULO TERCEIRO

Os dedos magros da pobreza

QUANDO EULANCEI o problema a Tio Edmundo, ele o encarou com seriedade.

- Ento,  isso que preocupa voc?
- , sim senhor. Tenho medo que mudando de casa, Luciano no v com a gente.

- Voc acha que o morcego gosta muito de voc?
- Se gosta...
- Do fundo do corao?
- Nem tem dvida.

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- Ento, pode ficar certo que ele vai. Pode ser que demore a aparecer, mas um dia ele descobre.

- Eu j contei que rua e que nmero a gente vai morar.

- Pois ento  mais fcil. Se ele no puder ir, porque tem outros compromissos, ele manda um irmo, um primo, qualquer parente e voc nem vai notar.

Entretanto eu estava ainda indeciso. Que adiantava dar o nmero e a rua se Luciano no sabia ler? Podia ser que ele fosse perguntando aos passarinhos, aos louva-a-deus, s borboletas.,

- No se assuste, Zez, que morcego tem o senso de orientao.

- Tem o qu, titio? Ele me explicou o que era senso de orientao e eu

fiquei cada vez mais admirado com a sua sabedoria.

Resolvido o meu problema fui para a rua contar para todo mundo o que nos esperava: a mudana. A maioria das pessoas grandes me dizia com um jeito -alegre:

- Vocs vo mudar, Zez? Que bom!... Que maravilha!... Que alvio!...

S quem no estranhou muito foi Biriquinho.
- Ainda bem que  na outra rua. Fica pertinho da gente. E aquele negcio de que eu lhe falei...

- Quando ?
- Amanh, s oito, na porta do Cassino Bangu. O pessoal disseram que o dono da Fbrica mandou comprar um caminho de brinquedo. Voc vai?

- Vou. Vou levar Lus. Ser que eu ainda ganho?
- Claro. Um porqueirinha desse tamanho. T pensando que j  um home?

Chegou perto de mim e eu senti que era ainda bem pequeno. Menor do que eu pensava ainda.

- Pois se eu vou ganhar... Mas agora eu tenho que fazer. Amanh a gente se encontra l.

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Voltei para casa e fiquei rondando Glria.
- Que , menino?
- Voc bem que podia levar a gente. Tem um caminho que veio da cidade entupidinho de brinquedo.

- Ora, Zez. Eu tenho um mundo de coisas pra fazer. Tenho que passar, ajudar Jandira a arrumar a mudana. Tenho que ver as panelas no fogo...

- Vem uma poro de cadetes de Realengo. Alm de colecionar pregando num caderno retratos de Rodolfo Valentino que ela chamava de Rudy, ela tinha mania de cadete.         y

- Onde voc j viu, cadete s oito horas da manh? Quer me fazer de boba, garoto? Vai brincar, Zez.

Mas eu no fui.
- Sabe, Godia. No  por mim, no. Eu prometi a

Lus que levava ele l. Ele  to pequenininho. Criana nessa idade s pensa no Natal.

- Zez, j disse que no vou. E isso  conversa:  voc que est querendo ir. Tem muito tempo para voc ganhar Natal na vida...

- E se eu morrer? Morri sem ter ganhado esse Natal.
- Voc no vai morrer to cedo, meu velho. Vai viver duas vezes mais do que Tio Edmundo ou seu Benedito. Agora, chega disso. V brincar.

Mas no fui. Fiz de um jeito que ela toda hora "esbarrasse" comigo. Ela ia na cmoda pegar no sei o qu, dava comigo sentado na cadeira de balano pedindo com

o olhar. Pedindo com o olhar fazia muito efeito nela. Ela ia pegar gua no tanque, eu estava sentado na soleira da porta, olhando. Ia no quarto apanhar peas de roupa para lavar. Eu estava sentado na cama com as mos no queixo, olhando...

A ela no se aguentou.
- Chega, Zez. J disse que no e no. Por amor de Deus, no fique me atazanando a pacincia. V brincar.

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Mas eu no fui. Isto , pensei que no ia. Porque ela me pegou, me carregou porta a fora e me depositou no

quintal. Depois entrou em casa e fechou a porta da cozinha e a da sala. No desisti. Fui ficando sentado defronte de toda janela que ela ia passar. Porque agora ela estava comeando a espanar a casa e arrumar as camas. Ela dava comigo espiando e fechava a janela. Acabou fechando a casa todinha para no me ver.

- Diaba ruim! Rua de mau plo! Tomara que voc

nunca se case com um cadete! Tomara que voc se case com um soldado raso, desses que no tm um tosto para engraxar a perneira.

Quando vi mesmo que estava perdendo tempo, sa danado da vida e ganhei de novo o mundo da rua.

Na rua descobri Nardinho brincando com uma coisa. Estava de ccoras olhando, distrado da vida. Chequei perto. Ele tinha feito uma carrocinha de caixa de fsforos e amarrado um besouro que nunca vira to grande.

- Puxa!
-   Grande, no ?
-   Quer trocar?
-   Por qu?
-   Se voc quiser figurinha...
-   Quantas?
- Duas.
-   Tinha graa. Um besouro desses e voc s d duas figurinhas.

- Besouro assim tem de monte no valo da casa de Tio Edmundo.

- Por trs ainda troco.
- Dou trs, mas no pode escolher.
- Assim, no. Pelo menos duas eu escolho.
- T bem.

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Dei uma de Laura La Plante que eu tinha muitas repetidas. E ele escolheu uma de Hoot Gibson e outra de Patsy Ruth Miller. Peguei o besouro, enfiei no bolso e

fui-me embora.

- Depressa, Lus. Glria foi comprar po e Jandira est lendo na cadeira de balano.

Samos nos espremendo pelo corredor. Fui ajudar ele a desaguar.

- Faz bastante que na rua ningum pode fazer de dia.

Depois, no tanque, lavei o rosto dele. Fiz o mesmo e voltamos para o quarto.

Vesti ele sem fazer barulho. Calcei os seus sapatinhos. Porcaria esse negcio de meia, s serve para atrapalhar. Abotoei o seu terninho azul e procurei o pente. Mas o cabelo dele no sentava. Precisava fazer alguma coisa. No tinha nada em canto algum. Nem brilhantina, nem leo. Fui na cozinha e voltei com um pouco de banha na ponta dos dedos. Esfreguei a banha na palma da mo e cheirei antes.

- Num fede nada. Sapequei nos cabelos, de Lus e comecei a pente-los. A a cabea dele ficou linda. Cheia de cachinhos que parecia um So Joo de carneirinho nas costas.

- Agora voc fique em p, a, para no se amarrotar. Eu vou me vestir.

Enquanto enfiava as calas e a camisinha branca, olhava meu irmo.

- Como ele era lindo! No havia ningum mais bonito em Bangu.

Calcei os meus sapatinhos tnis que tinham que durar at quando eu fosse pra Escola, no outro ano. Continuei a olhar_ Lus.

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Lindo como estava e arrumadinho, dava at para confundir com o Menino Jesus mais crescidinho. Aposto como ele vai ganhar presente pra burro. Quando olharem ele...

Estremeci. Glria acabara de voltar e colocava o po sobre a mesa. O papel fazia aquele barulho nos dias que tinha po.

Samos de mos dadas e nos postamos diante dela.
- Ele no est lindo, Godia? Fui eu que arrumei. Em vez de se zangar, ela se encostou na porta e olhou para cima. Quando abaixou a cabea estava com os olhos cheios d'gua.

- Voc est lindo tambm. Oh! Zez!... Se ajoelhou e tomou minha cabea contra o seu peito.
- Meu Deus! Por que a vida h de ser to dura para uns?...

Conteve-se e comeou a nos arrumar direitinho.
- Eu disse que no poderia levar vocs. No posso mesmo, Zez. Tenho tanto que fazer. Primeiro vamos tomar caf enquanto penso alguma coisa. Mesmo que quisesse no dava tempo de eu me arrumar...

Botou a nossa canequinha de caf e cortou o po. Continuava a olhar aflitamente para ns dois.

- Tanta fora para ganhar umas porcarias de uns

brinquedos vagabundos. Tambm eles no podem dar coisa muito boa pra tanto pobre que existe.

Fez uma pausa e continuou:
- Talvez seja a nica oportunidade. No posso impedir que vocs vo... Mas, meu Deus, vocs so muito pequenininhos...

- Eu levo ele direitinho. Dou a mo o tempo todo, Godia. Nem precisa atravessar a Rio - So Paulo.

- Mesmo assim  perigoso.
- No , no, e eu tenho senso de orientao.

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Ela riu dentro da sua tristeza.
- Quem ensinou isso agora?
- Tio Edmundo. Ele disse que'Luciano tinha, e se

Luciano que  menor que eu tem, eu tenho mais...

- Vou falar com Jandira.
-  perder tempo. Ela deixa, sim. Jandira s vive lendo romance e pensando nos namorados. Nem se importa.

- Vamos fazer o seguinte: acabem com o caf e ns vamos para o porto. Se passar gente conhecida que for para aquele lado, eu peo para acompanhar vocs.

Nem quis comer po, para no demorar. Fomos para o porto.

No passava ningum, s o tempo. Mas acabou passancio. L vinha seu Paixo, o carteiro. Cumprimentou Glria, tirou o quepe e se prontificou a, nos acompanhar.

Glria beijou Lus e me beijou. Comovida, perguntou sorrindo:

- E aquele negcio de soldado raso e de perneira...
-  mentira. No foi de corao. Voc vai casar com

um major de aeroplano cheio de estrelinha no ombro.

- Por que vocs no foram com Totoca?
- Totoca disse que no ia l. E que no estava disposto a rebocar "bagagem".

Samos. Seu Paixo mandava a gente anular na frente e ia entregar carta nas casas. Depois apressava o passo e pegava a gente. Tornava a repetir a aco, seguidamente. Quando chegamos na Rio - So Paulo ele riu e falou:

- Meus filhos. Estou com muita pressa. Vocs esto atrasando o meu servio. Agora vocs vo por ali, que no tem perigo algum.

Saiu, apressado, com o mao de cartas e papis debaixo do brao.

Pensei, revoltado.

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- Covarde! Abandonar duas criancinhas na estrada depois de ter prometido a Glria que levava a gente.

Peguei a mozinha de Lus com mais fora e continuamos a andar. O cansao comeava a se manifestar nele. Cada vez diminua os passos.

- Vamos, Lus. Est pertinho. Tem muito brinquedo. Ele andava um pouco mais depressa e voltava a atrasar.

- Zez, estou cansado.
- Vou carregar voc um pedacinho, quer? Ele abriu os braos e o carreguei um pouco. Arre que ele pesava como chumbo. Quando chegamos na Rua do Progresso quem estava bufando era eu.

- Agora voc anda mais um pedacinho.
O relgio da igreja bateu oito horas.
- E agora? Era para a gente estar l s sete e meia. Mas no faz mal, tem muita gente e vai sobrar brinquedo. Tem um caminho cheio.

- Zez, meu p est doendo. Abaixei.
- Vou desabotoar um pouco o cordo que melhora. amos cada vez mais devagar. Parecia que o Mercado no chegava nunca. E depois ainda tnhamos que passar a Escola Pblica e virar  direita na Rua do Cassino Bangu. O pior era o tempo que voava de propsito.

Mortos de cansao, chegamos l. No havia ningum. Nem parecia que houvera distribuio de brinquedo. Mas houvera, sim, porque a rua estava cheia de papel de seda amarrotado. A areia estava toda colorida de papel rasgado.

Meu corao comeou a inquietar-se. Chegamos defronte e seu Coquinho estava fechando as portas do Cassino.

Falei, afogueado, para o porteiro:
- Seu Coquinho, j acabou tudo?

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- Tudo, Zez. Vocs vieram muito tarde. Foi uma enchente.

Fechou meia porta e sorriu com bondade.
- No sobrou nada. Nem para os meus sobrinhos. Fechou a porta toda e veio para a rua.
- Ano que vem, vocs precisam vir mais cedo, seus dorminhocos!...

- No faz mal. Bem que fazia. Estava to triste e decepcionado que preferia morrer a que tivesse acontecido aquilo.

- Vamos sentar ali. A gente precisa descansar um pouco.

- Estou com sede, Zez.
- Quando a gente passar no seu Rozemberg a gente pede um copo d'gua. Chega pra ns dois.

S ento ele descobriu toda a tragdia. Nem falou. Olhou pra mim, fazendo beicinho e com os olhos boiando.

- No faz mal, Lus. Voc sabe o meu cavalinho Raio de Luar? Eu vou pedir a Totoca mudar o cabo dele e dar de Papai Noel para voc.

Mas ele fungou comprido.
- No, no faa isso. Voc  um rei. Papai disse que batizou voc de Lus, porque era o nome de rei. E um rei no pode chorar na rua, defronte dos outros, viu?

Encostei a cabea dele no meu peito e fiquei alisando o seu cabelo encaracolado.

- Quando eu crescer vou comprar um carro bonito como o de seu Manuel Valadares. Aquele do Portugus, voc se lembra? Aquele que passou pela gente uma vez na Estao quando a gente estava dando adeus para o

Mangaratiba... Pois bem vou comprar um carro lindo daqueles cheio de presente e s para voc... Mas no chore que um rei no chora.

Meu peito explodiu numa mgoa enorme.

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- Juro que vou comprar. Nem que tenha de matar e roubar...

Por dentro no era meu passarinho que comentava aquilo. Devia ser o corao.

S assim mesmo. Por que o Menino Jesus no gosta de mim? Ele gosta at do boi e do burrinho do prespio. Mas de mim, no. Ele se vingava porque eu era afilhado do diabo. Se vingava de mim, deixando de dar presente ao meu irmo. Mas Lus, no merecia isso, porque era

um anjo. Nenhum anjinho do cu podia ser melhor do que ele...

A as lgrimas me desceram covardemente.
- Zez, voc est chorando...
- Passa logo. Mesmo eu no sou um rei, como voc. S sou uma coisa que no presta pra nada. Um menino muito malvado, bem malvado mesmo... S isso.

-  Totoca, voc tem ido na casa nova?
-  No. Voc tem ido?
-  Sempre que posso dou um pulo l.
-  Mas por que tudo isso?
-  Quero saber se Minguinho est bem.
-  Que diabo  Minguinho?
-   o meu p de Laranja Lima.
-  Voc arranjou um nome que se parece muito com

ele. Voc  danado para achar as coisas.

Riu e continuou a afinar o que seria o novo corpo do Raio de Luar.

-   ele est?
-  No cresceu nada.
-  E nem cresce se voc fica espiando o tempo todo. Est ficando bonito?  assim que voc queria o cabo?

-  Era. Totoca por que voc sabe fazer tudo, hem? Voc faz gaiola, galinheiro, viveiro, cerca, cancela...

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- Isso  porque nem todo mundo nasceu para ser poeta de gravata de lao. Mas se voc quisesse mesmo aprendia.

- Acho que no. Para isso  preciso a pessoa ter "inclinao". Ele parou um instante e me olhou entre rindo e reprovando aquela possvel novidade de Tio Edmundo.

Na cozinha, Dindinha tinha vindo para fazer rabanada molhada no vinho. Era a ceia de Natal. Era tudo.

Eu comentei para Totoca:
-  E olhe l. Tem gente que nem tem isso. Tio Edenundo foi quem deu o dinheiro para o vinho e para comprar as frutas da salada do almoo de amanh.

Totoca estava fazendo o trabalho de graa porque soube a histria do Cassino Bangu. Pelo menos Lus ia ganhar uma coisa. Uma coisa velha, usada, mas muito linda e que eu gostava muito.

- Totoca.
- Fale.
- Ser que a gente no vai ganhar nada, nada, de Papai Noel?

- Acho que no.
- Diga srio, voc acha que  'eu sou to ruim, to malvado como todo mundo diz?

- Malvado, malvado, no. O que acontece  que voc tem o diabo no sangue.

- Quando chega o Natal eu queria tanto no ter! Eu gostava tanto que antes de morrer, uma vez na vida, nascesse o Menino Jesus em vez do Menino Diabo, pra mim.

Quem sabe se ano que vem... Por que voc no aprende e no faz como eu?

- E como  que voc faz?
- No espero nada. Assim a gente no fica desapontado. Mesmo o Menino Jesus no  essa coisa to boa

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que todo mundo fala. Que o padre conta nem que o Catecismo diz...

Fez uma pausa e ficou indeciso se contava o resto do

que pensava ou no.

- E como  ento?
- Bem, vamos dizer que voc foi muito levado, no mereceu. Mas Lus?

-  um anjo.
- E Glria?
- Tambm.
-  E eu?
-  Bem, voc s vezes ... ... meio pegador das minhas coisas, mas  muito bonzinho.

- E Lal?
-  Bate com muita fora, mas  boa. Um dia vai costurar minha gravata de lao.

- E Jandira?
- Jandira  daquele jeito, mas no  ruim.
- E Mame?
- Mame  muito boa; s me bate com pena e devagar.

- E Papai?
- Ah! Esse eu no sei. Ele nunca tem sorte. Eu acho que ele deve ter sido como eu, o ruim da famlia.

- Pois ento. Todo mundo  bom na famlia. E por que o Menino Jesus no  bom pra gente? Vai na casa

do Dr. Faulhaber e veja o tamanho da mesa cheia de coisas. Na casa dos Villas-Boas, tambm. Na casa do Dr. Adaucto Luz, nem se fala...

Pela primeira vez eu vi que Totoca estava quase chorando.

- Por isso que eu acho que o Menino Jesus s quis nascer pobre para se mostrar. Depois Ele viu que s os

ricos  que prestavam... Mas no vamos mais falar disso.

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Pode ser at que o que eu falei seja um pecado muito grande.

Ele ficou to abatido que nem quis mais conversar. Nem mesmo queria levantar os olhos do corpo do cavalo que alisava agora.

Foi uma ceia to triste que nem dava vontade de pensar. Todo mundo comeu em silncio e Papai s provou um pouco de rabanada. No quisera fazer a barba nem nada. Nem foram  Missa do Galo. O pior era que ningum falava nada com ningum. Parecia mais o velrio do Menino Jesus do que o nascimento.

Papai pegou o chapu e saiu. Saiu mesmo de       tamancos, sem dar at logo nem desejar felicidades. Acho que foi por isso que no deu boas-festas. Dindinha tirou o

lencinho e limpou os olhos e pediu para ir embora com

Tio Edmundo. Tio Edmundo botou uma pratinha de quinhentos ris na minha mo e outra na mo de Totoca. Talvez ele quisesse dar mais e no tinha. Talvez ele quisesse em vez de dar pra gente, estar dando para os seus

filhos l na cidade. Foi por isso que eu o abracei. Talvez p nico abrao da noite de festas. Ningum se abraou ou quis dizer nada de bom. Mame foi para o quarto. Garanto que ela estava chorando escondido. E todos estavam com vontade de fazer o mesmo. Lal foi deixar Tio Edmundo e Dindinha no porto e comentou quando eles se afastaram andando devagarzinho, devagarzinho.

- Parece que esto velhinhos demais para a vida e cansados de tudo...

O mais triste  que o sino da igreja encheu a noite de vozes felizes. E alguns foguetes se elevaram aos cus, para Deus espiar a alegria dos outros.

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4 Laranja Lima

Quando voltamos para dentro, Glria e Jandira lavavam a loua usada e Glria tinha os olhos vermelhos como se tivesse chorado dodo.

Disfarou e disse para Totoca e eu:
- Est na hora de criana ir para a cama.

Ela falava isso e olhava para a gente. Ela sabia que naquele momento no havia criana mais ali. Todos eram

grandes, grandes e tristes, ceando a mesma tristeza aos pedaos.

Talvez que a culpa de tudo tenha sido a luz do lampio meio mortia que substitura a luz que a Light mandara cortar. Talvez.

Feliz era o Reizinho que dormia com o dedo na boca. Botei o cavalinho em p, bem perto dele. No pude evitar de passar as mos de leve em seus cabelos. Minha voz era um rio imenso de ternura.

- Meu pequerrucho. Quando toda a casa estava s escuras eu perguntei baixinho:

- Tava boa a rabanada, no estava Totoca?
- Nem sei. No provei.
- Por qu?
- Fiquei com uma coisa entalada no gog que no passava nada... Vamos dormir. O sono f az a gente esquecer tudo.

Eu me levantara e fazia barulho na cama.
- Onde voc vai, Zez?
- Vou botar meus tnis do lado de fora da porta.
- No ponha, no.  melhor.
- Vou pr, sim. Quem sabe, se no vai acontecer um milagre. Sabe, Totoca, eu queria um presente. Um s. Mas que fosse uma coisa novinha. S pra mim...

Ele virou para o outro lado e enfiou a cabea em-

baixo do travesseiro.

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Mal acabei de acordar e chamei Totoca.
- Vamos ver? Eu digo que tem.
- Eu no iria ver.
- Pois eu vou. Abri a porta do quarto e os sapatinhos tnis estavam vazios para a minha decepo. Totoca aproximou-se limpando os olhos.

- No falei? Uma mistura de tudo criou-se na minha alma. Era dio, revolta e tristeza. Sem poder me conter exclamei:

- Como  ruim a gente ter pai pobre!... Desviei meus olhos do tnis para uns tamancos que estavam parados  minha frente. Papai estava em p nos olhando. Seus olhos estavam enormes de tristeza. Parecia que seus olhos tinham crescido tanto, mas crescido tanto que tomavam toda a tela do cinema Bangu. Havia uma mgoa dolorida to forte nos seus olhos que se ele quisesse chorar no ia poder. Ficou um minuto que no acabava mais nos fitando, depois em silncio, passou por ns. Estvamos estatelados sem poder dizer nada. Ele apanhou o chapu sobre a cmoda e foi de novo para rua. S ento Totoca me tocou no brao.

- Voc  ruim, Zez. Ruim como cobra.  por isso que...

Calou-se emocionado.
- Eu no vi que ele estava ali.
- Malvado. Sem corao. Voc sabe que Papai est desempregado h muito tempo. Foi por isso que ontem eu no podia engolir, olhando o rosto dele. Um dia voc vai ser pai e vai saber o quanto di uma hora dessas.

Por mais, eu chorava.
- Mas eu no vi, Totoca, eu no vi...
- Sai de perto de mim. Voc no presta pra nada mesmo. Suma!

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Tive vontade de sair correndo pela rua e me agarrar chorando s pernas de Papai. Dizer que fora muito mau, muito mau mesmo. Mas continuava parado, sem saber o que fazer. Precisei me sentar na cama. E de l espiava os sapatinhos tnis no mesmo canto, vazio de tudo. Vazio como o meu corao que flutuava sem governo.

- Por que fui fazer isso, meu Deus? Logo hoje. Porque eu tinha de ser mais malvado ainda quando tudo j estava to triste. Com que cara eu vou olhar para ele na hora do almoo? Nem a salada de frutas vai conseguir descer.

E os olhos grandes dele, como tela de cinema, estavam grudados me olhando. Fechava os olhos e enxergava os olhos grandes, grandes...

Bati com o calcanhar na minha caixa de sapato e tive uma idia. Talvez assim Papai me perdoasse toda a maldade.

Abri a caixa de Totoca e apanhei emprestado mais uma lata de graxa preta porque a minha estava no fim. No falei com ningum. Sa caminhando triste pela rua

sem sentir o peso da caixinha. Parecia que eu estava caminhando sobre os olhos dele. Doendo dentro dos olhos dele.

Era muito cedo e todo mundo devia estar dormindo por causa da Missa e da Ceia. A rua estava cheia de crianas exibindo e comparando os brinquedos. Aquilo me abateu mais. Todos eram meninos bons. Nenhuma daquelas crianas nunca faria o que eu fiz.

Parei perto do "Misria e Fome" esperando encontrar um fregus. O botequim estava aberto at nesse

dia. No era  toa que tinham posto aquele apelido nele. Vinha gente de pijama, de chinelos, de tamanco, mas

sapato mesmo nenhum.

No tomara nem caf e no sentia nenhuma fome. Minha dor era muito maior que qualquer fome. Andei

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at  Rua do Progresso. Rodei o Mercado. Sentei na calada da padaria de seu Rozemberg e nada.

As horas foram se ligando s horas e eu no conseguia nada. Mas tinha que conseguir. Tinha.

O calor aumentou e a correia da caixa doa no meu ombro, sendo preciso trocar a caixa de posio. Senti sede e fui beber na biquinha do Mercado.

Sentei no degrau da porta da Escola Pblica que breve deveria me receber. Botei a caixa no cho e desanimei. Encostei a cabea nos joelhos como um boneco e fiquei sem vontade de nada. Depois escondi o rosto entre os joelhos, cobrindo-o com os braos. Era melhor morrer do que voltar para casa sem o que pretendia.

Um p bateu na minha caixa e uma voz conhecida e amiga me chamou.

- Eh seu engraxate, quem dorme no ganha dinheiro. Suspendi o rosto sem acreditar. Era seu Coquinho, o porteiro do Cassino. Colocou um p e eu primeiro passei o pano. Depois molhei o sapato e enxuguei. Depois  que comecei a passar a graxa com cuidado.

- O senhor pode, por favor, levantar um pouco a cala.

Ele obedeceu ao pedido.
- Engraxando hoje, Zez?
- Nunca precisei como hoje.
- E o Natal como foi?
- Foi regular. Bati com a escova na caixa e ele trocou de p. Repeti a manobra e comecei ento a lustrar. Quando acabei, bati na caixa e ele retirou o p.

- Quanto, Zez?
- Duzentos ris.
- Por que s duzentos ris? Todos cobram quatrocentos.

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- S quando eu for um bom engraxate mesmo  que posso cobrar tanto. Por enquanto, no.

Apanhou quinhentos ris e me deu.
- O senhor no quer pagar depois? Eu no fiz nada at agora.

- Fique com o troco pro Natal. At logo.
- Boas-festas, seu Coquinho. Talvez ele tivesse vindo engraxar por causa do que acontecera trs dias antes...

O dinheiro no bolso me deu um certo nimo que no durou muito; j passava de duas horas da tarde, gente tranava pelas ruas e nada. Ningum, nem para tirar o p e soltar um tosto.

Fiquei perto de um poste da Rio - So Paulo e soltava de vez em quando a minha voz fina.

- Graxa, fregus!
- Graxa, patro. Graxa para ajudar o Natal dos pobres!

Um carro de rico parou perto. Eu aproveitei para gritar sem esperana alguma.
- Uma mozinha, doutor. S pra ajudar o Natal dos pobres!

A senhora bem vestida e os meninos atrs no carro ficaram me espiando, espiando. A senhora se comoveu.

- Coitadinho, to pequeno e to pobrezinho. D qualquer coisa a ele, Artur.

Mas o homem me analisou, desconfiado.
- Isso  malandrinho e dos vivos. Ele est se aproveitando do tamanho e do dia.

- Mesmo assim eu vou dar. Vem ca, menininho. Abriu a bolsa e esticou a mo pela janela.
- No, senhora, obrigado. Eu no estou mentindo, no. S quem precisa muito trabalha num dia de Natal.

Apanhei a caixa e coloquei no ombro e fui andando devagar. Hoje no tinha nem mais fora de ter raiva.

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1 Mas a porta do carro abriu-se e um menininho desatou a correr para perto de mim.

- Tome, garoto. Mame mandou dizer que ela no acredita que voc seja mentiroso, no. Botou mais quinhentos ris no meu bolso e nem esperou que agradecesse... S ouvi o ronco do motor se afastando.

Quatro horas j tinham passado e eu continuava com os olhos de Papai me martirizando.

Fui procurando o caminho de volta. Dez tostes no davam, em todo caso podia ser que o Misria e Fome me fizesse mais barato ou me permitisse pagar o resto outro dia.

Num canto de uma cerca uma coisa me chamou a ateno. Era uma meia preta e furada de mulher. Abaixei e apanhei. Rodei ela na mo e ela ficou fininha. Guardei a meia na caixa, pensando: "d uma bela cobra".

Mas briguei comigo mesmo. "Outro dia. Hoje, de jeito nenhum"...

Cheguei perto da casa dos Villas-Boas. A casa tinha um jardim grande e o cho era todo cimentado. Serginho rodava entre os canteiros numa bela bicicleta. Botei o rosto na grade espiando:

Era toda vermelha e com pedaos e riscos amarelos e azuis. O metal alumiava de brilhante. Serginho viu e ficou se exibindo para mim. Corria, fazia curvas, dava freada que chegava a chiar. Ento se aproximou de mim.

- Gostou?
-  a bicicleta mais linda do mundo.
- Venha para perto do porto que voc ainda v melhor.

Serginho era da idade e da mesma aula que Totoca. Fiquei com vergonha dos meus ps descalos porque ele calava uns sapatos de verniz, usava meia branca e ligas de elstico vermelho. O brilho do sapato refletia tudo. At os olhos de Papai comearam a me olhar no brilho. Engoli em seco.

- Que foi, Zez? Voc est esquisito.
- Nada. De perto ela  mais bonita. Voc ganhou de Natal?

- Ganhei. Ele desceu da bicicleta para conversar melhor e abriu o porto.

- Ganhei foi coisa. Uma vitrola, trs ternos, um

monte de livros de histrias, caixa de lpis de cor das grandes. Uma caixa com todos os jogos, um avio que mexe a hlice. Dois barcos com vela branca...

Abaixei a cabea e me lembrei do Menino Jesus que s gostava de gente rica como Totoca falara.

- Que foi, Zez?
- Nada.
- E voc... ganhou muita coisa? Balancei a cabea, negativamente, sem poder responder.

- Mas nada? Nada mesmo?
- Esse ano no houve Natal l em casa. Papai ainda est desempregado.

- No  possvel. Vocs nem tiveram castanhas, avels, nem vinho?...

- S rabanada que Dindinha fez e caf. Serginho ficou pensativo.
- Zez, se eu convidar, voc aceita? Estava adivinhando o que era. Mas mesmo sem ter comido nada no tinha vontade.

- Vamos l dentro. Mame faz um prato para voc. Tem tanta coisa, tanto doce...


No me arriscava. Tinha sido muito judiado nesses dias. Por mais de uma vez j tinha escutado:

- "J no lhe disse para no trazer moleque de rua par dentro de casa?"

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- No, muito obrigado.
- Est bem. E se eu pedir a Mame para fazer um

pacote de castanhas e coisas para voc levar para seu irmozinho, voc leva?

- Tambm no posso. Tenho que acabar de trabalhar. Serginho s ento descobriu a minha caixinha de engraxar onde me sentara.

- Mas ningum engraxa no Natal...
- Eu passei o dia e s consegui ganhar dez tostes e

assim mesmo cinco deram de esmola. Tenho que ganhar ainda dois tostes.

- Para qu, Zez?
- No posso contar. Mas preciso muito mesmo.

Ele sorriu e teve uma idia generosa.
- Quer engraxar o meu? Eu lhe dou dez tostes.
- Tambm no posso. Eu no cobro dos amigos.
- E se eu lhe der, isto , se eu lhe emprestar os duzentos ris?

- Posso demorar a pagar?
- Como voc quiser. Pode at me pagar depois em

bola de gude.

- Assim, sim. Ele meteu a mo no bolso e me deu um nquel.
- No se incomode que eu ganhei muito dinheiro. Estou com o cofre cheinho.

Passei a mo na roda da bicicleta.
- Ela  linda mesmo.
- Quando voc crescer e souber andar eu deixo dar uma volta, t?

- T.

Sa em desabalada carreira para a venda do Misria e Fome, chacoalhando a caixa de engraxate.

Entrei de furaco, com medo que ele j fosse fechar.

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- O senhor tem ainda daquele cigarro caro? Ele apanhou duas carteiras quando viu o dinheiro na palma de minha mo.

- Isto no  para voc, , Zez? Uma voz por trs falou:
- Que idia! Um pequeno desse tamanho! Sem se virar ele contestou.
- Porque voc no conhece esse fregus. Esse danado  capaz de tudo.

-  para Papai. Sentia uma felicidade enorme rolando as carteiras na palma da mo.

- Essa ou essa?
- Voc  quem sabe.
- Passei o dia trabalhando para comprar este presente de Natal para Papai.

- Verdade, Zez? E o que ele te deu?
- Nada, coitado. Ele est ainda desempregado, o senhor sabe.

Ele ficou emocionado e ningum falou no bar.
- Qual o senhor gostava mais se fosse o senhor?
- As duas so lindas. E qualquer pai gostaria de receber um presente desse jeito.

- O senhor me embrulha essa, por favor. Ele embrulhou mas estava meio esquisito quando me

deu o pacotinho. Parecia querer dizer uma coisa e no conseguia.

Dei o dinheiro e sorri.
- Obrigado, Zez.
- Boas-festas para o senhor!... Corri de novo at em casa. A noite tinha chegado tambm. Havia a luz acesa do lampio apenas na cozinha. Todos tinham sado, mas

papai estava sentado na mesa olhando o vazio da parede.

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Apoiava o rosto na palma da mo e o cotovelo na mesa.
- Papai.
- O que , meu filho? No havia rancor nenhum em sua voz.
- Onde voc andou o dia todo? Mostrei a caixa de engraxar. Coloquei a caixa no cho e meti a mo no bolso tirando o pacotinho.

- Veja, Papai, comprei uma coisa linda para o senhor. Ele sorriu compreendendo o quanto custara aquilo.
- O senhor gosta? Era a mais bonita. Ele abriu a carteira e cheirou o fumo, sorrindo, mas no conseguia dizer nada.

- Fume um, Papai. Fui at ao fogo apanhar um fsforo. Risquei um e aproximei do cigarro em sua boca.

Me afastei para assistir a sua primeira tragada. E foi me dando uma coisa. Joguei o fsforo apagado no cho. E senti que estava estourando. Rebentando todo por dentro. Rebentando aquela dor to grande que passara o dia ameaando.

Olhei Papai. O seu rosto barbado, os seus olhos. S pude falar.
- Papai... Papai... E a voz foi sendo consumida pelas lgrimas e soluos. Ele abriu os braos e estreitou-me ternamente.
- No chore, meu filho. Voc vai ter muito que chorar pela vida, se continuar um menino assim to emotivo...

Eu no queria, Papai... Eu no queria dizer... aquilo.

- Eu sei. Eu sei. No fiquei zangado porque no fundo voc tinha razo.

Me embalou, um pouco mais.

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Depois levantou o meu rosto e enxugou-o com o pano de prato que estava jogado perto.

- Assim  melhor.            1 Suspendi as minhas mos e alisei o seu rosto. Passei os dedos de leve sobre os seus olhos tentando coloc-los no lugar, sem aquela tela grande. Tinha medo que se no o fizesse, aqueles olhos iriam me seguir a vida inteira.

- Vamos acabar o meu cigarro. Ainda com a voz tolhida de emoo gaguejei.
- Sabe, Papai, quando o senhor quiser me bater nunca mais eu vou reclamar... Pode me bater mesmo...

- Est bem. Est bem, Zez. Depositou a mim e o resto dos meus soluos no cho. Apanhou no armrio um prato. _  Glria guardou um pouco de salada de frutas para voc.

Eu no conseguia engolir. Ele sentou-se, foi levando pequenas colheradas  minha boca.

- Agora passou, no passou, meu filho? Fiz que sim com a cabea mas as primeiras colheres entravam na boca com gosto salgado. O resto do meu

choro que custava a passar.

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CAPTULO QUARTO

O passarinho, a escola e a flor

CASA NOVA. Vida nova e esperanas simples, simples esperanas.

L vinha eu entre seu Aristides e o ajudante, no alto da carroa, alegre como o dia quente.

Quando ela saiu da rua descala e entrou na Rio - So Paulo foi aquela maravilha, a carroa agora deslizava macia e gostosa.

Passou um carro lindo ao nosso lado.
- L vai o carro do portugus Manuel Valadares. Quando amos atravessando a esquina da Rua dos Audes, um apito ao longe encheu a manh.

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- Olhe seu Aristides. L vai o Mangaratiba.
- Sabe tudo voc, no?
- Conheo o grito dele. S as patas dos cavalos fazendo o toque-toque na estrada. Observei que a carroa no era muito nova. Ao contrrio. Mas era firme, econmica. Com mais duas viagens traria todos os nossos cacarecos. O burro no parecia muito firme. Mas eu resolvi agradar.

- O senhor tem uma carroa muito linda, seu Aristides.

- D pro que serve.
- E o burro tambm  bonito. Como se chama ele?
- Cigano. Ele no queria muito conversar.
- Hoje  um dia feliz pra mim. A primeira vez que eu ando de carroa. Encontrei o carro do Portugus e escutei o Mangaratiba.

Silncio. Nada.
- Seu Aristides, o Mangaratiba  o trem mais importante do Brasil?

- No.  o mais   importante dessa linha. No adiantava mesmo. Como era s vezes difcil entender gente grande!

Quando chegamos defronte da casa, entreguei a chave a ele e tentei ser cordial...

- O senhor quer que eu ajude em alguma coisa?
- S ajuda se no ficar em cima da gente atrapalhando. V brincar, que a gente chama voc quando voltar.

Peguei e fui.
- Minguinho, agora a gente vai viver sempre perto um do outro. Vou enfeitar voc de to bonito que nenhuma rvore pode chegar a seus ps. Sabe, Minguinho, eu viajei agora numa carroa to grande e macia que

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parecia uma diligncia daquelas das feitas de cinema. Olhe, tudo que eu souber, venho contar a voc, 't?

Cheguei perto do capinzal do valo e olhei a gua suja escorrendo.

-  Como foi que combinamos noutro dia que esse rio ia se chamar?

-  Amazonas.
-   mesmo. Amazonas. Ele l pra baixo deve estar cheio de canoa de ndio selvagem, no 't Minguinho?

- Nem me fale. S pode estar mesmo.

Nem bem a gente entrosava a conversa e l estava seu Aristides fechando a casa e me chamando.

- Voc fica ou vai com a gente?
- Vou ficar. Mame e minhas irms j devem vir vindo pela rua.

E fiquei estudando cada coisa de cada canto.

No comeo, por cerimnia ou porque queria impressionar aos vizinhos, me comportava bem. Mas uma tarde recheei a meia preta de mulher. Enrolei ela num barbante e cortei a ponta do p. Depois onde tinha sido o p peguei uma linha bem comprida de papagaio e amarrei. De longe, puxando devagarzinho parecia uma cobra e no escuro ela ia fazer sucesso.

De noite todo mundo tratava de sua vida. Parecia que a casa nova mudara o esprito de todos. Havia uma alegria na famlia que no se via h muito tempo.

Fiquei quietinho no porto esperando. A rua vivia da pouca iluminao dos postes e as cercas de altos crtons criavam sombras pelos cantos. Devia ter gente fazendo sero na Fbrica e o sero no ia alm das oito horas. Dificilmente passava das nove. Pensei na Fbrica um momento. No gostava dela. O seu apito triste de manh tornava-se mais feio s cinco horas. A Fbrica era um

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drago que todo dia comia gente e de noite vomitava o pessoal muito cansado. No gostava ainda porque Mister Scottfield fizera aquilo com Papai...

Pronto! L vinha uma mulher. Trazia uma sombrinha debaixo do brao e uma bolsa pendurada na mo. Dava at para ouvir o barulho do tamanco batendo os saltos na rua.

Corri a me esconder no porto e experimentei o puxador da cobra. Ela obedeceu. Estava perfeita. Ento eu

me escondi bem escondidinho atrs da sombra da cerca e fiquei com o puxador entre os dedos. O tamanco vinha perto, vinha perto, mais perto ainda e zquete! Comecei a puxar a linha da cobra. Ela deslizou devagar no meio da rua.

S que eu no esperava aquilo. A mulher deu um grito to grande que acordou a rua. Jogou a bolsa e a sombrinha pro alto e apertou a barriga sem deixar de berrar.

- Socorro! Socorro!... Uma cobra, minha gente. Me acudam.

As portas se abriram e eu soltei tudo, disparei pelo lado da casa, entrei na cozinha. Destampei depressa o

cesto de roupa suja e me meti dentro cobrindo o cesto com a tampa. Meu corao batia assustado e continuava ouvindo os gritos da mulher.

- Ai, meu Deus, que eu vou perder o meu filho de

seis meses.

A eu j no fiquei s arrepiado, comecei a tremer. Os vizinhos levaram ela para dentro e os soluos e

as queixas continuavam.

- No me aguento, no me aguento. E logo cobra que eu tenho pavor.

- Tome um pouco de gua de flor de laranjeira. Acalma. Fique calma porque os homens foram atrs da cobra com pedaos de pau, machado e um lampio para alumiar.

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Que confuso danada por causa de uma cobrinha de pano! Mas o pior  que o povo l de casa tambm tinha ido espiar. Jandira, Mame e Lal.

- Mas no  cobra, minha gente.  uma meia velha de mulher.

No meu medo esqueci de retirar a "cobra". Estava frito.

Atrs da cobra tinha a linha e a linha vinha de dentro do quintal.

Trs vozes conhecidas falaram ao mesmo tempo: -

Foi ele!

A caada agora no era da cobra. Olharam debaixo das camas. Nada. Passaram perto de mim, e eu nem respirava. Foram do lado de fora espiar na casinha.

Jandira teve uma idia.
- Eu acho que j sei! Levantou a tampa do cesto e eu fui erguido pelas orelhas at a sala de jantar.

Mame me bateu duro dessa vez. O chinelo cantou e eu tive mesmo que berrar para diminuir a dor e ela parar de me bater.

- Pestezinha! Voc no sabe como  duro carregar um filho de seis meses na barriga.

Lal comentou irnica:
- Estava demorando muito ele estrear a rua!
- Agora, para a cama, seu danado. Sa coando a bunda e me deitei de bruos. Sorte foi Papai ter ido jogar manilha. Fiquei no escuro engolindo o resto do choro e achando que a cama era a coisa melhor para sarar uma surra.

Levantei cedo no dia seguinte. Tinha duas coisas muito importantes para fazer: Primeiro dar uma espiada como quem no quer. Se a cobra estivesse ainda por l, apanhava

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ela e escondia dentro da camisa. Eu ainda podia usar ela em outro lugar. Mas no estava. Ia ser duro encontrar outra meia que ficasse to cobra como aquela.

Virei as costas e fui andando para a casa de Dindinha. Precisava falar com Tio Edmundo.

Entrei l sabendo que ainda era cedo para a sua vida de aposentado. Portanto ele no tinha sado para jogar no bicho, fazer a fezinha, como dizia, e comprar os jornais.

De fato, ele estava na sala fazendo uma pacincia nova.

- A bno, Titio! No respondeu. Estava fingindo de surdo. L em casa todo mundo dizia que ele gostava de fazer assim quando no interessava a conversa.

Comigo no tinha disso, no. Alis (como eu gostava da palavra alis) comigo nunca ele era muito surdo mesmo. Puxei a manga da camisa e achei como sempre bonito o suspensrio de xadrez branco e preto.

- Ah!  voc... Estava fingindo que no me vira.
- Como  o nome dessa pacincia, Titio?
-  a do Relgio.
-  bem bonita. Eu j conhecia todas as cartas do baralho. S que no gostava muito era do valete. No sei porque eles tinham jeito de empregados do Rei.

- Sabe, Titio, eu vim falar um negcio com o senhor.
- Estou acabando, quando acabar ns conversamos. Mas logo, logo, ele misturou todas as cartas.
- Acertou?
- No. Fez um montinho do baralho e deixou ele de lado.
- Bem, Zez, se esse negcio  "negcio" de dinheiro
- esfregou os dedos - estou pronto.

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- Nem um tostozinho para bola de gude? Ele sorriu.
- Um tostozinho pode ser; quem sabe? Ia meter a mo no bolso mas eu interrompi.
- Estou brincando, Titio, no  isso.
- Ento o qu? Sentia que ele se deliciava com as minhas "precocidades" e depois que eu li sem aprender, as coisas melhoraram muito.

- Eu queria saber uma coisa muito importante. O senhor  capaz de cantar sem estar cantando?

- No estou  entendendo bem.
- Assim -    e cantei uma estrofe da Casinha Pequenina.

- Mas voc   est cantando, no est?
- Pois a   que est. Eu posso fazer tudo isso por dentro sem cantar 'por fora.

Ele riu da singeleza mas no sabia aonde eu queria chegar.

- Olhe, Titio, quando eu era pequenininho eu achava que tinha um passarinho aqui dentro e que cantava. Era ele que cantava.

- Pois ento.  uma maravilha que voc tenha um

passarinho assim.

- O senhor no entendeu.  que agora eu ando meio desconfiado com o passarinho. E quando eu falo e vejo por dentro?

Ele entendeu e riu da minha confuso.
- Vou explicar para voc, Zez. Sabe o que  isso? Isso significa que voc est crescendo. E crescendo, essa coisa que voc diz que fala e v, chama-se o pensamento. O pensamento  que faz aquilo que uma vez

eu disse que voc teria logo...

- A idade da razo?

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- Bom que voc se lembre. Ento acontece uma maravilha. O pensamento cresce, cresce e toma conta de toda a nossa cabea e nosso corao. Vive em nossos olhos e em tudo que  pedao da vida da gente.

- Sei. E o passarinho?
- O passarinho foi feito por Deus para ajudar as

criancinhas a descobrirem as coisas. Depois ento quando o menino no precisa mais, ele devolve o passarinho a Deus. E Deus coloca ele em outro menininho inteligente como voc. No  bonito?

Eu ri, feliz, porque estava tendo um "pensamento".

. Agora vou embora. E o tostozinho? Hoje no. Vou ficar muito ocupado. Sa pela rua pensando em tudo. Mas eu estava lembrando uma coisa que me deixava muito triste. Totoca tinha um coleirinho muito lindo. Mansinho que subia no dedo dele quando mudava o alpiste. Podia at deixar a porta aberta que ele no fugia. Um dia Totoca esqueceu ele de fora no sol. E o sol quente matou ele. Me lembrava de Totoca com ele na mo, chorando, chorando e encostando o passarinho morto no rosto. A ele dizia:

- Nunca mais, nunca mais eu prendo um passarinho. Eu estava junto e disse:
- Totoca, eu tambm nunca vou prender. Cheguei em casa e fui direito a Minguinho.
- Xururuca, vim fazer uma coisa.
- O que ?
- Vamos esperar um pouco?
- Vamos. Sentei e encostei minha cabea no seu tronquinho.
- Que  que ns vamos esperar, Zez?
- Que passe uma nuvem bem bonita no cu.
- Pra qu?
-  Vou soltar o meu passarinho.

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@@K,

Vou, sim. No preciso mais dele... Ficamos olhando o cu.
-  aquela, Minguinho? A nuvem vinha andando devagar, bem grande, como se fosse uma folha branca toda recortada.

-  aquela, Minguinho. Levantei emocionado e abri a camisa. Senti que ele ia saindo do meu peito magro.

- Voa, meu passarinho. Bem alto. V subindo e

pouse no dedo de Deus. Deus vai levar voc para outro menininho e voc vai cantar bonito como sempre cantou para mim. Adeus, meu passarinho lindo!

Senti um vazio por dentro que no acabava mais.
- Olhe, Zez. Ele pousou no dedo da nuvem.
- Eu v@L Encostei minha cabea no corao de Minguinho e

fiquei olhando a nuvem ir-se embora.

- Eu nunca fui malvado com ele... A virei o meu rosto contra o seu galho.
- Xururuca.
- Que foi?
- Fica feio se eu chorar?
- Nunca  feio chorar, bobo. Por qu?
- No sei, ainda no me acostumei. Parece que aqui dentro a minha gaiola ficou vazia demais...

Glria me chamara muito cedo.
- Deixe ver as unhas. Mostrei as mos e ela aprovou.
- Agora as orelhas.
- Ih! Zez. Me levou no tanque, molhou um pano com sabo e foi esfregando a minha sujeira.

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- Nunca vi uma pessoa dizer que  um guerreiro Pinag e viver sempre sujinho! V se calando que eu

procuro uma roupinha decente pra voc.

Foi na minha gaveta e remexeu. E remexeu mais. E quanto mais remexia menos achava. Todas as minhas calcinhas ou eram furadas, rasgadas, remendadas ou cerzidas.

- No precisava nem contar para ningum. S vendo essa gaveta a pessoa descobria o menino terrvel que voc . Vista essa, est menos ruim.

E fomos ns embora para a descoberta "maravilhosa" que eu ia fazer.

Chegamos perto da Escola e uma poro de gente levava menino pela mo para matricular.

- No v fazer papel triste e nem esquecer de nada, Zez.

Ficamos sentados numa sala cheia de meninos e todos espiavam uns para os outros. At que veio a nossa vez

e entramos na sala da directora.

- Seu irmozinho?
- Sim, senhora. Mame no pode vir porque trabalha na cidade.

Ela me olhou bastante e os olhos dela ficavam grandes e pretos porque os culos eram muito grossos. Gozado  que ela tinha bigode de homem. Por isso  que ela devia ser directora. - Ele no  muito pequenininho?

-  franzino pra idade. Mas j sabe ler.
- Que idade voc tem, menino?
- Dia vinte e seis de fevereiro fiz seis anos, sim, senhora.

- Muito bem. Vamos fazer a ficha. Primeiro a filiao.

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Glria deu o nome de Papai. Quando chegou o nome

de Mame ela falou s: Estefnia de Vasconcelos. Eu no aguentei e soltei a minha correco.

- Estefnia Pinag de Vasconcelos.
- Como ?
- Glria ficou meio corada.
-  Pinag. Mame  filha de ndios. Fiquei todo orgulhoso porque eu devia ser o nico que tinha nome de ndio  naquela Escola.

Depois Glria assinou um papel e ficou parada, indecisa.

- Mais alguma coisa, moa?
- Eu queria saber a respeito dos uniformes... A senhora sabe... Papai est desempregado e somos bastante pobres.

E aquilo foi comprovado quando ela mandou que eu desse uma volta para ver o meu tamanho e nmero e acabou vendo os meus remendos.

Escreveu um nmero num papel e mandou a gente l dentro procurar Dona Eullia.

Dona Eullia tambm se admirou com o meu tamanho e o menor nmero que tinha, me fazia parecer um

pinto caludo.

- O nico  esse, mas est grande. Que menino miudinho!...

- Eu levo e encurto. Sa todo contente com dois uniformes de presente. Imagine a cara de Minguinho quando me visse de roupa nova e de aluno.

Com o passar dos dias eu contava tudo para ele. Como era, como no era.

- Tocam um sino grande. Mas no  grande assim como o da igreja. Voc sabe, no? Todo mundo entra no ptio grande e procura o lugar que tem a sua professora. Bem a ela faz a gente fazer fila de quatro e

vai tudo que nem carneirinho para dentro da aula. A gente se senta numa carteira que tem uma tampa que abre e fecha e guarda tudo dentro. Vou ter que aprender uma poro de hino, porque a professora disse que para ser bom brasileiro e "patriota" a gente tinha que saber o hino da nossa terra. Quando aprender eu canto, viu Minguinho?...

E vieram as novidades. As brigas. As descobertas de um mundo onde tudo era novo.

- Menina, onde  que voc vai com essa flor? Ela era limpinha e trazia na mo o livro e o caderno encapados. Usava duas trancinhas.

-  Levo pra minha professora.
- Por qu?
- Porque ela gosta. E toda aluna aplicada leva uma flor para a professora.

Menino tambm pode levar? Gostando da professora, pode. Ah! ?

Ningum tinha levado uma flor sequer para minha professora D. Ceclia Paim. Dev  'ia ser porque ela era feia. Se ela no tivesse uma pintinha no olho, no era to feia. Mas era a nica que dava um tosto pra num para comprar sonho recheado no doceiro de vez em quando, quando chegava o recreio.

Comecei a reparar nas outras aulas e todos os copos sobre a mesa tinham flores. S o copo da minha continuava vazio.

Mas aventura maior foi aquilo.
- Sabe, Minguinho, hoje apanhei um morcego.

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- O tal do Luciano que voc disse que vinha morar aqui nos fundos?

- No, bobinho. Morcego de andar. A gente pega os

carros que passam bem devagar perto da Escola e gruda no pneu que tem atrs. E vai viajando que  uma beleza. Quando chega na esquina que ele vai entrar, na

paradinha para ver se vem outro carro a gente pula. Mas pula com cuidado. Porque se saltar na velocidade achata a bunda no cho e rela os braos.

E ficava tagarelando tudo que acontecia na aula e no

recreio para ele. S vendo como ele ficou inchado de orgulho quando contei que na aula de leitura, D. Ceclia Paim disse que eu era quem melhor lia. O melhor "leitureiro". A fiquei com as minhas dvidas e resolvi que na primeira oportunidade ia perguntar a Tio Edmundo se era leitureiro mesmo.

- Mas falando de novo no morcego, Minguinho. Pra voc ter uma idia de como ,  quase to bom como

andar a cavalo em voc.

- Mas comigo voc no corre perigo.
- No corre, ? E quando voc galopa, que nem

louco, pelas campinas do Oeste quando a gente vai caar biso e bfalos? Esqueceu?

Ele teve que concordar porque nunca sabia discutir comigo e ganhar.

- Mas tem um, Minguinho. Tem um que ningum teve coragem de pegar. Sabe qual ? Aquele carro do Portugus, Manuel Valadares. Voc j viu nome mais feio do que esse? Manuel Valadares...

- , sim. Mas eu estou pensando uma coisa.
- Pensa que no sei o que voc est pensando? Sei, sim. Mas por enquanto no. Deixe eu treinar mais... Que eu me arrisco...

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E os dias foram se passando naquela alegria toda. Uma manh apareci com uma flor para minha professora. Ela ficou muito emocionada e disse que eu era um cavalheiro.

- Sabe o que , Minguinho?
- Cavalheiro  uma pessoa muito bem-educada parecida com um prncipe.

E todos os dias fui tomando gosto pelas aulas e me aplicando cada vez mais. Nunca viera uma queixa contra mim de l. Glria dizia que eu deixava o meu diabinho guardado na gaveta e virava outro menino.

- Voc acha que eu viro, Minguinho?
- Parece que acho.
-  assim, pois eu ia lhe contar um segredo e no conto.

Sa emburrado com ele. Mas ele nem ligou muito porque sabia que a minha zanga no durava nada.

O segredo ia acontecer de noite e meu corao quase saa do peito de ansiedade. Custou a Fbrica apitar e * povo passar. Os dias de vero demoravam a carregar * noite. At a hora da comida no chegava. Fiquei no

porto vendo as coisas sem idia de cobra nem nada. Fiquei sentadinho esperando Mame. At Jandira estranhou e perguntou se eu estava com dor de barriga por ter comido fruta verde.

O vulto de Mame apareceu na esquina. Era ela. Ningum no mundo se parecia com ela. Levantei de um pulo e corri.

- A bno, Mame. Beijei a mo dela. At na rua mal iluminada eu via que o rosto dela estava cansado.

- Trabalhou muito hoje, Mame?
- Muito, meu filho. Fazia um calor dentro do tear que ningum aguentava.

- Me d a sacola; a senhora est cansada.

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Comecei a carregar a sacola com a marmita vazia dentro.

- Muita arte hoje?
- Pouquinho, Mame.
- Por que voc veio me esperar? Ela estava adivinhando.
- Mame, a senhora gosta pelo menos um bocadinho de mim?

- Gosto de voc como gosto dos outros. Por qu?
- Mame, a senhora conhece o Nardinho? Aquele que  sobrinho da Pata Choca?

Ela riu.
- Me lembro.
- Sabe, Mame. A me dele fez um terninho para ele, lindo.  verde com risquinha branca. Tem um coletinho que abotoa no pescoo. Mas ficou pequeno pra ele. E ele no tem irmo pequeno pra aproveitar. E ele disse que queria vender... A senhora compra?

- Ih! meu filho! As coisas esto to difceis!
- Mas ele vende de duas vezes. E no  caro. No paga nem o feitio.         '0@I

Estava repetindo as frases de Jacob prestamista. Ela guardava silncio, fazendo contas.
- Mame eu estou sendo o aluno mais estudioso da minha aula. A professora diz que vou ganhar distino... Compre, Mame. Eu no tenho uma roupinha nova faz muito tempo...

Mas o silncio dela chegava at a angustiar.
- Olhe, Mame, se no for esse, nunca vou ter minha roupa de poeta. Lal faz uma gravata assim de lao grande de um pedao de seda que ela j tem...

- Est bem, meu filho. Eu vou fazer uma semana de sero e compro a sua roupinha.

A eu beijei a mo dela e fui andando encostando o rosto em sua mo at dentro de casa.

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Foi assim que eu ganhei minha roupa de poeta. Fiquei to lindo que Tio Edmundo me levou para tirar um retrato.

A escola. A flor. A flor. A escola... Tudo ia muito bem quando Godofredo entrou na

minha aula. Pediu licena e foi falar com D. Ceclia Paim. S sei que ele apontou a flor no copo. Depois saiu. Ela olhou para mim com tristeza.

Quando terminou a aula, me chamou.
- Quero falar uma coisa com voc, Zez. Espere um pouco.

Ficou arrumando a bolsa que no acabava mais. Se via que no estava com vontade nenhuma de me falar e procurava a coragem entre as coisas. Afinal se decidiu.

- Godofredo me contou uma coisa muito feia de voc, Zez.  verdade?

Balancei a cabea afirmativamente.
- Da flor? , sim, senhora.
- Como  que voc faz?
- Levanto mais cedo e passo no jardim da casa do Serginho. Quando o porto est s encostado, eu entro depressa e roubo uma flor. Mas l tem tanta que nem faz falta.

- Sim. Mas isso no  direito. Voc no deve fazer mais isso. Isso no  um roubo, mas j  um furtinho".

- No  no, D. Ceclia'  - O mundo no  de Deus? Tudo que tem no mundo no  de Deus? Ento as flores so de Deus tambm...

Ela ficou espantada com a minha lgica.
- S assim que eu podia, professora. L em casa no tem jardim. Flor custa dinheiro... E eu no queria que a mesa da senhora ficasse sempre de copo vazio.

Ela engoliu em seco.

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- De vez em quando a senhora no me d dinheiro para comprar um sonho recheado, no d?...

-  Poderia lhe dar todos os dias. Mas voc some...
-  Eu no podia aceitar todos os dias...
-  Por qu?
-  Porque tem outros meninos pobres que tambm no trazem merenda.

Ela tirou o leno da bolsa e passou disfaradamente nos olhos.

- A senhora no v a Corujinha?
- Quem  a Corujinha?
- Aquela pretinha do meu tamanho que a me enrola o cabelo dela em coquinhos e amarra com cordo.

- Sei. A Dorotlia.
- , sim, senhora. A Dorotlia  mais pobre do que eu. E as outras meninas no gostam de brincar com

ela porque  pretinha e pobre demais. Ento ela fica no canto sempre. Eu divido o sonho que a senhora me d, com ela.

Dessa vez ela ficou com o leno parado no nariz muito tempo.

- A senhora de vez em quando, em vez de dar para mim, podia dar para ela. A me dela lava roupa e tem onze filhos. Todos pequenos ainda. Dindinha, minha av, todo sbado d um pouco de feijo e de arroz para ajudar eles. E eu divido o meu sonho porque Mame ensinou que a gente deve dividir a pobreza da gente com quem  ainda mais pobre.

As lgrimas estavam descendo.
- Eu no queria fazer a senhora chorar. Eu prometo que no roubo mais flores e vou ser cada vez mais um aluno aplicado.

- No  isso, Zez. Venha c. Pegou as minhas mos entre as dela.

77

III-----~~

- Voc vai prometer uma coisa, porque voc tem um corao maravilhoso, Zez.

- Eu prometo, mas no quero enganar a senhora. Eu no tenho um corao maravilhoso. A senhora diz isso porque no me conhece em casa.

- No tem importncia. Pra mim voc tem. De agora em diante no quero que voc me traga mais flores. S se voc ganhar alguma. Voc promete?

- Prometo, sim senhora. E o copo? Vai ficar sempre vazio?

- Nunca esse copo vai ficar vazio. Quando eu olhar para ele vou sempre enxergar a flor mais linda do mundo. E vou pensar: quem me deu essa flor foi o meu melhor aluno. Est bem?

Agora ela ria. Soltou minhas mos e falou com doura.
- Agora pode ir, corao de ouro...

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LTIMO CAPTULO DA PRIMEIRA PARTE

Numa cadeia eu hei de ver-te morrer

A PRIMEIRA COISA e muito til que a gente aprendera na Escola, eram os dias da semana. E dono dos dias da semana, eu sabia que "ele" vinha na tera-feira. Depois descobri tambm que ele uma tera-feira ia para as

ruas do outro lado da Estao e na outra, vinha para o nosso lado.

Foi por isso que nessa tera-feira eu gazeteei a aula. Nem queria que Totoca soubesse; seno teria que pagar bolas de gude para ele no contar em casa. Como era cedo e ele deveria aparecer quando o relgio da igreja batesse nove horas, eu fui dar uma volta pelas ruas.

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Ruas sem perigo,  claro. Primeiro parei na Igreja e dei uma olhada nos santos. Sentia um certo medo de ver as imagens paradas, cheias de vela. As velas piscando faziam o santo piscar tambm. No sabia ainda se era muito bom ser santo e ficar o tempo todo parado, parado.

Dei uma volta pela sacristia e seu Zacarias estava tirando as velas velhas dos castiais e colocando as novas. Juntava um bando de toquinho em cima da mesa.

- Bom dia, seu Zacarias. Ele parou, colocou os culos na ponta do nariz, fungou, desvirou~se e respondeu:

- Bom dia, menino.
- O senhor quer que eu ajude? Meus olhos devoravam os toquinhos de vela.
- S se voc quiser atrapalhar. No foi pra aula hoje?

- Fui. Mas a professora no veio. Ficou com dor de dente.

- Ah! A ele tornou a se desvirar e colocar os culos na ponta do nariz.

- Que idade voc tem menino?
- Cinco. No, seis. Seis no, cinco mesmo.
- Afinal cinco ou seis? Pensei na Escola e menti.
- Seis.
- Pois com seis anos j est bom de comear o Catecismo.

- E eu posso?
- Por que no?  s vir toda quinta-feira s trs horas da tarde. Quer vir?

- Depende. Se o senhor me der os toquinhos de vela, eu venho.

- Para que voc quer toco de vela?
O diabo j me cotucara uma coisa. Menti de novo.

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-  pra encerar a linha do meu papagaio e ela fica forte.

- Ento leve. Reuni os toquinhos e meti no meio da sacola com os cadernos e as bolas de gude. Estava delirante.

- Muito obrigado, seu Zacarias.
- Olhe l, hem? Quinta-feira. Sa voando. Como era cedo dava tempo de fazer aquilo. Corri para defronte do Cassino e quando no vinha ningum, atravessei a rua e passei o mais depressa possvel os toquinhos de cera na calada. Depois voltei correndo e fui esperar sentado na calada de uma das quatro portas fechadas do Cassino. Queria ver de longe, quem ia escorregar primeiro.

J estava quase desanimado de esperar. Subitamente, pluft! Meu corao deu um pulo, Dona Corinha, me de Nanzeazena, saiu com um leno e um livro no porto e comeou a dirigir-se para a igreja.

- Virgem! Logo ela que era amiga de minha me e Nanzeazena amiga ntima de Glria. Nem queria ver. Abri num carreiro para a esquina e parei para olhar. Ela se tinha esborrachado no cho e xingava.

Juntou gente para ver se ela se machucara, mas pelo jeito de xingar ela devia ter s ralado um pouquinho.

- So esses moleques sem-vergonha que andam por a.

Respirei aliviado. Mas no to aliviado que deixasse de perceber que uma mo por trs me segurou a sacolinha.

- Aquilo foi coisa sua, no foi, Zez? Seu Orlando-Cabelo-de-Fogo. Logo ele que fora nosso vizinho tanto tempo. Perdi a fala.

- Foi ou no foi?

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- O senhor no conta l em casa?
- No vou contar. Mas venha c, Zez. Dessa vez passa porque aquela velha  muito linguaruda. Mas no torne a fazer isso que algum pode quebrar uma perna.

Fiz a cara mais obediente do mundo e ele me soltou. Voltei a rondar o Mercado, esperando que ele chegasse. Antes passei na confeitaria de seu Rozemberg, sorri e falei para ele:

- Bom dia, seu Rozemberg. Ele deu um bom dia seco, e nada de dar doce. Filho da puta! S dava mesmo quando eu estava com Lal.

- Pronto, l vai ele. Nessa hora o relgio bateu as pancadas das nove horas. Ele nunca falhava. Fui seguindo os seus passos a distncia. Ele entrou na Rua do Progresso e parou quase na esquina. Depositou a sacola no cho e jogou o palet sobre o ombro esquerdo. Ah que linda camisa de xadrez! Quando eu ficar homem s vou usar camisa assim. E ainda por cima ele tinha um leno vermelho no pescoo

e o chapu cado para trs. A ele meteu a voizona grossa que encheu a rua de alegria.

- Se chegue, minha gente! As novidade do dia! A sua voz de baiano era linda tambm.
- Os sucessos da semana. Claudionor!... Perdo... A ltima rhsica do Chico Viola. O ltimo sucesso de Vicente CLstino. Aprenda minha gente que  a ltima moda.

Aquela maneira bonita de falar as palavras quase cantando me deixava fascinado.

Eu queria que cantasse era Fanny. Ele sempre cantava e eu queria aprender. Quando chegava no pedao de "Numa cadeia eu hei de ver-te morrer"... Ficava at arrepiado de tanta beleza. Ele abriu o vozeiro e cantou o Claudionor.

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"Eu fui a um samba l no morro da Mangueira Uma cabrocha me chamou de tal maneira... Eu no vou l, tenho medo de apanhar. Seu marido  muito forte.  capaz de me matar...

No vou fazer como fez o Claudionor Para sustentar famlia, foi bancar o estivador"...

Parava e anunciava.
- Folhetos de todos os preos, desde um tosto a quatrocentos ris. Sessenta cantigas novas! Os ltimos tangos.

A chegou a minha felicidade. FANNY.

"Aproveitaste ela estar assim sozinha

E no ter tempo de chamar uma vizinha... Apunhalaste sem ter d nem compaixo,

(Ento sua voz ficava suave, doce, terna de cortar o

corao mais duro).

A pobre, pobre Fanny que tinha bom corao.

Por Deus eu juro que tambm hs de sofrer... Numa CADEIA EU HEI DE VER-TE MORRER Apunhalaste sem ter d nem compaixo A pobre, pobre Fanny que tinha bom corao".

Gente saa das casas e comprava um folheto, no antes sem examinar o que mais agradasse. Vai dai que eu j estava grudado nele por causa da Fanny.

Virou-se para mim com um sorriso enorme.
- Quer um, menino?
- No, senhor. No tenho dinheiro.
- Logo vi.

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Pegou a sua sacola e andou mais gritando pela rua.
- A valsa Perdo! "Fumando, espero" e "Adeus, rapazes", os tangos mais cantados ainda que "Noite de Reis". Na cidade s se canta esse tango... "Luz celestial", uma lindeza de coisa. Vejam que letra!

E abria o peito.

"Tens no teu olhar a luz celestial que me faz crer... Ver uma irradiao de estrelas a brilhar no espao sideral. Juro at por Deus, que mesmo l nos cus no pode haver Olhos que seduzam tanto quanto os teus...

Oh! Deixa que teus olhos fitem bem os meus pra recordar A histria triste de um amor nascido em ondas de luar... Olhos que dizem bem e sem poder falar o quanto  desditoso amar..."

Anunciou mais coisas, vendeu alguns folhetos e deu comigo. Parou e me chamou com os dedos.

- Vem c, pinu. Obedeci, rindo.
- Voc vai ou no vai deixar de me seguir?
- No, senhor. Ningum no mundo canta to bonito como o senhor.

Ele se sentiu meio lisonjeado e um tanto desarmado, Eu vi que comeava a ganhar a parada.

- Mas voc est parecendo piolho-de-cobra.
-  que eu queria ver se o senhor cantava mesmo melhor do que Vicente Celestino e Chico Viola. E canta mesmo.

Ele deu um sorriso.

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- E voc j ouviu eles, pinu?
- J, sim senhor. Numa vitrola na casa do filho do Dr. Adaucto Luz.

- Ento  porque a vitrola era velha ou a agulha estava estragada.

- No senhor. Vitrola novinha que tinha acabado de chegar.  que o senhor canta mesmo muito melhor. At eu estive pensando uma coisa.

- Piga.
- Eu sigo o senhor todo o tempo. Bem. O senhor me ensina quanto custa cada folheto. A o senhor canta e eu vendo o folheto. Todo mundo gosta de comprar de criana.

- No  m idia, pinu. Mas me diga uma coisa. Voc vai porque quer. Eu no posso lhe pagar nada.

- Mas eu no quero nada.
- Ento por qu?
-  que eu gosto muito de cantar. Gosto de aprender. E acho que Fanny  a coisa mais linda do mundo. Agora se no fim o senhor vendesse muito mesmo, pegava um folheto velho que ningum quisesse comprar, a o senhor me dava para eu levar para a minha irm.

Ele tirou o chapu e coou a cabea onde os cabelos eram quase rentes.

- Eu tenho uma irm mocinha chamada Glria e eu levava para ela. S.

- Ento vamos. E fomos cantando e vendendo. Ele cantava e eu ia aprendendo.

Quando deu meio-dia ele me olhou meio cismado.
- E voc no vai para casa almoar?
- S quando acabar nosso trabalho. Coou de novo a cabea.
- Venha comigo.

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Sentamos num boteco da Rua Ceres e ele apanhou um sanduicho do fundo da sacola. Tirou uma faca da cintura. Uma faca de meter medo. Cortou um pedao do sanduche e me deu. Depois bebeu uma bicada de cachaa e pediu dois refrescos de limo para acompanhar a merenda. Ele falava merenda. Enquanto levava o sanduche  boca me examinava com os olhos e os olhos dele estavam muito contentes.

- Sabe, pinu. Voc est me dando sorte. Eu tenho uma fileira de menino buchudo e nunca tive a idia de aproveitar um para me ajudar.

Tomou um gole grande de limonada.

Que idade voc tem? Cinco. Seis... Cinco. Cinco ou seis? Ainda no fiz seis. Pois voc  um menino muito inteligente e bonzinho.

- Ento quer dizer que tera-feira que vem a gente se encontra?

Ele riu.
- Se voc quiser.
- Quero sim. Mas vou ter de combinar com minha irm. Ela vai entender.

At que  bom, porque para o outro lado da Estao eu nunca fui.

- Como  que voc sabe que eu vou para l?
- Porque toda tera-feira eu espero pelo senhor. Uma o senhor vem e outra no. Ento eu pensei que o senhor ia pro outro lado da linha.

- Mas que danadinho! Como voc se chama?
- Zez.
- Eu, Ariovaldo. Toque. Pegou minha mo entre suas mos calejadas para ficarmos amigos at a morte.

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No foi muito difcil convencer Glria.
- Mas Zez, um dia por semana? E as lies? Mostrei o meu caderno para ela e minhas cpias estavam todas bem feitinhas e caprichadas. As notas eram timas. Fiz o mesmo com o caderno de aritmtica.

- E na leitura, Godia. Eu sou o melhor. Mesmo assim ela no se decidia.
- O que a gente est estudando demora ainda seis meses repetindo a mesma coisa. At que aquela cambada de burro aprenda, vai tempo.

Ela riu.
- Que expresso, Zez.
- Mesmo, Glria, a gente aprende muito mais cantando. Quer ver quanta coisa nova eu aprendi? Depois Tio Edmundo me ensinou. Veja: estivador, celestial, sideral e desditoso. Ainda por cima trago um folheto por semana, e ensino a voc as coisas mais lindas do mundo.

- . Mas tem uma coisa, o que diremos a Papai quando ele notar que toda a tera-feira voc no vem almoar?

- Nem nota. Se uma vez perguntar, a gente mente. Voc diz que eu fui almoar com Dindinha. Que fui levar um recado para Nanzeazena e fiquei l para almoar.

Virgem Maria! Ainda bem que era de faz de conta porque se aquela velha soubesse o que eu tinha feito!...

Ela acabou concordando porque sabia que era um

jeito de eu no inventar traquinagem e, portanto, no apanhar muito. Depois era gostoso na quarta-feira ficar debaixo das laranjeiras ensinando ela a cantar.

No via a hora de chegar tera-feira. Eu j ia esperar seu Ariovaldo na Estao. Quando ele no perdia o trem, chegava s oito e meia.

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Flanava por todo canto vendo tudo. Gostava de passar na confeitaria e olhar o povo descendo as escadas da Estao. Ali que era lugar bom para engraxar. Mas Glria no deixava. Porque a polcia corria atrs da gente e tomava a caixa. E ainda por cima tinha os trens. Eu s podia ir com seu Ariovaldo se ele me desse a mo, mesmo para atravessar a linha por cima da ponte.

A ele vinha afobado. Depois de Fanny, ele se convenceu que eu sabia o que o povo gostava de comprar.

A gente ia se sentar no muro da Estao, bem defronte do jardim da Fbrica e ele abria o folheto principal e me mostrava a msica, cantando um comeo. Quando eu no achava boa, ele mudava para outra.

- Essa aqui  nova-" Malandrinha". Cantou de novo.
- Cante de novo. Ele repetiu a estrofe final.
- Essa, seu Ariovaldo, e mais Fanny e os tangos, a gente vai vender tudo.

E fomos pelas ruas cheias de sol e de poeira. ramos ns os passarinhos alegres que confirmavam o vero.

O seu vozeiro lindo abria a janela da manh.
- O sucesso da semana, do ms e do ano. "Malandrinha" que Chico Viola gravou.

"A lua vem surgindo cor de prata

No alto da montanha verdejante E a lira do cantor em serenata Acorda na janela a sua amante.

Ao som da melodia apaixonada Nas cordas do sonoro violo Confessa o seresteiro  sua amada
O que dentro lhe vai no corao"...

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A ele fazia uma pequena pausa, batia duas vezes

com a cabea e eu entrava com minha vozinha afinada.

" linda imagem de mulher que me seduz@

Ai se eu pudesse tu estarias num altar. s a imagem dos meus sonhos, s a luz, s malandrinha, no precisas trabalhar"...

Era uma coisa! Mocinhas vinham correndo comprar. Cavalheiros, gente de todo tamanho e de todos os jeitos.

Eu gostava mesmo era de vender os folhetos de quatrocentos ris e de quinhentos. Quando era moa j sabia.

Seu troco, dona. Guarde para comprar bala. Eu estava at pegando o modo de seu Ariovaldo falar. Meio-dia, j sabe. A gente entrava no primeiro boteco e trquete, trquete, trquete, devorava o sanduche ora com refresco de laranja, ora de groselha.

Ento eu metia a mo no bolso do troco e esparramava sobre a mesa.

- Taqui, seu Ariovaldo. E empurrava os niqueis para o seu lado.

Ele soi@ria e comentava:
- Voc  um garotinho decente, Zez.
- Seu Ariovaldo que  que  pinu como o senhor me chamava antigamente?

- Na minha terra, a santa Bahia, quer dizer, menininho buchudo, pequeno, miudinho...

Ele coou a cabea e botou a mo na boca para dar um arroto.

Pediu desculpas e apanhou um palito para usar. E o dinheiro continuava no mesmo canto.

- Eu tive pensando, Zez. De hoje em diante voc pode ficar com os trocadinhos. Afinal ns agora somos  um dupla.

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- Que  dupla?
- Quando duas pessoas cantam juntas.
- Ento posso comprar uma maria-mole?
- O dinheiro  seu. Faa o que bem entender.
- Obrigado, "companheiro". Ele riu da imitao. Agora era eu que comia o doce e olhava para ele.

- Eu sou mesmo dupla?
- Agora .
- Ento o senhor deixa eu cantar a parte do corao da Fanny. O senhor canta forte e eu entro de corao com a voz mais doce do mundo.

- No  m idia, Zez.
- Pois quando a gente voltar depois do almoo. Vamos comear com Fanny que d uma sorte danada.

E debaixo do sol quente recomeamos o trabalho.

Estvamos tocando a Fanny para frente quando aconteceu um desastre. Dona Maria da Penha, vinha l muito beata debaixo da sombrinha, com a cara branca de p de arroz. Ficou parada ouvindo a nossa Fanny. Seu Ariovaldo adivinhou tragdia e me cutucou para que continuasse "cantando mas andasse tambm.

Qual o qu! Eu estava to fascinado com o corao da Fanny que nem dei f.

Dona Maria da Penha fechou a sombrinha e ficou batendo com a ponta no bico do sapato. Quando acabei, fechou uma cara de raiva danada e exclamou:

- Muito bonito. Muito bonito mesmo uma criana cantar uma imoralidade dessas.

- Dona, meu trabalho no tem nada de imoral. Qualquer trabalho honesto  trabalho e eu no me envergonho, sabe?

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Nunca vi seu Ariovaldo to encrespado. Ela queria briga, ento pronto.

-  Essa criana  seu filho?
-  No senhora, infelizmente.
-  Seu sobrinho, seu parente?
- Nada de meu.
-  Que idade tem?
-  Seis anos.

Ela duvidou olhando o meu tamanho. Mas continuou.
- O senhor no tem vergonha de explorar uma criancinha?

- No estou explorando coisa nenhuma, dona. Ele canta comigo porque quer e gosta, viu? Depois eu pago a ele, no pago?

Fiz sim com a cabea. Eu estava achando danado de bom a briga. Minha vontade era dar uma cabeada na barriga dela e ver o barulho no cho. Bum!

- Pois fique sabendo que eu vou tomar providncias. Vou falar com o Senhor Padre. Vou f alar com o Juizado de Menores. Vou at  Polcia.

A ela calou a boca e arregalou os olhos amedrontada. Seu Ariovaldo tinha puxado aquela faca enorme e chegado perto dela. Via a hora de ela ter um faniquito.

- Pois, v, dona. Mas v logo. Eu sou muito bom mas tenho a mania de cortar lngua de bruxa faladeira que se mete na vida alheia...

Ela saiu dura como uma vassoura e longe virou-se e apontou a sombrinha!...

- O senhor vai ver s!...
- Desaparea sua Bruxa de Croxx!...

Ela abriu a sombrinha e foi sumindo na rua, toda durinha da vida.

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De tardinha, seu Ariovaldo contava o lucro.
- Foi tudo, Zez. Voc tinha razo. Voc me d sorte. Me lembrei de Dona Maria da Penha.
- E ela vai fazer alguma coisa?
- Vai nada, Zez. O mximo  conversar com o padre e o padre vai aconselhar:

-  melhor deixar, Dona Maria. Essa gente do Norte no  de brincadeira.

Meteu o dinheiro no bolso e enrolou a sacola. Depois, como sempre fazia, meteu a mo no bolso das calas e apanhou um folheto dobrado.

- Esse  de sua irmzinha Glria. Espreguiou-se.
- Foi um dia pai d'gua! Ficamos descansando um minuto.
- Seu Ariovaldo.
- Que foi?
- Que  Bruxa de Croxx?
- E eu sei, meu filho? Inventei na hora da raiva. Deu uma risada gostosa.

E o senhor ia furar mesmo ela? Nada. Foi s para assustar. Se furasse ia sair tripa ou capim de boneca? Ele riu, coou minha cabea com amizade.
- Quer saber de uma coisa, Zez? Eu acho que saa era merda mesmo.

Rimos os dois.
- Mas no tenha medo, no. Eu no sou macho de matar nada. Nem galinha. Meu medo da minha mulh  tanto que at apanho de cabo de vassoura dela.

Levantamos, ele foi at a estao. Apertou minha mo e falou:

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- Por garantia a gente vai passar um par de viz, sem passar naquela rua.

Apertou com mais fora minha mo.
- Int tera que vem, companheiro. Balancei a cabea afirmativamente enquanto ele devagar subia um a um os degraus da escada.

L de cima ele gritou:
- Voc  um anjo, Zez... Dei adeus e comecei a rir.
- Anjo!  porque ele no sabe...

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SEGUNDA PARTE

Foi quando apareceu o Menino Deus

em toda a sua tristeza

CAPTULO PRIMEIRO

O morcego

-  CORRE, ZZ, seno voc vai perder a Escola!

Estava sentado na mesa tomando minha caneca de caf, com o po seco, e mastigando tudo sem pressa alguma. Como sempre apoiava o cotovelo na mesa e ficava espiando a folhinha pregada na parede.

Glria ficava nervosa e afogueada. No via a hora da gente sumir a manh todinha e deix-la em paz com os servios da casa.

- Ande, diabinho. Voc nem penteou os cabelos; voc devia fazer como Totoca que sempre est pronto na hora.

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Vinha da sala com um pente e alisava minha franjinha loura.

- Tambm esse gato ruo no tem nada que pentear. Me suspendia da cadeira e me examinava todo. Se a bluzinha estava decente e as calas tambm.

- Agora vamos, Zez. Totoca e eu pnhamos as nossas sacolinhas a tiracolo. S os livros, os cadernos e o lpis. Lanche nenhum, aquilo ficava para os outros meninos.

Glria apertou o fundo da minha sacolinha, sentiu o

volume das bolas de gude e sorriu; nas mos a gente carregava os sapatos tnis para calar quando chegasse ao Mercado, perto da Escola.

Mal a gente pegava a rua, Totoca sumia na carreira deixando-me sozinho andando devagar. A eu j comeava a acordar o meu diabo arteiro. Gostava mesmo que ele se adiantasse para poder reinar  vontade. Meu fascnio era a estrada Rio-So Paulo, Morcego. Sem dvida o morcego. Pegar traseira nos automveis e sentir a estrada fazendo vento na gente, correndo e chiando. Aquilo era a melhor coisa do mundo. Todos ns fazamos; Totoca me ensinara, com mil recomendaes para segurar bem, porque os outros carros que vinham atrs eram um perigo. Aos poucos aprendia a perder o

medo e o sentido da aventura instigava mais a gente a pegar os morcegos mais difceis. Eu estava ficando to danado que at no carro de seu Ladislau j morcegara; s faltava mesmo no carro lindo do Portugus. Carro bonito e bem tratado estava ali. Os pneus sempre novinhos. Tudo que era metal to reluzente que dava para refletir as pessoas. A buzina dava gosto: era um mugido rouco como se fosse uma vaca no campo. E ele passava duro, dono daquela beleza toda, com a cara mais fechada do mundo. Ningum se atrevia a pegar uma carona

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no seu pneu traseiro. Diziam que ele batia, matava e

ameaava de capar antes de matar. Nenhum menino da Escola se atrevia ou se atrevera at agora.

Quando eu estava conversando sobre isso com Minguinho ele falou.

- Ningum mesmo, Zez?
- Ningum mesmo. Ningum tem coragem. Senti que Minguinho estava rindo, quase adivinhando o que eu pensava naquele instante.

- Mas voc est doido para pegar uma, no?
- Que estou, estou mesmo. Eu acho que...
- Que  que voc acha?... A quem tinha rido era eu.
- Diga logo.
- Voc  curioso que  danado.
- Voc me conta sempre; sempre acaba contando, no aguenta.

- Sabe de uma coisa, Minguinho? Eu saio de casa s sete horas, no ? Quando chego na esquina so sete e cinco. Pois bem, s sete e dez o Portugus pra o carro na esquina do botequim do Misria e Fome e compra uma carteira de cigarro... Qualquer dia desses eu crio coragem e espero ele montar no carro e zs!...

- Voc no tem coragem.
- No tenho, Minguinho? Voc vai ver. Agora meu corao estava aos pulos. O carro parado; ele descendo. O desafio de Minguinho mexendo com

meu medo e a minha coragem; no querendo ir mas a vaidadezinha me apressando os passos. Contornei o bar e fiquei meio escondido na quina da parede. Aproveitei para enfiar os sapatos tnis dentro da sacola. O corao batia to apressado que tinha medo de que escutassem dentro do bar; ele saiu sem sequer ter-me notado. Ouvi a porta se abrir...

- Agora ou nunca, Minguinho!

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De um salto estava grudado no pneu com todas as foras que o medo me dera. Sabia que at a Escola Pblica a distncia era enorme. J comeava a antegozar minha vitria diante dos olhos dos meus colegas...

- Ai! Dei um grito to grande e agudo que correu gente para as portas do botequim para ver quem fora atropelado.

Eu estava suspenso meio metro do cho, balanando, balanando. Minhas orelhas ardiam como brasas. Uma coisa falhara nos meus planos. Esquecera de ouvir, na minha afobao, o motor funcionar.

A carranca do Portugus parece que aumentara. Seus olhos dispendiam fagulhas.

- Ento, moleque atrevido. Eras tu? Um pirralho desses com tal atrevimento!...

Deixou que meus ps tocassem no cho. Soltou uma das minhas orelhas e com o brao grosso me ameaava o rosto.

- Pensas, moleque, que eu no te observei todos os dias espiando o meu carro? Vou te dar um correctivo e no ters mais vontade de repetir o que fizeste.

A humilhao doa mais que a prpria dor. S tinha vontade de sapecar uma saraivada de palavres no bruto.

Mas ele no me soltava e parecendo adivinhar meus pensamentos me ameaou com a mo livre.

- Fala! Xinga! Por que no falas? Meus olhos se encheram d'gua, da dor, da humilhao, das pessoas que estavam presenciando a cena e rindo com maldade.

O Portugus continuava a me desafiar.
- Ento, por que tu no xingas, moleque? Uma revolta cruel veio surgindo dentro do meu peito

e eu consegui responder com raiva:

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- No falo agora, mas estou pensando. E quando eu

crescer vou matar o senhor.

Ele deu uma risada que foi acompanhada pelos circunstantes.

- Pois cresce, molecote. Eu c te espero. Mas antes disso vou dar-te uma lio.

Soltou rapidamente minha orelha e me debruou sobre a sua coxa. Aplicou-me uma, s uma palmada, mas

com tamanha fora que eu pensei que o meu traseiro tinha grudado no estmago. S ento ele me soltou.

Sa zonzo debaixo de uma caoada enorme. Quando atingi o outro lado da Rio - So Paulo que atravessei sem enxergar, consegui passar a mo na bunda para suavizar o golpe recebido. Filho da puta! Ele ia ver s. Jurava que me vingaria. Jurava que... mas a dor foi diminuindo na proporo que me afastava daquela gente desgraada. Pior era quando soubessem na Escola. E o que diria para Minguinho? Durante uma semana quando passasse pelo Misria e Fome estariam rindo de mim naquela covardia toda dos grandes. Era preciso sair mais cedo e cruzar a estrada pelo outro lado...

Nesse estado de esprito me aproximei do Mercado. Fui lavar o p na bica e calar os meus sapatinhos tnis. Totoca estava me esperando ansioso. No contaria nada do meu fracasso.

- Zez, voc precisa me ajudar.
- Que foi que voc fez?
- Se lembra de Bi?
- Aquele boiso da Baro de Capanema?
- Aquele mesmo. Ele vai me pegar na sada. Voc no quer brigar com ele por mim?

- Mas ele vai me matar.
- Vai nada e mesmo voc  brigador e corajoso.
- T bem. Na sada?
- Na sada.

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Totoca era assim, sempre arranjava brigas e era eu quem ele empurrava no embrulho. Mas at que era

bom. Eu ia botar toda a raiva do Portugus contra M.

Verdade que nesse dia eu apanhei tanto, sa de olho

roxo e com os braos ralados. Totoca ficava com os

outros sentados no cho torcendo com os livros sobre os joelhos. os meus e os dele. Ficavam tambm orientando.

- D uma cabeada na barriga dele, Zez. Morde, mete as unhas que ele s tem gordura. Chuta os ovos dele.

Mas mesmo com toda a torcida e orientao se no fosse seu Rozemberg da Confeitaria eu teria virado picadinho. Ele saiu l detrs do balco e puxou Bi pela gola da camisa e deu-lhe uns safanes.

- No tem vergonha? Tamanho marmanjo bater num menininho desses.

Seu Rozemberg tinha uma paixo oculta, como diziam l em casa por minha irm Lal. Ele conhecia a gente e todas as vezes que ela estava com algum de ns, dava docinhos e balas com o maior de todos os sorrisos onde brilhavam vrios dentes de ouro.

No resisti e acabei contando o meu fiasco para Minguinho. Nem podia mesmo esconder com aquele olho

roxo e empapuado. Mesmo porque Papai quando me viu assim, ainda me deu uns cascudos e passou um sermo em Totoca. Papai nunca batia em Totoca. Eu, sim, porque era tudo que existia de ruim.

Minguinho ouvira tudo, na certa. Como poderia ento deixar de contar? Ele escutou, revoltado, e s comentou quando eu acabei numa voz zangada.

- Que covarde!
- A briga at que no foi nada, se voc visse...

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Troque-que-troque relatei tudo que se passara com o morcego. Minguinho estava espantado com a minha coragem e at me aconselhou:

- Um dia voc se vinga.
- Vou me vingar, sim. Vou pedir o revlver de Tom Mix e o Raio de Luar de Fred Thompson e vou armar uma armadilha com os ndios Comanches; um dia trago a cabeleira dele esvoaando na ponta de um bambu.

Mas logo, logo a raiva passou e a gente estava conversando de outras coisas.

- Xururuca, voc nem sabe. Voc se lembra que na semana passada eu ganhei de prmio por ser bom aluno aquele livro de histrias "A rosa mgica"?

Minguinho ficava muito feliz quando eu o tratava de Xururuca; nesse momento ele sabia que eu ainda lhe queria mais bem ainda.

- Lembro, sim.
- Pois eu nem contei que j li o livro.  a histria de um prncipe que ganhou de uma fada uma rosa vermelha e branca. Pois o danado viajava num cavalo lindo todo ajaezado de ouro;  assim que diz no livro. Pois no cavalo ajaezado de ouro ele saa viajando em busca de aventura. Qualquer perigo ele sacudia a rosa mgica e aparecia uma fumaceira danada para que o Prncipe escapasse. Na verdade, Minguinho, eu achei a histria meio boba, sabe? No  como as aventuras que eu quero ter na minha vida. Aventura mesmo tem Tom Mix e Buck Jones. E Fred Thompson e Richard Talmadge. Porque eles lutam como danados, do tiros, socos... Agora se qualquer um deles fosse puxando uma rosa mgica em cada perigo que viesse, no tinha graa nenhuma. Que  que voc acha?

- Acho meio sem graa tambm.

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- Mas no  isso que eu quero saber. Eu quero saber se voc acredita mesmo que uma rosa possa fazer mgica assim?

- De fato  mesmo esquisito.
- Esse pessoal vai contando    as coisas e pensa que criana acredita em tudo.

- L isso . Ouvimos um barulho e Lus vinha se aproximando. Cada vez meu irmozinho ficava mais lindo. No era choro, nem briguento. Mesmo quando eu era obrigado a tomar conta dele, quase sempre eu o fazia de boa vontade.

Comentei para Minguinho:
- Vamos mudar de assunto porque vou contar essa histria para ele e ele vai achar linda. A gente no deve tirar as iluses de uma criana.

- Zez, vamos brincar?
- Mas eu estou brincando. De que  que voc quer brincar?

- Queria passear no Jardim Zoolgico. Olhei desanimado o galinheiro com a galinha preta e as duas frangas novas.

-  muito tarde. Os lees j foram dormir e os tigres de Bengala tambm. Nessa hora j fecharam tudo. No vendem mais entrada.

- Ento vamos viajar na Europa.
O danadinho aprendia tudo e falava certinho o que ouvia. Mas a verdade  que eu no estava disposto a viajar na Europa. Queria mesmo era permanecer perto de Minguinho. Minguinho no caoava de mim nem fazia pouco do meu olho empapuado.

Sentei perto do meu irmozinho e falei com calma.
- Pra a que eu vou pensar um brinquedo.

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Mas logo, logo a fada da inocncia passou voando numa nuvem branca que agitou as folhas das rvores, os capinzais do valo e as folhas de Xururuca. Um sorriso iluminou meu rosto maltratado.

- Foi voc quem fez isso, Minguinho?
- Eu, no.
- Ah que beleza, ento  o tempo do vento que est chegando.

Na nossa rua havia tempo de tudo. Tempo de bola de gude. Tempo de pio. Tempo de colecionar figurinhas de artistas de cinema. Tempo de papagaio, o mais bonito de todos os tempos. Os cus ficavam por todos os lados repletos de papagaios de todas as cores. Papagaios lindos de todos os feitios. Era a guerra no ar. As cabeadas, as lutas, as laadas e os cortes.

As giletes cortavam as linhas e l vinha um papagaio rodopiando no espao embaraando a linha do cabresto com a cauda sem equilbrio; era lindo tudo aquilo. O mundo se tornava s das crianas da rua. De todas as ruas de Bangu, Depois era um tal de caveirinha enrolada nos fios; era um tal de correr do caminho da Light. Os homens vinham furiosos arrancar os papagaios mortos, atrapalhando os fios. O vento... o vento...

Com o vento veio a idia,
- Vamos brincar de caada, Lus?
- Eu no posso montar no cavalo.
- Logo voc cresce e pode. Voc fica sentadinho a e vai aprendendo como .

De repente Minguinho virou o mais lindo cavalo do mundo; o vento aumentou mais e o capinzal meio ralo do valo se transformou numa plancie imensa e verdejante. Minha roupa de cowboy estava ajaezada de ouro. Relampejava em meu peito a estrela de Sheriff.

- Vamos, cavalinho, vamos. Corre, corre...

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Plequet-plequet-plequet; j estava reunido a Tom Mix e Fred Thompson; Buck Jones no quisera vir dessa vez e Richard Talmadge trabalhava noutro filme.

- Vamos, vamos, cavalinho. Corre, corre. L vm os amigos Apaches fazendo poeira no caminho.

Plequet-plequet-plequet! A cavalada dos ndios estava fazendo um barulho louco.

- Corre, corre, cavalinho, a plancie est cheia de bises e bfalos. Vamos atirar, minha gente. Plaft, plaft, plaft... Teco, teco, teco... Fim, fium, fium, as flechas assobiavam...

O vento, a galopada, a carreira louca, as nuvens de poeira e a voz de Lus quase que gritando.

- Zez! Zez!... Fui parando o cavalo devagar e saltei afogueado da proeza.

- Que foi? Algum bfalo veio para o seu lado?
- No. Vamos brincar de outra coisa. Tem muito ndio e estou com medo.

- Mas esses ndios so os Apaches. Todos so amigos.
- Mas eu estou com medo. Tem muito ndio.

CAPTULO SEGUNDO

A conquista

NOS PRIMEIROS DIAS eu saa um pouquinho mais cedo para no ter o perigo de encontrar o Portugus parado com o seu carro a comprar cigarros. Alm do mais tinha o

cuidado de vir beirando o canto da rua do lado contrrio quase encoberto pela sombra das cercas de crtons que unia a frente de cada casa. E mal chegado  Rio - So Paulo, cortava a estrada e seguia com os sapatos tnis na mo, quase me colando ao grande muro da Fbrica. Todo esse cuidado foi se tornando intil com o passar dos dias. A memria da rua  curta e pouco mais ningum se lembrava de mais uma das travessuras do

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menino de seu Paulo. Porque era assim que me conheciam nos momentos de acusao: - Foi o menino de seu Paulo... Foi o danado do filho de seu Paulo... Foi aquele menino de seu Paulo... Uma vez at inventaram uma coisa horrvel: quando o Bangu levou uma surra do Andara, comentaram gozando: O Bangu apanhou mais do que "aquele" menino de seu Paulo...

Por vezes eu via o-maldito carro parado na esquina e atrasava o passo para no ter que ver o Portugus que eu ia matar mesmo quando crescesse, passar naquela bruta pose de dono do carro mais lindo do mundo e

de Bangu.

Foi quando ele desapareceu por alguns dias. Que alvio! Na certa tinha viajado para longe ou tirado algumas frias. Voltei a caminhar para a Escola com o corao sossegado e j meio incerto se valia a pena matar aquele homem mais tarde, Uma coisa ficara positivada: toda santa vez que eu ia pegar um morcego num carro menos importante, j no sentia tanto entusiasmo e

minhas orelhas comeavam a arder penosamente.

E a vidinha da gente e da rua se desenvolvia normalmente. Viera o tempo do papagaio e "rua para quem te quer". O cu azulado se estrelava de dia das estrelas mais bonitas e coloridas. No tempo do vento deixava de lado um pouco o Minguinho ou s o procurava quando me colocavam de castigo depois de uma bela sova. A no tentava fugir mesmo porque uma surra muito junto da outra doa pra burro. Nesses momentos ia com o rei Lus adornar, ajaezar, termo que eu achava lindo,

o meu p de Laranja Lima. Por sinal, Minguinho dera uma esticada danada e logo, logo estaria dando flores e frutos para mim. As outras laranjeiras demoravam muito. Mas p de Laranja Lima era "precoce" como Tio Edmundo dizia que eu era. Depois ele me explicou o

que aquilo queria dizer: das coisas que aconteciam muito

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antes das outras coisas acontecerem. No final eu acho que ele no soube explicar direito. O que queria dizer era simplesmente tudo que vinha na frente...

Ento eu pegava pedaos de cordo, sobras de linha, furava um mundo de tampinhas de garrafa e ia ajaezar Minguinho. Era de se ver que lindo que ele ficava.
O vento dando, chocava uma tampinha contra a outra e parecia que ele estava usando as esporas de prata de Fred Thompson quando montava o seu cavalo Raio de Luar...

O mundo da Escola Pblica era tambm muito bom. Eu sabia todos os hinos nacionais de cor. O grando que era o verdadeiro, os outros hinos nacionais da Bandeira e o hino nacional da Liberdade, Liberdade, abre as asas sobre ns. Pra mim e eu acho que pra Tom Mix tambm, era o que eu mais gostava. Quando a gente ia a cavalo sem guerra e sem caada, ele me pedia com respeito:

- Vamos, guerreiro Pinag, cante o hino da Liberdade.

Minha voz bastante fina enchia as plancies enormes, com muito mais beleza do que quando eu cantava com seu Ariovaldo, trabalhando de ajudante de cantor s teras-feiras.

Nas teras-feiras, gazeteava a aula como de costume para esperar o trem que trazia o meu amigo Ariovaldo. Ele j vinha descendo as escadas mostrando nas mos os folhetos da venda nas ruas. Trazia ainda duas sacolas cheias que eram a reserva. Quase sempre ele vendia tudo e isso deixava uma alegria muito grande para ns dois...

Nos recreios, quando dava tempo, a gente jogava at bola de gude. Eu era o que se chamava de rato. Tinha uma pontaria garantida e quase nunca deixava de

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voltar para casa com a sacolinha sacolejando as bolas muitas vezes at triplicadas.

A coisa comovente era a minha professora, D. Ceclia Paini. Podiam contar a ela que eu era o menino mais endiabrado da minha rua, que ela no acreditava. Como tambm no acreditaria que ningum conseguia dizer mais palavres do que eu. Que nenhum moleque me igualava em travessuras. Isso, ela no acreditava nunca. Na Escola eu era um anjo. Nunca tivera uma

repreenso e tornava-me querido das professoras por ser um dos menores garotinhos que aparecera at ento. D. Ceclia Paim, conhecia de longe a nossa pobreza e na hora do lanche, quando via todo mundo comendo sua merenda, ficava emocionada, me chamava sempre  parte e me mandava comprar o sonho recheado no doceiro. Ela tinha tamanha ternura por mim que eu acho que ficava bonzinho s para ela no se decepcionar comigo.

De repente a coisa aconteceu. Eu vinha devagar, como sempre, pela estrada Rio - So Paulo quando o carro do Portugus passou bem devagarinho por mim. A buzina soou trs vezes e vi que o monstro me olhava sorrindo, Aquilo me fez renascer a raiva e o desejo de mat-lo de novo quando ficasse grande. Fechei a cara

no meu orgulho todo e fingi ignor-lo.

- Pois  como lhe disse, Minguinho.  todo santo dia. Parece que ele espera eu passar e l vem buzinando. Buzina trs vezes. Ontem at me deu adeus.

- E voc?
- Eu nem ligo. Finjo que no vejo. T comeando a dar medo nele; voc v, eu vou fazer seis anos e logo, logo estarei um homem.

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, .' k.,,@I

- Voc acha que ele est querendo ficar seu amigo, por medo?                           
- No tenho nem dvida. 'Pra a que eu vou buscar o caixotinho.

Minguinho tinha crescido bastante. Para subir na sua sela tornava-se necessrio colocar o caixote embaixo.

- Pronto, agora vamos conversar mesmo. Dali do alto eu me sentia maior que o mundo. Relanceava a vista para a paisagem, para o capinzal do valo, para os tizius e coleiros que vinham catar comidas por ali. De noite, nem bem a escurido fosse chegando outro Luciano vinha dar vos em volta da minha cabea todo alegre como se fosse um aeroplano do Campo dos Afonsos. No comeo at Minguinho se admirou que eu no tivesse medo do morcego porque em geral toda criana ficava apavorada. Alis fazia dias que Luciano no aparecia. Por certo arranjara outros campos dos afonsos em outros lugares.

- Voc viu, Minguinho, as goiabeiras da casa da Nega Eugnia comeam a amarelecer. As goiabas no mnimo j esto de vez. O diabo  que se ela me pega, Minguinho. Hoje j levei trs coas. Se eu estou aqui  porque me puseram de castigo...

Mas o diabo me deu a mo para descer e me puxou at a cerca de ertons. O ventinho da tarde comeou a trazer ou inventar o cheiro das goiabas at o meu

nariz. Espia daqui, afasta um galhinho dali, escuta que no tem barulho... e o diabo falando: "Vai bobo, no v que no tem ningum. Essa hora ela deve ter ido  quitanda da japonesa. Seu Benedito? Qual nada. Ele est quase cego e surdo. No v nada. D tempo de fugir se ele perceber..."

Segui a cerca at o valo e me decidi. Antes, fiz sinal a Minguinho para no fazer barulho. J nessa hora meu corao acelerara. A Nega Eugnia no era

de brinquedo, no. Tinha uma lngua que s Deus sabia. Vinha p ante p, sem respirar, quando o seu vozeiro partiu da janela da cozinha.

- Que  isso, menino? Nem tive a idia de mentir dizendo que viera apanhar uma bola. Meti o carreiro e tchibum pulei dentro do valo. Mas l dentro me esperava outra coisa. Uma dor to grande que quase me fez gritar, mas se

gritasse apanharia duas vezes: primeiro, porque fugira do castigo; segundo, porque estava roubando goiaba no vizinho e acabara de enfiar um caco de vidro no p esquerdo.

Ainda tonto de dor fui arrancando a lasca da garrafa. Gemia baixinho e via o sangue se misturando com a gua suja do valo. E agora? Consegui com os olhos cheios d'gua retirar o vidro, mas nem sabia como estancar o sangue. Apertava com fora o tornozelo para diminuir a dor. Tinha que aguentar firme. Estava perto de chegar a noite e com ela, viriam Papai, Mame e Lal. Qualquer um que me pegasse me batia. Podia at que cada um me pegasse em trs surras divididas. Subi desorientado a barreira e fui me sentar pulando num p s debaixo do meu p de Laranja Lima. Ainda doa muito mas j passara a vontade de vomitar.

- Espia, Minguinho. Minguinho ficou horrorizado. Era como eu, no gostava de ver sangue.

- Que fazer, meu Deus? Totoca bem que me ajudaria, mas onde andaria ele a essas horas? Tinha Glria. Glria deveria estar na cozinha. Era a nica que no gostava que me batessem tanto. Podia ser que ela me puxasse as orelhas ou me pusesse de castigo de novo. Mas tinha que tentar.

Arrastei-me at a porta da cozinha, estudando um meio de desarmar Glria. Ela estava bordando uns

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panos. Sentei meio sem jeito e dessa vez Deus me ajudou. Ela me olhou e viu que eu estava de cabea baixa. Resolveu no dizer nada porque eu estava de castigo. Fiquei com os olhos cheios d'gua e funguei. Dei com os olhos de Glria me fitando. Suas mos tinham parado no bordado.

-  Que , Zez?
-  Nada, Godia... Por que ningum gosta de mim?
-  Voc  muito arteiro.
-  Hoje j levei trs surras, Godia.
-  E no mereceu?
-  No  isso.  que como ningum gosta de mim, aproveitam para me bater por qualquer coisa. Glria comeou a comover seu corao de quinze anos. E eu sentia isso.

- Eu acho que  melhor amanh eu ser atropelado na Rio - So Paulo e ficar todo esmagadinho.

A ento as lgrimas desceram em torrentes dos meus olhos.

- No diga bobagens, Zez. Eu gosto muito de voc.
-  No gosta, no. Se gostasse no ia deixar eu apanhar mais uma surra hoje.

-  J est escurecendo e nem vai mais ter tempo de voc fazer alguma travessura para apanhar.

- Mas eu j fiz... Ela soltou o bordado e se aproximou de mim. Quase soltou um grito ao ver a poa de sangue que envolvia o meu p.

- Meu Deus! Gum, o que foi isso? Estava ganha a partida. Se ela me chamava de Gum era porque estava salvo.

Me pegou no colo e me sentou na cadeira. Ligeiramente apanhou uma bacia de gua com sal e se ajoelhou aos meus ps.

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- Vai doer muito, Zez.
- J est doendo muito.
- Meu Deus tem quase trs dedos de corte. Como voc foi fazer isso, Zez?

- Voc no conta pra ningum. Por favor, Godia, eu prometo que fico bonzinho. No deixe ningum me bater tanto...

-  T bem, eu no conto. Como vamos fazer? Todo mundo vai ver seu p amarrado. E amanh voc no poder ir  Escola. Vo acabar descobrindo.

- Eu vou  Escola, sim. Calo os sapatos at a esquina. Depois  mais fcil.

- Voc precisa ir se deitar e ficar com o p bem esticado, seno isso no d para voc andar amanh.

Ajudou-me a ir capengando para a cama.
- Vou trazer qualquer coisa para que voc coma

antes que os outros cheguem.

Quando voltou com a comida, eu no aguentei e dei um beijo nela. Aquilo era muito raro em mim.

Quando todos tinham chegado para o jantar, Mame deu falta de mim.

- Cad Zez?
- Est deitado. Desde cedo que ele queixa de dor de cabea.

Eu escutava embevecido esquecendo at o ardor do ferimento. Gostava de estar sendo o assunto. Foi quando Glria resolveu tomar a minha defesa. Fez uma voz queixosa e ao mesmo tempo acusativa.

- Acho que todo mundo anda batendo nele. Ele hoje estava todo modo. Trs surras  demais.

- Mas  uma pestezinha. S fica quieto quando apanha!

- Vai dizer que voc tambm no bate nele?

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- Muito difcil. Quando muito, puxo as suas orelhas. Fizeram um silncio e Glria ainda continuou a me defender.

- Afinal, minha gente, ele ainda no tem seis anos.  levado mas ainda  uma criancinha.

Aquela conversa foi uma felicidade para mim.

Glria estava angustiada me arrumando, ajudando a calar os tnis.

-  D pra ir?
-  Eu aguento, sim.
-  Voc no vai fazer bobagem na Rio - So Paulo?
-  No vou, no.
-  Aquilo que voc falou era verdade?
-  Era no.  que eu estava muito infeliz pensando que ningum gostava mesmo de mim.

Ela passou as mos nas minhas farripas louras e me mandou embora.

Eu pensava que duro s seria chegar at a Estrada. Que quando descalasse os sapatos a dor melhoraria. Mas quando o p tocou directamente no cho, tive que ir me apoiando devagarzinho no muro da Fbrica. Daquele jeito nunca que eu chegava.

A aconteceu a coisa. A buzina ecoou trs vezes. Desgraado! No bastava a gente estar morrendo de dor e ele ainda vinha judiar...

O carro parou bem perto de mim. Ele botou o corpo para fora e perguntou:

-  Pirralho, machucaste o p? Tive vontade de dizer que no era da conta de ningum. Mas como ele no me chamasse de moleque, no respondi e continuei andando uns cinco metros.

Ele botou o carro funcionando, passou por mim e parou quase grudado ao muro, saindo um pouco da estrada, me cortando a passagem. Ento abriu a porta e

desceu. Seu vulto grande estava me acuando.

-  Est te doendo muito, Pirralho? No era possvel que uma pessoa que me batera usasse agora uma voz to doce e quase amiga. Achegou-se mais de mim e sem que ningum esperasse, ajoelhou o corpo gordo e me fitou cara a cara. Tinha um sorriso to suave que parecia espalhar carinho.

- Pelo visto tu te machucaste muito, no? O que foi? Funguei um pouco antes de responder.
- Caco de vidro.
- Foi profundo? Fiz o tamanho do talho com os dedos.
- Ah! isso  grave. E por que no ficaste em casa? Pelo jeito vais para a Escola, no?

- Ningum sabe l em casa que eu me machuquei. Se descobrissem ainda me batiam por cima para aprender a no machucar...

- Vem que eu te levo.
- No senhor, obrigado.
- Mas por qu?
- Todo mundo na Escola sabe o que aconteceu.
- Mas tu no podes caminhar assim. Abaixei a cabea reconhecendo a verdade e sentindo que por pouco mais o meu orgulhozinho se espatifaria.

Ele suspendeu a minha cabea, segurando o meu queixo.


- Vamos esquecer umas coisas. Tu j andaste de carro?

- Nunca, no senhor.
- Ento eu te levo.
- No posso. Ns somos inimigos.
- Mesmo assim, eu no me importo. Se tu tens vergonha, eu te deixo antes da Escola. Queres?

Fiquei to emocionado que nem respondi. S balancei a cabea consentindo. Ele me pegou no colo, abriu a porta e me colocou no assento com cuidado. Deu a volta e tomou a sua posio. Antes de ligar o motor sorriu de novo pra mim.

- Assim est melhor, v-se. A sensao gostosa do carro macio andando, dando leves solavancos me fez fechar os olhos e comear a

sonhar. Aquilo era mais macio e gostoso do que o cavalo Raio de Luar de Fred Thompson. Mas no demorei muito porque ao abrir os olhos estvamos quase chegando  Escola. J via a multido dos alunos penetrando pela porta principal. Apavorado, escorreguei do banco e me escondi. Falei nervoso:

- O senhor prometeu que parava antes da Escola.
- Mudei de idia. Esse teu p no pode ficar assim. Isso pode dar ttano.

No pude nem perguntar que palavra bonita e difcil era aquela. Tambm sabia intil dizer que no queria ir. O carro tomara a Rua das Casinhas e eu voltara  posio anterior.

- Tu me pareces um homenzinho corajoso. Agora vamos ver mesmo se tu provas isso.

Parou defronte  farmcia e em seguida me carregou no colo. Quando Dr. Adaucto Luz nos atendeu eu fiquei apavorado. Ele era mdico do pessoal da Fbrica e conhecia muito a Papai. E meu pavor aumentou quando ele me fixou e perguntou de cara:

- Voc  filho do Paulo Vasconcelos, no ? Ele j arranjou alguma colocao?

Tive que responder, muito embora tivesse muita vergonha do Portugus saber que Papai estava desempregado.

- Ele est esperando. Prometeram muita coisa pra ele...

- Vamos ao que se trata.

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Desenrolou os panos grudados no talho e fez um hum de impressionar. Comecei a fazer um beicinho de choro. Mas o Portugus veio por trs me socorrer.

Sentaram-me em cima de uma mesa cheia de lenis brancos. Uma poro de ferros apareceram. E eu tremia. No tremia mais porque o Portugus apoiou minhas costas sobre o seu peito e me segurava os ombros com fora e ao mesmo tempo carinho.

- No vai doer muito. Quando acabar eu te levo para tomar um refresco e comer doces. Se tu no chorares eu te compro balas de figurinha de artista.

Ento eu criei a maior coragem do mundo. As lgrimas desciam e eu deixei fazer tudo. Deram pontos e

at uma injeco "antitetnica" me aplicaram. Aguentei at a vontade de vomitar. O Portugus me agarrava com fora como se quisesse que a dor passasse um pouco para ele. Com o seu leno ele enxugava meus cabelos e o rosto molhados de suor. Parecia que aquilo no acabava mais. Mas acabou acabando.

Quando ele me levou para o carro, vinha satisfeito. Cumpriu tudo o que prometera. S que eu no tinha vontade de nada. Parecia que tinham at arrancado a minha alma pelos ps...

- Aggra tu no podes ir para a Escola, Pirralho. Estvamos no carro e eu me sentava bem perto dele, roando no   seu brao, quase atrapalhando as suas manobras.

- Eu vou te levar perto da tua casa. Inventa qualquer coisa. Podes dizer que te machucaste no recreio e que a professora te mandou  farmcia...

Olhei para ele reconhecidamente.
- s um homenzinho corajoso, Pirralho. Eu sorri cheio de dor, mas dentro daquela dor tinha acabado de descobrir uma coisa importante. O Portugus tinha se tornado agora a pessoa que eu queria mais bem no mundo.

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CAPTULO TERCEIRO

Conversas para l e para c

-SABE, MINGUINHO, eu j descobri tudo. Tudinho. Ele mora no fim da Rua Baro de Capanema. Bem no finzinho. Ele guarda o carro do lado da casa. Tem duas gaiolas, uma com um canrio e outra com um azulo. Fui l bem cedinho, como quem no quer nada, levando minha caixa de engraxate. Eu ia com tanta vontade de ir, Minguinho, que nem senti minha caixa pesada dessa vez. A, olhei bem a casa e achei que era muito grande para uma pessoa viver sozinha. Ele estava do lado, nos fundos, junto do tanque. Estava fazendo a barba.

Bati palmas.

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- Quer engraxar? Ele veio de l com o rosto cheio de sabo. Um pedao raspado j. Deu um sorriso e falou:

- Ah! s tu? Entra, Pirralho. Segui os seus passos.
- Espera que j acabo. E foi fazendo com a navalha no rosto, requete, rquete, rquete. Eu pensei, quando ficar grande e for homem quero ter uma barba que faa bonito assim, rquete, rquete, rquete...

Sentei na minha caixinha e fiquei esperando. Ele me

olhou pelo espelho.

- E a tua aula?
- Hoje  Feriado Nacional. Por isso, sa engraxando para ganhar uns cobres.

- Ah! E continuou. Depois debruou-se no tanque e lavou o rosto. Enxugou na toalha. Depois ficou com o rosto corado e brilhando. Depois ele riu, de novo.

- Queres tomar caf comigo? Disse que no queria, querendo.
- Entra. S queria que voc visse como tudo  limpinho e arrumadinho. A mesa tinha at toalha de xadrez vermelhinho. E l estava at, xcara. Nada de caneca de flandres como l em casa. Ele contou que uma preta velha vinha todos os dias "pr em ordem" quando saa para trabalhar.

- Se queres, faze como eu, molha o po no caf. Mas no faas barulho ao engolires.  feio.

A eu olhei para Minguinho, ele estava mudo como uma bruxa de pano.

- Que foi?
- Nada. Estou escutando.

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Olhe, Minguinho, eu no gosto de discusses, mas se voc est aborrecido  melhor falar logo.

-  que voc agora s brinca de Portugus e eu no posso brincar disso.

Fiquei pensativo. Era isso mesmo. Nem me passava pela cabea que ele no podia "brincar" daquilo.

- Daqui a dois dias a gente se encontra com Buck i ones. Eu mandei um recado para ele pelo cacique Touro Sentado. Buck Jones. est longe caando na Savanali... Minguinho,  Savnali ou Savanli que a gente diz? Na fita tinha um "h" atrs. No sei. Quando for  casa de Dindinha pergunto a Tio Edinundo.

Novo silncio.
- Onde  que a gente parou mesmo?
- Em molhar o caf  no po. Dei uma risada
- Molhar o caf no po, no, seu bobo. Bem a a gente ficou em silncio e ele me olhava me estudando.

- Tanto fizeste que acabaste por descobrir onde eu moro.

Fiquei meio sem jeito. Resolvi contar a verdade.
- O senhor no zanga se eu disser?
- No. Entre amigos, no deve haver segredos...
- Eu no vim engraxando nada por a.
- Eu sabia.
- Mas eu queria tanto... Aqui desse lado ningum engraxa por causa da poeira. S quem mora perto da Rio -So Paulo.

- Mas podias ter vindo sem carregar esse peso todo, no?

- Se eu no carregasse esse peso todo, no deixavam sair. S posso sair para perto. De vez em quando, tenho que aparecer em casa, entende? Agora saindo para longe tenho que fingir que vou trabalhar.

Riu da minha lgica.

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- Indo trabalhar, o povo 14 em casa sabe que no estou fazendo arte.  melhor assim, porque no apanho tanto.

- Eu no acredito que sejas assim to peralta como dizes.

A eu fiquei muito srio.
- Eu no presto para nada. Sou muito ruim. Por isso  o diabo que nasce pra mim no dia do Natal e eu no ganho nada. Sou uma peste. Uma pestinha. Um cachorro. Um traste ordinrio. Uma das minhas irms me disse que coisa ruim como eu no devia ter nascido...

Ele coou a cabea admirado.
- S essa semana j levei um punhado de surras. Umas at bem dodas. Tambm apanho pelo que no fao. Levo culpa de tudo. J se acostumaram a me bater.

- Mas o que tu fazes de to mal assim?
- Deve ser o diabo me@mo. Vem uma vontade de fazer, e... eu fao. Essa semana eu toquei fogo na cerca

da Nega Eugnia. Chamei Dona Cordlia, de Pata-Choca e ela virou fera. Chutei uma bola de pano e a burra entrou pela janela e quebrou o espelho grande de Dona Narcisa. Quebrei com a baladeira trs, lmpadas. Dei uma pedrada na cabea do filho de seu Abel.

- Chega, chega. Ele punha a mo na boca para esconder o sorriso.
- Mas ainda tem mais. Arranquei todas as mudas que Dona Tentena tinha acabado de plantar. Fiz o gato de Dona Rosena engolir uma bola de gude.

- Ah! Isso no. No gosto de ver maltratar os animais.

- Mas no era das grandes no. Era uma bem pequeninha. Deram um purgante no bicho e ela saiu. Em vez de me darem a bola de novo, me deram foi uma surra danada. Pior foi quando eu estava dormindo e Papai

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pegou o tamanco e me sapecou. Eu nem sabia por que apanhava.

- E por que foi?
- A gente foi, uma meninada inteira, ver um filme. Entramos na segunda porque  mais barato. A eu tive vontade, sabe?... e fiquei bem no canto da parede e fiz. Foi aquela gua escorrendo.  bobagem a gente sair e

perder um pedao da fita. Mas o senhor sabe o que  menino. Basta um fazer e todos os outros ficam com vontade. Foi todo mundo tocando para o cantinho e foi aquele rio. No fim descobriram e j sabe: foi o filho de seu Paulo. A me proibiram por um ano, at eu criar juzo, de entrar no Cinema Bangu. De noite o dono contou pra Papai e ele no achou graa nenhuma... eu

que diga.

Mesmo assim Minguinho continuava emburrado.
- Olha Minguinho, no precisa ficar desse jeito. Ele  meu maior amigo. Mas voc  o rei absoluto das rvores, como Lus  o rei absoluto dos meus irmos. Voc precisa saber que o corao da gente tem que ser muito grande e caber tudo que a gente gosta.

Silncio.
- Sabe de uma coisa, Minguinho? Vou jogar bola de gude. Voc anda muito enjoado.

No comeo o segredo existiu s porque eu tinha vergonha de ser visto no carro do homem que me dera umas palmadas. Depois persistiu porque sempre era bom existir um segredo. E o Portugus fazia todas as minhas vontades nesse aspecto. Tnhamos jurado, de morte, que ningum deveria saber da nossa amizade. Primeiro, porque no queria dar carona  garotada. Quando vinha

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gente conhecida, ou mesmo Totoca, eu me abaixava. Segundo, porque ningum devia atrapalhar o mundo de conversas que a gente tinha para conversar.

- O senhor nunca viu minha Me? Pois ela  ndia. Filha de ndio mesmo. Todos l em casa so meio ndios.

- E como saste clarito assim? E ainda por cima com

estes cabelos loiros, quase brancos?

-  a parte de Portugus. Pois Mame  ndia. Bem morena e de cabelos lisos. S Glria e eu  que samos assim gato-ruo-de-mau-plo. Ela trabalha nos teares do Moinho Ingls para ajudar a pagar a casa. Ela, no

outro dia, foi suspender uma caixa de espulas e sentiu uma dor danada. Precisou ir ao mdico. O mdico deu uma cinta a ela por causa de uma hrnia que rebentou. Sabe que Mame at que  boazinha comigo. Quando me bate, pega aquelas varinhas de guanxuma do quintal e me acerta nas pernas s. Ela vive to cansada que quando chega em casa de noite, nem tem vontade de conversar.

E o carro andava e eu tagarelava.
- Danada  minha irm mais velha. Namoradeira que no tem fim. Quando Mame mandava ela tomar conta da gente e passear, recomendava que no fosse para cima da rua, porque sabia que na esquina ela tinha um namorado esperando. Pois ela ia para o lado de baixo e tinha outro namorado esperando tambm. Lpis nem podia existir, porque ela vivia escrevendo cartas pro namorado...

- Chegamos... Estvamos perto do Mercado e ele parava no lugar combinado.

- At amanh, Pirralho. Ele sabia que eu ia arranjar um jeito de dar um pulinho no ponto de estacionamento e tomar refresco e ganhar figurinhas. Eu j conhecia at os horrios em que ele no tinha muito o que fazer.

E esse jogo j durava mais de um ms. Muito mais. Agora nunca pensei que ele pudesse ficar com aquela cara de gente grande triste como quando contei as histrias de Natal. Ficou at com os olhos cheios d'gua e

passou as mos nos meus cabelos, prometendo que nunca

mais eu deixaria de ganhar um presente nesse dia.

E os dias andaram sem pressa e sobretudo muito felizes. At que l em casa comearam a notar a minha transformao. Eu j no fazia tantas travessuras e

vivia no meu mundinho de fundo de quintal. Verdade que algumas vezes o diabo vencia os meus propsitos. Mas j no dizia tantos palavres como antigamente e

deixava em paz a vizinhana.

Sempre que ele podia inventava um passeio e foi num desses passeios que ele parou o carro e sorriu para mim.

- Gostas assim de passear em "nosso" carro?
- Ele tambm  meu?
- Tudo que  meu  teu. Como dois grandes amigos. Fiquei delirante. Ah se eu pudesse contar a todo mundo que era meio dono do carro mais bonito do mundo.

- Quer dizer ento que agora somos completamente amigos?

- Somos.
- Ento posso te perguntar uma coisa?
- Pode, sim senhor.

- Agora no vais querer, penso c comigo, cresceres logo para me matares?

- No. Nunca faria isso.
- Mas disseste, no?
- Disse quando estava com raiva. Eu nunca vou matar ningum porque quando matam galinha l em

125

casa, eu nem gosto de ver. Depois, eu descobri que o

senhor no era nada do que se dizia. No era antropfago nem nada.

Ele quase deu um pulo.
- O que disseste?
- Antropfago mesmo.
- E sabes l o que  isso?
- Sei, sim. Tio Edmundo me ensinou. Ele  um sbio. Tem um homem na cidade que convidou ele para fazer um dicionrio. At hoje ele s no soube me contar o

que  carborundum.

- Ests fugindo do assunto. Quero que me expliques exactamente o que  antropfago.

- Antropfagos eram ndios que comiam carne humana. Na histria do Brasil tem uma figurinha deles descascando os portugueses para comer. Eles tambm comiam os outros guerreiros das tribos inimigas.  o

mesmo que canibal. S que canibal  na frica e gosta muito de comer -missionrio barbado.

Ele soltou uma gargalhada gostosa que nenhum brasileiro sabia soltar.

- Tens uma cabecinha doiro, Pirralho. s vezes eu

at me assusto.

Depois me fitou com seriedade.
- Dig l, Pirralho, que idade tu tens?
- De mentira ou de verdade?
- De verdade,  claro. No quero ter um amigo mentiroso.

-  assim: de verdade tenho ainda cinco anos. De mentira, seis. Porque seno no podia entrar na Escola.

- E por que te puseram to cedo na Escola?
- Imagine! Todo mundo queria se ver livre de mim durante umas horas. O senhor sabe o que  carborundum?

- Donde foste tirar isso?

126

Meti a mo no bolso e procurei entre os seixos da atiradeira, as figurinhas, o cordo do pio e bolas de gude.

-  isso. Trazia na mo uma medalha com a cabea de um ndio. ndio da Amrica do Norte, cheio de penas nos cabelos. Do lado de trs, estava escrita a palavra.

Ele virou na mo e revirou a medalha.
- Pois olha que eu tambm ignoro. Onde achaste isso?

- Isso fazia parte do relgio de Papai. Vinha amarrada com uma correia para ficar dependurada no bolso da cala. Papai disse que o relgio ia ser minha herana. Mas a ele precisou de dinheiro e vendeu o relgio. Um relgio to lindo. Me deu o resto da herana que era isso. Cortei a correia porque tinha um cheiro azedo danado.

Tornou a alisar os meus cabelos.
- s um menininho muito complicado, mas confesso que ests enchendo de alegria o velho corao de um Portugus. L isso, ests. Vamos agora?

-  Est to bom. S um bocadinho mais. Eu preciso falar uma coisa muito sria.

-  Ento, fala.
-  A gente  amigo que no pode mais, no ?
-  No h dvida.
-  At o carro j  meio meu, no foi?
-  Um dia ser teu, inteiro.
-   que... Estava custando a sair.
- Vamos, empacaste? No s disso...
- No fica zangado?
-  Garanto.
-  Tem duas coisas na nossa amizade que eu no gosto.

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Mas no saa to fcil como planejara.
- Quais so?
- Primeiro, se ns somos dois grandes amigos, como  que eu tenho de chamar senhor pra l, senhor pra c...

Ele riu.
- Pois me trata como quiseres. Por voc, por tu...
- Tu, no,  muito difcil; sou capaz de repetir todas as conversas nossas para Minguinho. Mas quando vou

eu falar de tu, no acerto. Melhor voc. No ficou zangado?

- Ora! Por qu?  um pedido muito justo at. Quem  esse Minguinho que eu nunca ouvi falar?

-  Minguinho  Xururuca.
- Bem, Xururuca  Minguinho e Minguinho  Xururuca. Fiquei na mesma.

- Minguinho  o meu p de Laranja Lima. Quando eu quero muito bem a ele eu chamo de Xururuca.

- Ento possuis um p de Laranja Lima que se chama Minguinho.

- E ele  um danado. Ele fala comigo, vira cavalo, sai com a gente. Com Buck Jones, com Tom Mix... Com Fred Thompson... Voc... (os primeiros vocs foram duros de dizer, mas eu tinha decidido ... ) Voc gosta de Ken Maynard?

Ele fez um gesto de desentendido sobre cowboy de cinema.

- Outro dia Fred Thompson me apresentou a ele. Gostei muito do chapelo de couro que ele usa. Mas ele parece que no sabe rir...

- Vamos embora, que estou ficando tonto com esse mundo que existe na tua cabecinha. E a outra coisa?

- A outra coisa  mais difcil ainda. Mas j que falei do voc e voc no se zangou... Eu no gosto muito do seu nome. No  que no goste, mas entre amigos fica muito...

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- Virgem Santssima, o que vir agora?
- Acha que eu posso chamar voc de Valadares? Ele pensou um pouco e sorriu.
- De fato, no soa bem.
- De Manuel, eu tambm no gosto. Voc nem pode saber como eu fico fulo quando Papai conta anedotas de Portugus e fala:  Manuel... Se v logo que o

filho da me nunca teve um amigo portugus...

-  Que acabaste de falar?
-  Que meu pai imita portugus?
-  No. Antes. Uma coisa feia.
-  Filho da me  to feio como o outro filho?...
-  Quase a mesma coisa.
-  Ento vou ver se no falo mais. Ento?
-  Eu que te pergunto. Que concluso tiraste? No me queres chamar de Valadares e pelo jeito de Manuel, tambm no.

- Tem um nome que eu acho lindo.
- Qual? A eu fiz a cara mais sem-vergonha do mundo.
- Como seu Ladislau e os outros chamam voc na Confeitaria...

Ele fechou a mo fingindo zanga de brincadeira.
- Sabes que s o maior atrevidao que eu conheo. Queres me chamar de Portuga, no  assim?

- Fica mais de amigo.
-  tudo quanto desejas? Pois bem. Eu to permito. Agora vamos, sim?

Ligou o motor e andou um pedao, pensativo. Colocou a cabea por fora da janela e olhou o caminho. No vinha ningum.

Abriu a porta do carro e ordenou:
- Desce. Obedeci e segui-o at a traseira do carro. Apontou o pneu sobressalente.

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- Agora, agarra-te bem. Mas cuidado. Aboletei-me de morcego, feliz da vida. Ele montou no carro e saiu rodando devagar. Depois de cinco minutos parou e veio me ver.

- Gostaste?
- Como num sonho.
- Agora chega. Vamos que comea a escurecer.

A noite vinha chegando mansinha e ao longe as cigarras cantavam nos espinheiros, anunciando mais vero.

O carro rodava macio.
- Bem. De agora em diante, no se fala mais naquele assunto. Est bem?

- Nunca mais.
- S gostaria de te ver chegando em casa e dizendo onde estiveste esse tempo todo.

- J pensei nisso. Vou dizer que fui  aula de Catecismo. Hoje no  quinta-feira?

-  Ningum pode contigo. Tens sada para tudo. A eu me aproximei bem dele e encostei minha cabea junto ao seu brao.

- Portugal
-  Hum...
-  Eu nunca mais quero sair de perto de voc, sabe?
-  Por qu?
-  Porque voc  a melhor pessoa do mundo. Ningum judia de mim quando estou perto de voc e sinto um " sol de felicidade dentro do meu corao".

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CAPITULO QUARTO

Duas surras memorveis

VOC DOBRA AQui. Agora corta com a faca o papel bem na dobra.

O rudo macio do gume da faca dividindo o papel.
- Agora cole bem de fininho deixando essa margem. Assim.

Eu estava ao lado de Totoca aprendendo a fazer um balo. Depois de tudo colado, Totoca prendeu o balo pelo bico de cima, com um pregador de roupa, no varal.

- S depois de bem seco que a gente faz a boca. Aprendeu, seu burrinho?

- Aprendi.

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Ficamos sentados na soleira da porta da cozinha espiando o balo colorido que custava a secar. A Totoca enfronhado na qualidade de mestre ia explicando:

- Balo-tangerina a gente s deve fazer depois de muita prtica; no comeo voc deve fazer de dois gomos que  mais fcil.

- Totoca, se eu fizer um balo sozinho, voc bota a

boca pra mim?

- Depende. L estava ele querendo fazer negcios. Avanar nas

minhas bolas de gude ou na minha coleco de figurinhas de artista de cinema que "ningum compreendia como crescia tanto".

- Puxa, Totoca, quando voc me pede, eu at brigo por voc.

- Est bem. A primeira eu fao de graa e se voc no aprender, as outras s na base da troca.

- Est certo. Naquele momento eu tinha jurado comigo mesmo que ia aprender tanto, que nunca mais ele iria botar as mos nos meus bales.

A o meu balo no me saiu mais da idia. Tinha que ser o "meu" balo. Imagine o orgulho do Portuga quando eu contasse a proeza. A adiirao de Xururuca quando visse o bicho balanando em minhas mos...

Dominado pela idia, enchi os bolsos de bolas de gude e algumas figurinhas repetidas e ganhei o mundo da rua. Ia vender bola de gude e figurinhas o mais barato possvel para poder comprar pelo menos duas folhas de papel de seda.

- Vamos, minha gente! Cinco bolas por um tosto. Novinhas como se viessem da loja!

E nada.
- Dez figurinhas por um tosto. Vocs no compram nem no armarinho de Dona Lota.

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Nada. O mundo da moleca   da estava completamente sem dinheiro. Fui para a Rua Progresso de cima a baixo oferecendo mercadoria. Visitei a Rua Baro de Capanema quase trotando, mas nada. Se eu fosse na casa de Dindinha? Fui l, mas minha av nem se interessou.

- No quero comprar figurinhas nem bolas de gude.  melhor que voc as guarde. Porque amanh voc vem

e me pede para comprar de novo.

Na certa Dindinha estava sem dinheiro. Ganhei a rua e olhei para as minhas pernas. Estavam sujas de tanto eu apanhar poeira de rua. Olhei o sol que j comeava a abaixar. Foi quando aconteceu o milagre.

- Zez! Zez! Biriquinho vinha correndo como um louco em minha direco.

- Estou procurando voc por toda parte. Voc est vendendo?

Sacudi os bolsos balanando as bolas.
- Vamos sentar. Sentamos ao mesmo tempo e esparramei no cho a mercadoria.

- Quanto?
- Cinco bolas a um tosto e dez figurinhas pelo mesmo preo.

- Est caro. J ia me enfezar. Ladro desgraado! Caro quando todo mundo vendia cinco figurinhas e trs bolas pelo que estava pedindo. J ia guardar tudo no bolso.

- Espere. Posso escolher?
- Quanto voc tem?
- Trezentos ris. Duzentos eu posso gastar.
- Pois bem, te dou seis bolas e doze figurinhas.

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Entrei voando na venda do Misria e Fome. Ningum se lembrava mais "daquela cena". S havia seu Orlando conversando junto do balco. Quando a Fbrica apitasse, a sim, o pessoal vinha todo tomar uma bicada e ningum poderia mais entrar.

- O senhor tem papel de seda?
- E voc tem dinheiro? Na conta de seu Pai, voc no leva mais -nada.

No me ofendi. Apenas mostrei os dois niqueis de tosto.

-  S tem cor-de-rosa e cor de abbora.
- S?
-  Com o tempo do papagaio vocs mesmos me levaram  tudo. Mas que diferena faz? Papagaio de qualquer cor sobe, no sobe?

- Mas no  para papagaio. Eu vou fazer o meu primeiro balo. Queria que o meu primeiro balo fosse o balo mais bonito do mundo.

No havia tempo a perder. Se corresse at o armazm do Chico Franco perdia muito tempo.

- Vai assim mesmo. Agora a coisa era diferente. Botei uma cadeira junto da mesa e trepei o rei Lus para espiar.

- Voc   fica quietinho, promete? Zez. vai fazer uma coisa dificlima. Quando voc crescer eu lhe ensino sem cobrar nada.

Comeou a escurecer rapidamente, e a gente trabalhando. A Fbrica apitou. Precisava andar depressa. Jandira j estava colocando os pratos na mesa. Ela tinha a mania de dar a comida pra gente mais cedo, para ningum amolar os mais velhos.

- Zez!... Lus!...
O berro vinha to forte como se a gente estivesse l pelos lados do Murundu. Desci Lus e falei:

- Vai indo na frente que eu j vou.

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- Zez!... Venha logo, seno vai ter.
- J vou j! A diaba estava de mau humor. Devia ter brigado com

um dos seus namorados. Ou o da ponta da rua ou o do comeo.

Agora, parecia de propsito, a cola estava ficando seca e a farinha grudava nos dedos dificultando o trabalho.

O berro veio mais forte. Quase no havia mais luz para o meu trabalho.

- Zez!... Pronto. Estava perdido. Ela veio de l, furiosa.
- Pensa que eu sou sua empregada? Venha comer logo.

Invadiu a sala e me agarrou pelas orelhas. Foi me arrastando at a sala e me atirou contra a mesa. A eu me danei.

- No janto. No janto. No janto. Eu quero  acabar o meu balo.

Escorreguei e voltei correndo para o lugar anterior. Ela virou fera. Em vez de avanar para mim, caminhou em direco da mesa. E era uma vez um belo sonho. Meu balo inacabado se transformara em tiras se rasgando. No satisfeita com isso (e tamanho foi o meu estupor, que nada fiz) ela me pegou pelas pernas, pelos braos e me atirou no meio da sala.

- Quando eu falo  para obedecer.
O diabo se soltou dentro de mim. A revolta estourou como um furaco. No comeo veio uma simples rajada.

- Sabe o que voc ?  uma puta! Ela colou o rosto ao meu. Seus olhos dispendiam fagulhas.

- Repete se voc tem coragem. Destaquei bem as slabas.
- Pu-ta! Ela apanhou a mo de couro sobre a cmoda e comeou a me bater sem piedade. Virei as costas e escondi a cabea entre as mos. A dor era menor que a minha raiva.

- Puta! Puta! Filha de uma puta!... Ela no parava e meu corpo era uma s dor de fogo. Foi quando entrou Antnio. E correu em auxlio de minha irm que estava comeando a cansar de tanto me bater.

- Mata, assassina! A cadeia est a para me vingar! E ela batia, batia a ponto de eu ter cado de joelhos, me apoiando na cmoda.

- Puta! Filha da puta.

Totoca me suspendeu e me virou para a frente.
- Cala a boca, Zez, voc no pode xingar assim a sua irm.

- Ela  uma puta. Assassina. Uma filha da puta! Ento ele comeou a me bater na cara, nos olhos, no nariz e na boca. Sobretudo na boca...

Minha salvao foi Glria ter ouvido. Ela estava no

vizinho, conversando com Dona Rosena e veio voando, atrada pela gritaria. Penetrou na sala como um furaco. Glria no era de brincadeira e quando viu que o sangue lavava minha cara, empurrou Totoca para o


lado e nem se importou que Jandira fosse mais velha, afastando-a com um safano. Eu jazia no cho sem quase poder abrir os olhos e respirando com dificuldade. Levou-me para o quarto. Eu nem chorava, mas em compensao o rei Lus tinha se escondido no quarto de Mame e fazia um berreiro terrvel. De medo e por que estavam judiando de mim.

Glria invectivava,
- Um dia vocs matam essa criana e eu quero ver! Vocs so uns monstros sem corao.

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Me deitara na cama e ia providenciar a santa bacia de salmoura. Totoca entrou sem jeito no quarto. Glria o empurrou.

- Sai pra l, seu covarde!
- Voc no ouviu o que ele estava xingando?
- Ele no estava fazendo nada. Vocs  que provocaram. Quando eu sa ele estava quietinho fazendo o seu balo. Vocs no tm  corao. Como se pode bater tanto num irmo?

E conforme me limpava o sangue, eu cuspi na bacia um pedao de dente. Aquilo tocou fogo no vulco.

- Veja o que voc fez, seu medroso. Quando voc quer brigar, tem medo e chama ele. Seu cago! Com nove anos e ainda mija na cama. Eu vou mostrar pra todo mundo o seu colcho e suas calas mijadas que voc esconde na gaveta todas as manhs.

Depois ela botou todo mundo para fora do quarto e

trancou a porta. Acendeu a luz porque a noite viera completa. Tirou minha camisa e ficou lavando as manchas e os lanhos do meu corpo.

- Di, Gum?
- Dessa vez est doendo muito.
- Eu fao bem de leve, meu diabinho querido. Voc precisa ficar de bruos um bocadinho de tempo para secar, seno a roupa gruda e di.

Mas o que doa mesmo era o rosto. Doa de dor e

de raiva ante tanta maldade sem motivo.

Depois que as coisas melhoraram ela deitou-se ao meu lado e ficou alisando a minha cabea.

- Voc viu, Godia. Eu no estava fazendo nada. Quando eu mereo eu no me importo de apanhar. Mas eu no estava fazendo nada.

Ela engoliu em seco.
- O mais triste foi o meu balo. Estava ficando to lindo. Pergunte s a Lus.

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Eu acredito. Ia ser lindo mesmo. Mas no faz mal. Amanh a gente vai  casa de Dindinha e compra papel de seda. E vou ajudar a voc a fazer o balo mais bonito do mundo. To bonito que at as estrelas vo ficar com inveja.

- No adianta, Godia. A gente s faz um primeiro balo bonito. Quando esse no presta, nunca mais acerta ou tem vontade de fazer.

- Um dia... um dia... eu vou levar voc para longe dessa casa. A gente vai morar...

Embatucou. Na certa, pensara na casa de Dindinha, mas l seria o mesmo inferno. Foi ento que ela resolveu participar directamente do meu p de Laranja Lima e dos meus sonhos.

- Eu levo voc para morar no rancho de Tom Mix ou Buck Jones.

- Mas eu gosto ainda mais de Fred Thompson.
- Pois ns vamos para l. E completamente desamparados, comeamos a chorar juntos e baixinho...

Durante dois dias, apesar da minha saudade, no fui

ver o Portugus. Nem deixavam que eu fosse  Escola. Ningum queria testemunho de tanta brutalidade. Logo que meu rosto desinchasse e meus lbios cicatrizassem eu recomearia o meu ritmo de vida. Passava os dias sentado com o meu irmozinho junto de Minguinho, sem vontade de conversar. Com medo de tudo. Papai tinha me jurado que me moeria de pancada se eu repetisse outra vez o que dissera  Jandira. De modo que eu respirava at com medo. Melhor era me refugiar na pequena sombra do meu p de Laranja Lima. Ficar vendo as montanhas de figurinhas que o Portuga me

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dava e ensinar com pacincia o rei Lus jogar bolinhas de gude. Ele era meio sem jeito, mas um belo dia acabaria por aprender.

Entretanto minha saudade era muito grande. O Portuga deveria estranhar a minha ausncia e se ele soubesse realmente onde eu morava, era at capaz de me vir procurar. Fazia falta ao meu ouvido,  ternura do meu ouvido aquele jeito de falar meio carregado e

cheio de "tu". D. Ceclia Paim me dissera que a gente para tratar os outros de tu, precisava saber muita gramtica. Estava fazendo falta tambm  saudade dos meus olhos, o seu rosto moreno, a sua roupa escura sempre impecvel, a gola da camisa sempre durinha como se houvesse sado da gaveta naquele momento, o seu colete de xadrezinho, at as suas abotoaduras douradas em formato de ncora.

Mas logo, logo, estaria bom. Ferimento de criana cicatrizava logo muito antes do que aquela frase que costumavam citar: quando casar, sara.

Naquela noite Papai no sara. Ningum se encontrava em casa, salvo Lus que j dormia. Mame deveria estar chegando da cidade. Tinha vezes que ela fazia sero no Moinho Ingls que a gente s a via aos domingos.

Eu resolvera ficar perto de Papai, porque assim no faria arte alguma. Ele se sentara na cadeira de balano e olhava perdidamente para a parede. Seu rosto sem-

pre com a barba por fazer. Sua camisa nem sempre muito limpa. Quer ver que no sara para jogar Manilha com os amigos porque no tinha dinheiro. Pobre Papai, devia ser triste, saber que Mame trabalhava para ajudar a sustentar a casa. Lal j entrara para a Fbrica. Devia ser duro ir procurar uma poro de empregos e voltar desanimado sempre com aquela resposta: Precisamos de uma pessoa mais moa...

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Sentado da soleira da porta eu contava as lagartixinhas branquicelas na parede e desviava a vista para olhar Papai.

Somente naquela manh do Natal eu o vira to triste. Precisava fazer alguma coisa por ele. E se eu cantasse? Eu poderia cantar bem baixinho que iria, tinha certeza, melhorar o seu abandono. Passei o repertrio na cabea e me lembrei da ltima msica que aprendera com seu

Ariovaldo. O tango; o tango era das coisas mais bonitas que eu j ouvira. Comecei baixinho:

@@Eu quero uma mulher bem nua

Bem nua eu a quero ter... De noite no claro da lua Eu quero o corpo da mulher..."

- Zez!
- Pronto, Papai. -Levantei-me prestamente. Papai devia estar gostando muito e queria que eu viesse cantar perto.

- Que  que voc est cantando? Repeti.

- "Eu quero uma mulher bem nua..."

- Quem ensinou essa msica a voc? Seus olhos tinham adquirido um brilho fosco como se fosse ficar louco.

- Foi seu Ariovaldo.
- Eu j disse que no queria que andasse na sua companhia.

Ele no dissera nada. Acho que nem sabia que eu

trabalhava de ajudante de cantor.

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- Repita de novo a cano.
-  um tango da moda.

- "Eu quero uma mulher bem nua..."

Uma bofetada estalou no meu rosto.
- Canta de novo:

- "Eu quero uma mulher bem nua..."

Outra bofetada, outra, mais outra. As lgrimas pulavam dos meus olhos sem querer.

- Vamos, continua a cantar:

- "Eu quero uma mulher bem nua..."

Meu rosto quase no se podia mexer, era arremessado. Meus olhos abriam-se para se tornar a fechar com o impacto das bofetadas. Eu no sabia se devia parar ou

se tinha de obedecer... Mas na minha dor tinha resolvido uma coisa. Seria a ltima surra que eu levaria, seria a ltima mesmo que morresse para isso.

Quando ele parou um pouco e mandou cantar, eu no cantei. Olhei Papai com um desprezo enorme e falei:

- Assassino!... Mate de uma vez. A cadeia est a para me vingar.

Tomado de fria, s ento ele se ergueu da cadeira de balano. Desabotoou o cinto. Aquele cinto que tinha duas rodelas de metal e comeou a me    xingar apopltico. De cachorro, de porcaria, de traste vagabundo, se era assim que falava do seu Pai.

O cinto zunia com uma fora danada sobre o meu

corpo. Parecia que o cinto tinha mil dedos que me acertavam em qualquer parte do corpo. Eu fui caindo, me

encolhendo no cantinho da parede. Estava certo que

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ele ia me matar mesmo. Ainda pude ouvir a voz de Glria que entrava para me salvar. Glria, a nica rua como eu. Glria que ningum tocava. Ela segurou a mo de Papai e segurou o golpe.

- Papai. Papai. Por amor de Deus, me bata,'mas no bata mais nessa criana.

Ele jogou o cinto sobre a mesa e passou as mos sobre o rosto. Chorava por ele e por mim.

- Eu perdi a cabea. Pensei que ele estava caoando de mim. Fazendo pouco caso.

Quando Glria me apanhou do cho, eu desmaiei. Quando eu me apercebi das coisas, ardia em febre. Mame e Glria estavam  minha cabeceira e me diziam coisas carinhosas. Na sala havia movimento de muita gente. At Dindinha tinha sido chamada. Eu doa todo a cada movimento. Depois eu soube que queriam chamar o mdico, mas no ficava bem.

Glria me trouxe um caldo que fizera e tentou me dar algumas colheradas. Mal podia respirar, quanto mais engolir. Ficava numa sonolncia danada e quando acordava a dor ia diminuindo. Mas Mame e Glria continuavam me velando. Mame passou a noite comigo e s bem de madrugada se levantou para preparar-se. Precisava ir trabalhar. Quando ela veio se despedir de mim eu me agarrei ao seu pescoo.

- No vai ser nada, meu filho. Amanh voc ficar bom...

- Mame... Falei baixinho, talvez a maior acusao da vida.
- Mame, eu no devia ter nascido. Devia ter sido como o meu balo...

Ela alisou tristemente a minha cabea.
- Todo mundo deve ter nascido como nasceu. Voc tambm. S que s vezes voc, Zez,  levado demais...

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CAPTULO QUINTO

Suave e estranho pedido

UMA SEMANA foi preciso para que eu me recuperasse todo. No provinha das dores nem das pancadas o meu

desnimo. Verdade que em casa comearam a me tratar bem que dava para desconfiar. Mas faltava qualquer coisa. Qualquer coisa importante que me fizesse voltar a ser o mesmo, talvez a acreditar nas pessoas, na bondade  delas. Eu ficava to quietinho, sem vontade de nada, sentado quase sempre perto de Minguinho, olhando a vida, perdido no desinteresse. Nada de conversar com ele nem de ouvir as suas histrias. O mais que acontecia era deixar meu irmozinho ficar perto de

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mim. Fazer bondinho de Po de Acar que ele adorava com os botes, e deix-lo subir e descer os cem bondinhos, o dia inteiro. Eu o olhava com uma ternura imensa, porque quando eu era criana, como ele, tambm gostava daquilo...

Glria estava preocupada com o meu mutismo. Punha ela mesmo meu monte de figurinhas, meu saquinho de bolas de gude perto e s vezes eu nem mexia. No sentia vontade de ir ao cinema, nem de sair engraxando sapatos. A realidade era que no conseguia deixar de esticar a minha dor de dentro. De bichinho batido maldosamente, sem saber por qu...

Glria perguntava pelo meu mundo de fantasias.
- Eles no esto. Foram para longe... Estava certamente me referindo a Fred Thompson e aos outros amigos.

Mas ela no sabia a revoluo que se realizava dentro de mim. O que eu tinha resolvido. Iria mudar de filmes. Nada mais de filmes de cowboy, nem ndio nem nada. Eu de agora em diante s iria ver filme de amor, como os grandes chamavam. Filme que tivesse muito beijo, muito abrao e que todo mundo se gostasse. J que eu s servia para apanhar, poderia pelo menos ver os outros se gostarem.

Chegou o dia que eu j podia ir para a Escola. Fui mas no para a Escola. Sabia que o Portuga passara uma

semana me esperando com o "nosso" carro e naturalmente s recomearia a me esperar quando eu o avisasse. Ele devia estar muito preocupado com a minha ausncia. Mesmo que me soubesse doente no viria me procurar. Ns tnhamos dado a nossa palavra, tnhamos feito um pacto de morte com o nosso segredo. Ningum, s Deus, deveria saber da nossa amizade.

Junto  Confeitaria, defronte  Estao, estava o carro lindo parado. Nasceu o primeiro raio de sol de alegria. Meu corao se adiantou na frente cavalgando a minha saudade. Ia ver o meu amigo mesmo.

Mas nesse momento um apito lindo que me deixou todo arrepiado ecoou na entrada da Estao. Era o Mangaratiba. Violento, orgulhoso, dono de todos os trilhos. Passou voando, chacoalhando os vages naquela lindeza toda. As pessoas das janelinhas olhavam para fora. Todo mundo que viajava era feliz. Quando era criana gostava de ficar vendo o Mangaratiba passar e dar adeus que no acabava mais. Adeus at o trem sumir no fim da linha. Hoje quem estava nessa fase era Lus.

Procurei entre as mesas da Confeitaria e l estava ele. Na ltima mesa para poder ver quando os fregueses chegavam. Estava de costas, sem palet e com o lindo colete de xadrezinho, deixando escapar as mangas alvas da camisa limpa.

Foi me dando uma fraqueza to grande que mal -eu

consegui chegar perto de suas costas. Quem deu o alarme foi seu Ladislau.

- Espia, Portuga, quem est a. Ele virou-se devagar e abriu o rosto num sorriso de felicidade. Abriu os braos e me apertou demoradamente.

- Meu corao estava me dizendo que tu virias hoje. Depois me olhou um certo tempo.
- Ento, fujo. Onde estiveste esse tempo todo?
- Estive muito doente. Puxou a cadeira.
- Senta-te. Estalou o dedo chamando o garom que j sabia o

que eu gostava. Mas quando depositou o refresco e o doce, eu nem os toquei. Apoiei a cabea sobre os braos e fiquei assim, me sentindo amolecido e triste.

- No queres?

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E como no respondesse, o Portuga suspendeu o meu rosto. Eu mordia os lbios com fora e meus olhos estavam inundados.

- Ora o que  isso, Pirralho? Conta c para o teu amigo...

- No posso. Aqui no posso... Seu Ladislau estava balanando a cabea negativamente como se no compreendesse. Resolvi falar uma coisa.

- Portuga,  verdade que o carro ainda  "nosso" carro?

- . Ainda tens dvida?
- Voc seria capaz de me levar para dar um passeio? Ele se espantou com o pedido.
- Se queres, vamos j. Como ele visse que meus olhos estavam mais molhados ainda, me puxou pelo brao, me levou at o carro e me sentou sem precisar abrir a porta.

Voltou para pagar a despesa e ouvi que ele conversava com seu Ladislau e os outros.

- Ningum entende essa criana em sua casa. Nunca vi um menino com tamanha sensibilidade.

- Conta a verdade, Portuga. Voc gosta muito desse diabrete.

- O que tu pensas ainda  pouco.  um Pirralho maravilhoso e inteligente.

Veio para o carro e sentou-se.
- Onde queres ir?
- S sair daqui. A gente pode ir at o caminho do Murundu.  perto e no gasta muita gasolina. Ele riu.

- No s muito criana para entenderes dos problemas de gente grande?

A pobreza l em casa era tanta que a gente desde cedo aprendia a no gastar qualquer coisa. Tudo custava muito dinheiro. Era caro.

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Durante a pequena viagem ele nada disse. Deixava que eu me recuperasse. Mas quando tudo se afastou e o

caminho ficou aquela maravilha de verdes capinzais ele estancou o carro, olhou-me e sorriu com aquela bondade que enchia o que faltava de bondade no resto do mundo.

- Portuga, olhe para minha cara. Cara no, focinho. L em casa dizem que eu tenho focinho porque no sou

gente, sou bicho, sou ndio Pinag, sou filho do diabo.

- Prefiro ainda olhar tua cara.
- Mas olhe mesmo. Olhe como ainda estou todo inchado de apanhar.

Os olhos do Portugus adquiriram uma expresso de inquietude e pena.

- Mas porque te fizeram isso? Fui contando, contando tudo, sem exagerar uma palavra. Quando acabei seus olhos estavam hmidos e no sabia o que fazer.

- Mas no podem bater tanto numa criancinha como tu. Ainda nem fizeste seis anos. Minha Nossa Senhora de Ftima!

- Eu sei por qu. Eu no presto mesmo. Sou to ruim que quando chega o Natal acontece aquilo: Nasce o Menino Diabo em vez do Menino Deus!...

- Besteiras, tu s um anjinho ainda. Podes ser um

tanto traquinas...

Aquela idia fixa tornou a me angustiar a mente.
- Eu sou to ruim que nem devia ter nascido. Eu falei isso para Mame outro dia.

Pela primeira vez ele gaguejou.
- No devias ter dito essas coisas.
- Eu pedi para falar com voc porque precisava muito. Eu sei que  ruim Papai com aquela idade no pode arranjar trabalho. Sei que deve doer muito. Mame ter que sair de madrugada, para ajudar a pagar a casa. Mame trabalha nos teares do Moinho Ingls.

147

Ela usa uma cinta porque foi suspender uma caixa de espulas e ficou com aquela hrnia. Lal  uma moa que at estudou muito e teve que virar operria da Fbrica... Tudo isso  coisa malvada. Mas tambm ele no precisava me bater tanto daquele jeito. No Natal, eu prometi que ele podia me bater o quanto quisesse, mas dessa vez foi demais.

Ele me encarava atnito.
- Senhora de Ftima! Como pode uma criana assim entender e sofrer com os problemas de gente grande. Nunca vi!

Engoliu um pouco da emoo.
- Somos amigos, no somos? Vamos conversar de homem para homem? Se bem que me d calafrios s vezes falar certas coisas contigo. Pois bem, eu acho que tu no devias falar aqueles palavres para a tua irm. Alis tu no devias nunca falar palavres, sabes?

- Mas eu sou pequeno. S assim  que eu me vingo.
- Sabes o que significam? Fiz sim com a cabea.
- Ento nem podes e nem deves. Fizemos uma pausa.
- Portuga!
- Hum.
- Voc no -gosta que eu diga palavres?
- Simplesmente no.
- Pois bem, se eu no morrer, eu prometo a voc que no xingo mais.

- Muito bem. E que negcio de morrer  esse?
- Quando chegar daqui a pouco eu conto. Tornamos a nos calar e o Portugus estava cismado.
- Preciso saber de outra coisa j que confias em

mim. Aquela histria da msica. O tal do Tango. Tu sabias o que estavas cantando?

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- Eu no quero mentir para voc. Eu no sabia direito. Eu aprendi porque aprendo tudo. Porque a msica  muito bonita. Nem pensava no que, queria dizer  ...  Mas ele me bateu tanto, tanto, Portuga. No faz mal    ...

Funguei compridamente.
- No faz mal, eu vou matar ele.
- Que  isso menino, matares teu pai?
- Vou, sim. Eu j at que comecei. Matar no quer dizer a gente pegar o revlver de Buck Jones e fazer bum! No  isso. A gente mata no corao. Vai deixando de querer bem. E um dia a pessoa morreu.

- Que cabecinha imaginosa que tu tens. Dizia isso mas no conseguia esconder a emoo que o assaltava.

- Mas tu tambm no disseste que me matavas?
- Disse no como. Depois matei voc ao contrrio. Fiz voc morrer nascendo no meu corao. Voc  a nica pessoa que eu gosto, Portuga. O nico amigo que eu tenho. No  porque me d figurinhas, refresco, doce ou bola de gude... Juro que estou falando a verdade.

- Ora, todo mundo te quer bem. Tua me, mesmo o teu pai. Tua irm Glria, o rei Lus... Por acaso, esqueceste o teu p de Laranja Lima? o tal de Minguinho e...

- Xururuca.
- Pois ento...
- Agora  diferente, Portuga. Xururuca  uma simples laranjeirinha que nem sequer sabe dar uma flor... Isso  que  a verdade... Mas voc, no. Voc  meu amigo e foi por isso que eu pedi para passear no nosso carro que daqui a pouco vai ser s seu. Eu vim dizer adeus para voc.

- Adeus?
- Srio. Voc v, eu no presto para nada, estou cansado de sofrer pancada e puxes de orelha. Vou deixar de ser uma boca a mais...

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Comecei a sentir um n doloroso na garganta. Precisava muito de coragem para contar o resto.

- Vais fugir ento?
- No. Eu passei esta semana toda pensando nisso. Hoje de noite eu vou me atirar debaixo do Mangaratiba.

Ele nem falou. Me apertou fortemente nos braos e

me confortou do jeito que s ele sabia fazer.

- No. No digas isso, por amor de Deus. Tens uma vida linda pela frente. Com essa cabea e essa inteligncia. No digas assim que  pecado! Eu no quero nem que penses, nem que repitas isso. E eu? Tu no me

queres bem? Se me queres e no ests mentindo, no deves falar mais assim.

Afastou-se de mim e me olhou nos olhos. Passou as costas das mos sobre as minhas lgrimas.

- Eu te quero muito, Pirralho. Muito mais do que tu pensas. Vamos, sorri.

Sorri meio aliviado com a confisso.
- Tudo isso vai passar. Logo sers dono das ruas com teus papagaios, rei da bola de gude, um vaqueiro to forte como Buck Jones... Demais a mais, eu pensei numa coisa. Queres saber?

- Quero.
- Sbado, no irei ver minha filha no Encantado. Ela foi passar uns dias em Paquet com o marido. Eu tinha pensado, como o tempo est firme, em ir pescar l no Guandu. Como estou sem um grande amigo para me acompanhar, pensei em ti.

Meus olhos se iluminaram.
- Voc me levaria?
- Bem, se queres. No s obrigado a ir. A resposta foi que encostei meu rosto no seu rosto barbeado e o apertei nos meus braos, enrodilhando o

seu pescoo.

Estvamos rindo e a tragdia se afastara toda.

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- Tem um lugar lindo. Levaremos alguma coisa para comer. Do que mais gostas?

- De voc, Portuga.
- Falo de salames, ovos, bananas...
- Eu gosto de tudo. L em casa a gente aprende a

gostar de tudo que tem e quando tem.

- Vamos ento?
- Nem vou dormir pensando nisso. Mas havia um grave problema circundando a felicidade.

- E o que vais dizer para te afastares de casa um dia todo?

- Invento qualquer coisa.
- E se te pegam depois?
- At o fim do ms ningum pode me bater. Prometeram  Glria, e Glria  uma fera.  a nica rua parecida comigo.

- Verdade?
- , sim. Eu s posso apanhar depois de um ms quando me "recuperar".

Ligou o motor e recomeou a marcha da volta,
- Quer dizer que aquilo, no se fala mais?
- Aquilo o qu?
- Do Mangaratiba?
- Vou demorar mais um tempo para fazer isso...
- Ainda bem. Depois eu soube, por seu Ladislau, que apesar da minha promessa o Portuga s foi para casa depois que o Mangaratiba passou de volta. Bem tarde da noite.

A gente tinha viajado por caminhos lindos. A estrada no era larga nem asfaltada, nem calada, mas em compensao as rvores e os capinzais eram uma beleza. Para no falar do sol e do cu alegre to azul. Dindinha

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uma vez dissera que alegria  um "sol brilhante dentro do corao". E que o sol iluminava tudo de felicidade, Se era verdade, o meu sol dentro do peito embelezava tudo...

Voltamos a conversar sobre certas coisas, enquanto o carro deslizava sem pressa nenhuma. Parecia at que ele queria escutar a conversa.

- Pois , quando ests comigo s uma seda e bonzinho. Tu dizes que com a tua professora, como se chama mesmo ela?

- D. Ceclia Paim. Sabe que ela tem uma pintinha branca num dos olhos?

Ele riu.
- Pois com D. Ceclia Paim tu disseste que ela no acreditaria no que fazes fora das aulas. Com teu irmozinho e com Glria tu s bonzinho. Ento por que  que tu mudas assim?

- Isso  que no sei. S sei que tudo que fao d em travessura. Toda rua sabe do meu malfeito. Parece que o diabo fica soprando coisas no meu ouvido. Seno eu no inventava tanta peraltice como diz meu Tio Edmundo. Sabe o que eu fiz uma vez com Tio Edmundo? Eu nunca contei, contei?

- No contaste.
- Pois olhe que faz bem seis meses. Ele recebeu uma rede do Norte e ficou todo prosa. No deixava nem a gente se balanar nela, o filho da puta...

- O que disseste?
- Bem, o miservel quando acabava de dormir, desarmava ela e carregava debaixo do brao. Como se a gente fosse tirar pedao dela. Pois um dia eu fui em casa de Dindinha e ela no me viu entrar. Devia estar com os culos na ponta do nariz, lendo anncio. Dei volta na casa. Espiei as goiabeiras e nada. A vi Tio Edmundo roncando na rede armada entre a cerca e um

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tronco de laranjeira. Ele roncava como um porco. A boca meio mole e aberta. O jornal tinha cado no cho.
O diabo ento me falou uma coisa e eu vi que tinha uma caixa com algum fsforo dentro do bolso. Rasguei uma tira de jornal sem fazer barulho. Juntei as outras folhas de jornal e risquei fogo no pavio que fizera. Quando apareceram as chamas bem embaixo da...

Fiz uma pausa e perguntei seriamente:
- Portuga, bunda eu posso falar?
- Bem.  meio palavro e no se deve falar sempre.
- E o que a gente podia falar quando quisesse falar bunda?

Ndegas.
O qu? Preciso aprender essa palavra que  difcil. Ndegas. N-DE-GAS. Bem, quando comeou a queimar embaixo das ndegas da bunda dele eu corri, fugi pelo porto e fiquei pelo buraquinho da cerca vendo no que ia dar. Foi um berro danado. O velho deu um pulo e suspendeu a rede. Dindinha correu e ainda passou um pito nele. "Estou cansada de falar que voc no deve deitar na

rede fumando" - e vendo o jornal queimado ainda reclamou que no tinha lido aquele.

O Portugus ria gostosamente e eu estava contente de v-lo alegre.

- No te pegaram?
- Nem descobriram. S contei isso pra Xururuca. Se me pegassem me cortavam o saco.

- Cortavam o qu?
- Bem, me capavam. Ele voltou a rir e ficamos olhando a estrada. Soprava uma poeira amarela por todo canto onde o carro passava. Mas eu estava matutando uma coisa.

- Portuga, voc no me mentiu, no?
- Sobre o que, Pirralho?

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- Olhe que eu nunca escutei ningum falar: Levou um pontap nas ndegas. Voc j ouviu?

Ele tornou a rir.
- s um danadinho, Eu tambm nunca ouvi. Mas v l. Esquece as ndegas e usa em vez, traseiros. Mas vamos mudar de conversa seno acabarei sem saber o que responder-te. Espia a paisagem que vai ficar mais cheia de rvores grandes. O rio est ficando cada vez

mais perto.

Ele virou para a direita e tomou um atalho. O carro foi indo, foi indo e parou bem num descampado, S havia uma rvore grande cheia de razes enormes.

Bati palmas de felicidade.
- Que lindo! Que lugar mais lindo! Quando me encontrar com Buck Jones vou dizer que as campinas e

plancies dele, nem chegam aos ps do nosso lugar.

Ele passou a mo na minha cabea.
- Assim  que eu quero te ver sempre. Vivendo os

bons sonhos e no com caraminholas na cabea.

Descemos do carro e ajudei a carregar as coisas para a sombra da rvore.

- Voc vem sempre aqui sozinho, Portuga?
- Quase sempre. Vs? Tambm tenho uma rvore.
- Como  que ela se chama, Portuga? Quem tem uma rvore to grande assim tem que batizar ela.

Ele pensou, sorriu e pensou.
-  um segredo meu, mas vou te contar. Chama-se Rainha Carlota.

- E ela fala com voc?
- Falar no fala. Porque uma rainha nunca fala directamente com os seus sditos. Mas eu sempre a

trato de Majestade.

- Que que  sditos?
-  o povo que obedece o que a rainha manda.
- E eu vou ser sdito seu?

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Soltou uma gargalhada to gostosa que fez vento no capinzal.

- No, porque eu no sou rei e no mando nada. Eu sempre te pedirei as coisas.

- Mas voc podia ser rei. Voc tem tudo para ser rei. Todo rei  gordo como voc. O rei de copas, o de espadas, o de paus e o de ouros. Todos os reis do baralho so bonitos como voc, Portuga.

- Vamos. Vamos com o trabalho, seno com essa conversa comprida no se pesca nada.

Ele apanhou uma vara de pesca, uma lata onde tinha uma poro de minhocas, descalou os sapatos e tirou o colete. Sem colete ele ficava ainda mais gordo. Apontou o rio.

- At ali tu podes brincar.  raso. Para o outro lado no, que  muito fundo. Agora eu vou ficar ali pescando. Se quiseres ficar comigo, no podes falar. Seno os peixes fogem.

Deixei ele sentado l e fui reinar. Descobrir coisas. Como era lindo aquele pedao de rio. Molhei os ps e

vi um mundo de sapinhos pra l e pra c na correnteza. Fiquei vendo a areia, os seixos e as folhas sendo puxados pela correnteza. Me lembrei de Glria.

"Deixa-me fonte, dizia

A flor a chorar Eu fui nascida no monte No me leves para o mar.

Ai balanos dos meus galhos Balano dos galhos meus Ai claras gotas de orvalho Cadas do azul do cu... E a fonte sonora e fria Com um sussurro zombador Por sobre a areia corria Corria levando a flor..."

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Glria tinha razo. Aquilo era a coisa mais bonita do mundo. Pena que eu no pudesse contar pra ela que vira a poesia viver. No era com flor, mas com uma poro de folhazinhas que caam das rvores e iam embora para o mar. Ser que o rio, esse rio vai tambm pro mar? Podia perguntar ao Portuga. No, ia atrapalhar a sua pescaria.

Mas a pescaria resultou apenas em dois lambaris que at davam d de terem sido pescados.

O sol estava bem alto, Meu rosto se achava afogueado de tanto que eu brincava e conversava com a vida. Foi quando o Portuga veio de l e me chamou. Vim correndo como um cabritinho.

- Mas que sujo tu ests, Pirralho.
- Brinquei de tudo. Me deitei no cho. Buli com gua...

- Vamos comer. Mas tu no podes comer assim sujinho como se fosses um porquinho. Vamos, despe-te e mergulha ali naquele lugar raso.

Mas eu fiquei indeciso sem querer obedecer.
- Eu no sei nadar.
- Mas no  preciso. Vamos, eu fico perto. Continuava parado. No queria que ele visse...
- No venhas me dizer que ests com vergonha de te despires perto de mim-

- No. No  isso...

No tinha outra alternativa; virei-me de costas e comecei a tirar a roupa. Primeiro a camisa, depois as calas com os suspensrios de pano.

Joguei tudo no cho e virei-me splice para ele. Realmente no disse nada mas tinha o horror e a revolta estampados nos olhos. Eu no queria que ele visse as

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manchas, os verges e as cicatrizes das surras que eu tinha apanhado.

Apenas murmurou emocionado,
- Se te di, no entra n'gua.
- Agora no di mais.

Comemos ovos, banana, salame, po e mariolas. Isso s eu quem gostava. Fomos beber gua no rio e voltamos para debaixo da Rainha Carlota.

Ele j ia se sentar, mas fiz sinal que parasse. Coloquei a mo no peito e reverenciei a rvore.
- Majestade, seu sdito o cavalheiro Manuel Valadares e o maior Guerreiro da Nao Pinag... Ns vamos sentar debaixo da Senhora.

Rimos e nos sentamos.
O Portuga estendeu-se no cho, forrou com o colete uma  raz da rvore e falou:

- Agora, toca a tirar uma soneca.
-  Mas eu no estou com vontade.
-  No importa. No vou te deixar solto por a, peralta como s.

Passou a mo sobre o meu peito e me fez prisioneiro. Ficamos um tempo olhando as nuvens escaparem por entre os galhos da rvore. Tinha chegado o momento. Se eu no falasse agora, nunca mais o faria.

- Portuga!
- Hum...
- Voc est dormindo?
- Ainda no. ---  verdade aquilo que voc disse a seu Ladislau, na Confeitaria?

- Ora, tantas coisas eu tenho dito a seu Ladislau, na Confeitaria.

- A meu respeito. Eu ouvi. Do carro eu ouvi.

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-  E o que ouviste?
-  Que voc gosta muito de mim?
-  Est claro que gosto de ti. Que diferena faz? A eu me virei, sem me libertar dos seus braos. Fitei os seus olhos semicerrados. Seu rosto assim ficava mais gordo e mais parecido com um rei.

- No, mas eu quero saber com fora se voc gosta mesmo de mim?

- Claro, bobinho. E me apertou mais para comprovar o que dissera.
- Eu estive pensando seriamente. Voc s tem aquela filha do Encantado, no ?

. Voc mora sozinho naquela casa com as duas gaiolas de passarinho, no ?

. Voc disse que no tem netos, no ? . E voc disse que gosta de mim, no ? . Ento porque voc no vai l em casa e no pede para Papai me dar para voc?

Ele ficou to emocionado que se sentou e me segurou o rosto com as duas mos.

- Tu gostarias de ser meu filhinho?
- A gente no pode escolher o pai antes de nascer. Mas se pudesse eu queria voc.

- Verdade, Pirralho?
- Posso at jurar. Depois, eu seria uma pessoa a menos para comer. Eu prometo que no falo mais palavres, nem bunda mesmo. Eu engraxo os seus sapatos, trato dos passarinhos na gaiola. Fico bonzinho de todo. No vai haver melhor aluno na Escola. Fao tudo, tudo direitinho.

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Ele nem sabia o que responder.
- L em casa todo mundo morre de alegria se eu for dado. Vai ser um alvio. Eu tenho uma irm entre Glria e Antnio que foi dada pro Norte. Foi viver com uma prima, que  rica, para estudar e ser gente...

O silncio continuava e os seus olhos estavam cheios de lgrimas.

- Se no quiserem dar, voc me compra. Papai est sem dinheiro nenhum. Garanto que ele me vende. Se pedir muito caro voc pode me comprar a prestaes, do jeito que seu Jacob vende...

Como ele no respondesse eu voltei  antiga posio e ele tambm.

- Sabe, Portuga, se voc no me quer, no faz mal. Eu no queria fazer voc chorar...

Ele alisou demoradamente os meus cabelos.
- No  isso, meu filho. No  isso. A vida a gente no resolve assim de uma s manobra. Mas eu vou te propor uma coisa. No poderei tirar-te dos teus pais nem da tua casa. Se bem que gostasse muito de o fazer. Isso no  direito. Mas de agora em diante, eu que gostava de ti como um filhinho, vou te tratar como se fosses mesmo o meu filho.

Eu me ergui exultante.
- Verdade, Portuga?
- Posso at jurar, como tu sempre dizes. Fiz uma coisa que raramente fazia ou gostava de fazer com os meus familiares. Beijei o seu rosto gordo e bondoso...

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CAPTULO SEXTO

De pedao em pedao  que se faz ternura

_ENENHUMA DELAS FALAVA, nem voc podia montar a cavalo, Portuga?

- Nenhuma delas.
-  Mas voc no era criana ento?
- Era. Mas nem toda criana tem a felicidade que tens de entender as rvores. E mesmo porque nem todas as rvores gostam de falar.

Riu-se afectuosamente e prosseguiu.
- No eram bem rvores, eram parreiras e antes que me perguntes vou te explicando: Parreiras so as rvores das uvas. Onde nasce a uva. So apenas grossas

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trepadeiras. Que bonito quando vinham as vindimas (a ele explicou) e o vinho que se faz no lagar (explicou de novo)...

Do jeito em que as coisas iam ele sabia explicar muita sabedoria. To bem como Tio Edmundo.

- Conte mais.
- Ests gostando?
- Muito. Se eu pudesse conversar com voc oitocentos e cinquenta e dois mil quilmetros sem parar.

- E a gasolina para tanto?
- Era gasolina do faz de conta. A ele contou do capim que vira feno no inverno e da fabricao dos queijos. Alis, queijos no, '(caijos". Ele mudava muito a msica das palavras mas eu achava que ficavam com mais msica...

Ele parou de contar e deu um suspiro muito grande...
- Muito em breve gostaria de l voltar. Talvez para esperar a minha velhice calmamente, num lugar de paz e encantamento. Folhadela, pertinho de Monreal, no meu belo Trs-os-Montes.

S ento prestei bem ateno que o Portuga era mais velho que Papai, se bem que seu rosto gordo estivesse menos marcado, brilhando sempre. Uma coisa esquisita se passou dentro de mim.

- Voc est falando srio? S ento notou o meu desapontamento.
- Tolinho, isso vai demorar muito. Talvez nem acontea mais em minha vida.

- E eu? Custou tanto para fazer voc ficar do jeito que eu queria.

Meus olhos ficaram covardemente cheios de lgrimas.
- Mas tu deves admitir que s vezes a gente tambm possa sonhar.

-  que voc no me botou no seu sonho. Ele sorriu embevecido.

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- Tudo que  sonho meu, Portuga, eu boto voc. Quando saio pelas verdes campinas com Tom Mix e Fred Thompson, j aluguei uma diligncia para voc viajar e no se cansar muito. Voc est em todo canto que eu vou. De vez em quando, na aula, eu olho pra porta e penso que voc chega l e me d adeus...

- Santo Deus! Nunca vi uma alminha to sedenta de ternura como tu. Mas no devias te apegar tanto a mim, sabes?...

Era isso que eu estava contando para Minguinho. Minguinho era pior do que eu para gostar de conversar.

- Mas a verdade, Xururuca,  que depois que ele ficou, meu pai ficou todo coruja. Tudo que eu fao, ele acha bonito. Mas acha bonito diferente. No  como os outros que falam: esse menino vai longe. Vai longe

mas a gente nunca sai de Bangu.

Olhei Minguinho com ternura. Agora que descobrira mesmo o que era ternura, em tudo que eu gostava colava ternura.

- Olhe, Minguinho, eu quero ter doze filhos e mais doze. Voc entende? Os primeiros sero todos crianas e

nunca vo apanhar. Os outros doze vo ficando homens. E eu pego pergunto para eles: O que  que voc quer ser, meu filho? Lenhador? Ento, pronto: est aqui o

machado e a camisa de xadrez. Voc quer ser domador de circo? Pronto: est   aqui o chicote e a farda...

- E no Natal, como  que voc vai fazer com tanta criana?

Tambm Minguinho       tinha cada coisa! Interromper numa hora daquelas.

- No Natal vou ter     muito dinheiro. Comprarei um

caminho de castanhas    e avels. Nozes, figos e passas. Tanto brinquedo que at eles vo dar e emprestar pros vizinhos pobres... E vou ter muito dinheiro, porque de

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agora em diante quero ser rico, rico demais e ainda vou ganhar na Loteria...

Olhei desafiante Minguinho e reprovei a sua interrupo.

- Deixe acabar de contar o resto que ainda tem muito filho. Bem, meu filho, voc quer ser vaqueiro? Est aqui a sela e o lao. Voc quer ser maquinista do Mangaratiba? Est aqui o bon e o apito...

- Pra que o apito, Zez? Voc acaba maluquinho de tanto falar sozinho.

Totoca tinha se chegado e sentado perto de mim. Examinou com um sorriso amigo, o meu pezinho de Laranja Lima, cheio de lao e de tampinhas de cerveja. Ele estava querendo coisa.

-  Zez, voc quer me emprestar quatrocentos ris?
-  No.
- Mas voc tem, no tem?
- Tenho.
-  E diz que no empresta sem saber para qu?
-  Vou ficar riqussimo para poder viajar para Trasos-Montes.

- Que maluquice  essa agora?
- No conto.
-  Pois engula.
-  Engulo e no empresto os quatrocentos ris.
-  Voc  rato, tem pontaria. Amanh voc joga e

ganha mais bolas para vender. Num instante recupera os quatrocentos ris.

- Mesmo assim no empresto e no venha brigar que eu estou bonzinho, sem mexer com ningum.

- No quero brigar. Mas  que voc  o irmo que eu mais gosto. E de repente deu para ficar um monstro sem corao....

- No estou virando monstro. Eu agora sou um troglodita sem corao.

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-  o qu?
- Troglodita. Titio Edinundo me mostrou um retrato da revista. Tinha um macaco cabeludo com porrete na

mo. Pois bem, Troglodita era gente do comeo do mundo que vivia nas cavernas de Nem... Nem... Nem sei o que. No consegui decorar o nome por que era estrangeiro e difcil demais...

- Tio Edmundo no devia meter tanta minhoca na sua cabea. Mas voc empresta?

- Eu nem sei se tenho...
- Puxa, Zez, quantas vezes que a gente sai engraxando e voc no faz nada, eu divido. Quantas vezes que voc est cansado e eu trago a sua caixa de engraxate...

Era verdade. Totoca poucas vezes era ruim comigo. Eu sabia que ia acabar emprestando.

- Se voc me emprestar eu conto duas coisas maravilhosas.

Fiquei em silncio.
- Eu digo que o seu p de Laranja Lima  muito mais bonito do que o meu p de tamarindo.

- Voc diz mesmo?
- J disse. Meti a mo no bolso e sacudi as moedas.
- E as outras duas coisas?
- Sabe, Zez, a nossa misria vai se acabar; Papai arranjou um lugar de gerente na Fbrica de Santo Aleixo. Ns vamos ser ricos de novo, U! Voc no ficou contente?

- Fiquei, sim, por Papai. Mas eu no quero sair de Bangu. Vou ficar morando com Dindinha. Daqui s saio para Trs-os-Montes...

- Sei. Voc prefere ficar com Dindinha e tomar purgante todos os meses do que ir com a gente?

- Prefiro. Voc nunca vai saber por qu... E a outra?

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- No posso falar aqui. Tem "algum" que no pode ouvir.

Samos e fomos para junto da privada. Mas mesmo assim ele falou baixo. _  Preciso avisar voc, Zez. Pra voc ir se acostumando. A prefeitura vai alargar as ruas. Vai aterrar todos os vales e avanar no fundo de todos os quintais.

- Que que tem isso?
- Voc que  to inteligente no entendeu?  que aumentando as ruas ela vai derrubar tudo aquilo ali.

Indicou o lugar onde estava o meu p de Laranja Lima. Fiz beio de choro.

- Voc est mentindo, no est, Totoca?
- No precisa ficar com essa cara de choro. Ainda vo demorar muito.

Meus dedos nervosamente estavam contando as moedinhas no meu bolso.

-  mentira, no , Totoca?
- No.  a pura verdade. Mas voc  ou no  um homem?

- Sou, sim. Mas as lgrimas covardemente desciam pelo meu rosto. Abracei a barriga dele, implorando.

- Voc vai ficar do meu lado, no, Totoca? Vou juntar muita gente para fazer guerra. Ningum vai cortar o'meu p de Laranja Lima...

- T bem. Ns no deixaremos. E agora, voc me empresta o dinheiro?

-  para qu?
- Como voc no pode entrar no Cinema Bangu, l est passando um filme de Tarz. Depois eu conto tudo para voc.

Peguei uma pratinha de quinhentos ris e entreguei a ele enquanto limpava os olhos com as fraldas da camisa.

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- Fique com o troco. D para comprar balas... Voltei para o p de Laranja Lima sem vontade de falar s me lembrando do filme de Tarz. Eu j o vira na vspera. Fui l e contei para o Portuga.

- Queres ir?
- Querer bem que eu queria, mas no posso entrar no Cinema Bangu.

Lembrei por que no podia. Ele riu.
- Essa cabecinha no est inventando coisas?
- Juro, Portuga. Mas eu acho que se uma pessoa grande fosse comigo, ningum diria nada.

- E se essa pessoa grande fosse eu...  isso o que tu queres?

Meu rosto iluminou-se de felicidade.
- Mas eu tenho que trabalhar, meu filho.
- Essa hora nunca tem movimento. Em vez de voc ficar conversando ou cochilando no carro, ia ver Tarz lutando com leopardo, jacar e gorilas. Sabe quem trabalha?  Frank Merrifi.

Mas ele ainda estava indeciso.
- Tu s um diabrete. Tens ardis para tudo.
- S so duas horas. Voc j  muito rico, Portuga.
- Ento vamos. Mas vamos a p. Vou deixar o meu carro estacionado c no ponto.

E fomos. Mas na bilheteria a moa disse que tinha ordens terminantes de no me deixar entrar por um ano.

- Eu me responsabilizo por ele. Isso foi antigamente, agora ele criou juzo.

A bilheteira me olhou e eu sorri para ela. Peguei, dei um beijo na ponta dos dedos e soprei para ela.

- Olhe l, Zez. Se voc se comporta mal eu perco meu emprego.

Era isso o que eu no estava com vontade de contar para Minguinho, mas no demorou muito e acabei contando.

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CAPTULO STIMO

O Mangaratiba

QUANDO DONA CECLIA PAIM perguntou se algum queria ir ao quadro-negro escrever uma frase, mas uma frase que fosse inveno do aluno, ningum se atreveu. Mas eu pensei uma coisa e levantei o dedo.

- Quer vir, Zez? Sa da carteira e me dirigi para o quadro-negro enquanto ouvia orgulhoso o seu comentrio.

- Vocs viram? Logo o menorzinho da turma. Eu no@alcanava nem na metade do quadro. Peguei o giz e caprichei na letra.

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"Faltam poucos dias para chegarem as frias". Olhei para ela vendo se havia algum erro. Ela sorria contente e sobre a mesa existia o copo vazio. Vazio, mas com a rosa da imaginao como ela dissera. Talvez porque D. Ceclia Paim no fosse bonita, era raro algum levar uma flor para ela.

Voltei para a minha carteira contente da minha frase. Contente porque quando as frias chegassem eu ia passear pra burro com o Portuga.

Depois apareceram outros decididos para escrever uma frase. Mas o heri tinha sido eu.

Algum pediu licena para entrar na aula. Um atrasado. Era o Jernimo. Chegou estabanado e sentou-se bem por trs de mim. Colocou os livros com barulho e comentou para o vizinho. No prestei bem ateno. Queria era estudar direitinho para ser sbio, Mas uma palavra da conversa sussurrada me chamou a ateno. Falaram em Mangaratiba.

- Pegou o carro?
- O carro. Aquele bonito do seu Manuel Valadares, Virei-me atarantado.
- Que f oi que voc disse?
- Disse isso: que o Mangaratiba pegou o carro do Portugus na passagem da Rua da Chita. Foi por isso que eu cheguei tarde. O trem esmigalhou o carro. Tem gente  bea. Chamaram at o Corpo de Bombeiros de Realengo.

Comecei a suar frio e meus olhos ameaavam ficar escuros.

Jernimo continuava respondendo s perguntas do vizinho.

- No sei se morreu. No deixavam criana chegar perto.

Fui me levantando sem sentir. Aquela vontade de vomitar me atacando enquanto o corpo estava molhado

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de suor frio. Sa da carteira e caminhei para a porta da sada. Nem reparei direito no rosto de Dona Ceclia Paim que viera ao meu encontro espantada talvez com a minha palidez.

- O que foi, Zez? Mas eu no podia responder. Meus olhos comeavam a se encher de lgrimas. Ento me deu a loucura enorme, comecei a correr e sem pensar na sala da directora, continuei correndo. Alcancei a rua e me esqueci da Rio -So Paulo, de tudo. S queria correr, correr e chegar l. Meu corao doa mais do que o estmago e' corri toda a Rua das Casinhas sem parar. Alcancei a

Confeitaria e relanceei a vista pelos carros, para ver se

Jernimo no mentira. Mas o nosso carro no se encontrava l. Soltei um gemido e recomecei a correr. Fui agarrado pelos braos fortes de seu Ladislau,

- Onde voc vai, Zez? As lgrimas molhavam o meu rosto.
- Vou l.
- Voc no tem que ir. Esperneei como um louco mas no conseguia me livrar dos seus braos. - Fique calmo, meu filho. Eu no deixarei voc ir l.

- Ento o Mangaratiba matou ele...
- No. A assistncia j veio. S estragou muito o automvel.

- O senhor est mentindo, seu Ladislau.
- Por que ia mentir? No contei que o trem pegou o automvel? Pois bem, quando ele puder receber visitas no hospital, eu levo voc, prometo. Agora vamos tomar um refresco.

Pegou um leno e enxugou meu suor.
- Eu preciso vomitar um pouco.

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Encostei na parede e ele ajudou a segurar minha cabea.

- Est melhor, Zez? Fiz que sim com a cabea.
- Vou levar voc em casa, quer? Fiz que no com a cabea e sa andando devagarzinho, completamente desorientado. Sabia de toda a verdade.
O Mangaratiba no perdoava nada. Era o trem mais forte que havia. Vomitei mais umas duas vezes e pude ver que ningum se incomodava comigo. Que no havia mais ningum na vida. No voltei para a Escola, fui seguindo o que o corao mandava. De vez em quando fungava e enxugava o rosto na blusa do uniforme. Nunca mais iria ver o meu Portuga. Nunca mais; ele se fora. Fui andando, fui andando. Parei na estrada onde ele deixou que o chamasse de Portuga e me colocou de morcego. Sentei num tronco de rvore e me encolhi todo, encostando o rosto nos joelhos.

Surgiu um desabafo grande que eu nem esperava.

Voc  malvado, Menino Jesus. Eu que pensei que voc ia nascer Deus essa vez e voc faz isso comigo? Por que voc no gosta de mim como dos outros meninos? Eu fiquei bonzinho. No briguei mais, estudei as

lies, deixei de falar palavro. Nem bunda mais eu

falava. Por que voc faz isso comigo, Menino Jesus? Vo cortar o meu p de Laranja Lima e nem por isso

eu me zanguei. S chorei um pouquinho... E agora... E agora... Nova enxurrada de lgrimas.

- Eu quero o meu Portuga de volta, Menino Jesus. Voc tem que me dar o meu Portuga de volta...

A uma voz muito suave, muito doce, falou para o

meu corao. Devia ser a voz amiga da rvore em que eu me sentara.

- No chore, menininho. Ele foi pro cu.

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Quando estava ficando de noite, j sem foras, sem poder mesmo vomitar mais ou chorar, eu fui encontrado por Totoca sentado no degrau da entrada da Dona Helena Villas-Boas.

Ele falou comigo e eu s pude gemer.
- Que  que voc tem, Zez? Fale comigo. Mas eu continuava gemendo baixinho. Totoca ps a

mo na minha testa.

- Voc est ardendo de lebre. O que foi, Zez? Venha comigo, vamos para casa. Eu ajudo a voc ir devagarzinho.

Consegui falar entre gemidos.
- Deixe, Totoca. Eu no vou mais para aquela casa.
- Vai, sim.  a nossa casa.
- Eu no tenho mais nada l. Tudo acabou. Tentou ajudar a levantar-me mas viu que eu no tinha mais foras.

Enrodilhou os meus braos no seu pescoo e me carregou nos braos. Entrou em casa e me deitou na cama.

- Jandira! Glria! Onde est essa gente? Foi encontrar Jandira conversando na casa de Alade.
- Jandira, Zez est muito doente. Ela veio resmungando.
- Deve ser fita de novo. Umas boas chineladas... Mas Totoca entrara no quarto nervoso.
- No, Jandira. Dessa vez ele est muito doente e vai morrer...

Durante trs dias e trs noites, fiquei sem querer nada. S a febre me devorando e o vmito que me atacava quando tentavam me dar coisa para comer ou beber. Ia definhando, definhando. Ficava de olhos espiando a parede sem me mexer horas e horas.

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Ouvia o que falavam a meu redor. Entendia tudo, mas no queria responder. No queria falar. S pensava em ir para o cu.

Glria mudou de quarto e passava as noites a meu

lado. No deixava nem apagar a luz. Todo mundo s usou doura. At Dindinha veio passar uns dias com a gente.

Totoca ficava horas e horas com os olhos arregalados, me falando, de vez em quando. _  Foi mentira, Zez. Pode me acreditar. Foi tudo maldade. No vo aumentar nem a rua nem nada...

A casa foi-se vestindo de silncio como se a morte tivesse passos de seda. No faziam barulho. Todo mundo falava baixo. Mame ficava quase toda a noite perto de mim. E eu no me esquecia dele. Das suas risadas. Da sua fala diferente. At os grilos l fora imitavam. o rquete, rquete da sua barba. No podia deixar de pensar nele. Agora sabia mesmo o que era a dor. Dor no era apanhar de desmaiar. No era cortar o p com caco de vidro e levar pontos na farmcia. Dor era aquilo, que doa o corao todinho, que a gente tinha que morrer com ela, sem poder contar para ningum o segredo. Dor que dava desnimo nos braos, na cabea, at na vontade de virar a cabea no travesseiro.

E a coisa piorava. Meus ossos estavam saltando da pele. Chamaram o mdico. Dr. Faulhaber veio e me examinou. No demorou muito a descobrir.

_  Foi um choque. Um trauma muito forte. Ele s viver se conseguir vencer esse choque.

Glria levou o mdico para fora e contou.
- Foi choque mesmo, doutor. Desde que ele soube que iam cortar o p de Laranja Lima, ficou assim.

- Ento precisam convenc-lo de que no  verdade.

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- J tentamos de todas as maneiras, mas ele no acredita. Para ele o pezinho de laranja  gente.  um menino muito estranho. Muito sensvel e precoce.

Eu ouvia tudo e continuava desinteressado de viver. Queria ir pro cu e ningum vivo ia para l.

Compraram remdios, mas eu continuava vomitando. Foi ento que aconteceu uma coisa linda. A rua se movimentou para me visitar. Esqueceram que eu era o diabo em figura de gente. Veio seu Misria e Fome e me trouxe doce de maria-mole. A Nega Eugnia me

trouxe ovos e me rezou a barriga para deixar de vomitar.

- O filho de seu Paulo est morrendo... Me diziam coisas agradveis.
-  Voc precisa ficar bom, Zez. Sem voc e suas diabruras a rua fica uma tristeza.

Dona Ceclia Paim veio me ver, trazendo a minha sacolinha e uma flor. Aquilo s serviu para voltar a chorar de novo.

Ela contava como eu sara da aula e s sabia daquilo. Mas tristeza grande mesmo foi quando surgiu seu Ariovaldo. Eu reconheci sua voz e fingi que dormia.

- O senhor espera l fora at que ele acorde. Ele sentou e ficou falando para Glria.
- Escute, Dona, vim por todo canto perguntando pela casa at que descobri.

Fungou grandemente.
- Meu santinho no pode morrer, no. Num deixe, Dona. Era para a senhora que ele trazia os meus folhetos, num era?

Glria quase no podia responder.
- Num deixe no Dona, esse bichinho morrer. Se assucede qualquer coisa com ele, nunca mais que venho nesse subrbio desgraado.

Quando ele entrou no quarto, se sentou perto da cama e ficou encostando minha mo no seu rosto.

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- Espie, Zez. Voc precisa ficar bom e ir cantar mais eu. Quase no tenho vendido nada. Todo mundo pergunta. Ei, Arlovaldo, cad o teu canarinho? Voc promete que vai ficar sozinho, promete?

Meus olhos ainda tiveram foras para se encher e vendo que eu no devia mais ficar emocionado Glria levou seu Ariovaldo embora.

Comecei a melhorar. J conseguia engolir alguma coisa e sustentar no estmago. A febre s aumentava e

os vmitos voltavam trazendo os tremores e o suor frio, quando eu me lembrava mais. No podia s vezes deixar de ver o Mangaratiba voando e esmagando ele. Pedia ao Menino Deus, se  que ele se importava alguma vez comigo, para que ele no tivesse sentido nada.

Vinha Glria e passava as mos na minha cabea.
- No chore, Gum. Tudo isso vai passar. Se voc quer, eu dou minha mangueira todinha para voc. Ningum nunca vai mexer com ela.

Mas de que me servia uma mangueira velha, sem dentes, que no sabia mais dar manga? At meu p de Laranja Lima logo, logo perderia o encanto e tornar-se-ia uma rvore como outra qualquer... Isso se dessem tempo ao pobrezinho.

Como era fcil para uns morrer. Era s vir um trem malvado e pronto. E como era difcil para mim ir para o cu. Todo mundo estava segurando minhas pernas para eu no ir.

A bondade e dedicao de Glria conseguiam fazer que eu chegasse a conversar um pouco. At Papai deixou de sair de noite. Totoca emagreceu tanto de remorso que Jandira chegou a lhe dar um caro.

- J no basta um, Antnio?

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- Voc no est no meu lugar para sentir. Fui eu que contei para ele. Ainda sinto na barriga, at quando estou dormindo, o rosto dele chorando, chorando...

- Agora no v voc chorar tambm. Voc j est um marmanjo e ele vai viver. Deixe disso e v me comprar uma lata de leite condensado no Misria e Fome.

- Ento me d o dinheiro que ele no fia mais para Papai...

A fraqueza ia me dando uma sonolncia contnua. No sabia mais quando era dia ou noite. A febre ia cedendo e os meus tremores e agitamentos comeavam a se distanciar.

Abria os olhos e na semi-escurido encontrava Glria que no se arredava de mim. Ela tinha trazido a cadeira de balano para o quarto e muitas vezes adormecia de cansao.

- Godia, j  de tarde?
- Quase de tarde, corao.
- Voc quer abrir a janela?
- No vai doer sua cabea?
- Acho que no. A luz entrou e via-se uma nesga de cu lindo. Olhei o cu e de novo comecei a chorar.

- Que  isso, Zez? Um cu to lindo, to azul que o Menino Deus fez pra voc. Ele me disse isso hoje...

Ela no entendia o que o cu significava para mim. Se encostava perto de mim, pegava nas minhas mos e falava tentando me animar. Seu rosto estava abatido e emagrecido.

- Olhe, Zez, daqui a pouco voc estar bom. Soltando papagaios, ganhando rios de bola de gude, subindo nas rvores, montando no Minguinho. Quero ver voc o mesmo, cantando as canes, me trazendo folhetos de msicas. Tanta coisa bonita. Voc viu como a rua anda triste? Todo mundo sente falta de sua vida e da

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sua alegria na rua... Mas voc tem que ajudar. Viver, viver e viver.

- Sabe, Godia, eu no quero mais. Se eu ficar bom, vou ser ruim de novo. Voc no entende. Mas eu no tenho mais para quem ficar bonzinho.

- Pois no precisa ficar to bonzinho. Seja menino, seja criana como sempre foi.

- Pra que, Godia? Pra todo mundo me bater muito? Pra todo mundo judiar de mim?...

Ela pegou meu rosto entre os dedos e falou resoluta:
- Olhe, Gum. Eu juro para voc uma coisa. Quando voc ficar bom, ningum, ningum, nem mesmo Deus, vai botar as mos sobre voc. S se passarem antes sobre o meu cadver. Voc acredita?

Fiz um hum afirmativo.
- Que  que  cadver? Pela primeira vez o rosto de Glria se iluminou de uma grande alegria. Deu uma risada, porque sabia que eu me interessando por palavras difceis estava novamente querendo viver.

- Cadver  mesmo que morto, que defunto. Mas no falemos disso agora que no  conveniente.

Tambm achei melhor, mas no podia deixar de pensar que ele j era cadver h muitos dias. Glria continuava falando, prometendo coisas mas eu pensava agora nos dois passarinhos, o azulo e o canarinho. O que fariam com eles? Podia ser que morressem de tristeza como no caso do avinhado de Orlando Cabelo de Fogo. Talvez abrissem a porta da gaiola e dessem liberdade a eles. Mas isso seria o. mesmo que a morte. Eles no sabiam mais voar. Ficavam bobinhos parados nos ps de laranja at que a meninada acertasse neles com atiradeiras. Quando Zico ficou sem dinheiro para

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conservar o viveiro de Ti -Sangue, abriu as portas e foi aquela maldade. No escapou um da pontaria dos meninos...

As coisas comearam a pegar um ritmo normal na casa. J se ouvia barulho por todas as partes. Mame voltara a trabalhar. A cadeira de balano retornou  sala onde sempre morara. Somente Glria permanecia no seu posto. Enquanto no me visse de p no se arredava.

- Toma essa canja, Gum. Jandira matou a galinha preta s para fazer essa canjinha para voc. Olhe como est cheirosa.

E soprava o calor da colher. "Se queres, faze como eu, molha o po no caf. Mas no faas barulho ao engolires.  feio."

- Ora, o que  isso, Gum? No vai querer chorar agora porque mataram a galinha preta. Ela estava velha. To velha que no botava mais ovo... "Tanto fizeste que acabaste de descobrir onde eu moro"...

- Eu sei que ela era a pantera negra do Jardim Zoolgico, mas a gente compra outra pantera negra muito mais selvagem do que aquela. "Ento, fujo, onde estiveste este tempo todo?"

- Godia, agora no. Se eu tomar eu vou comear a vomitar.

- Se eu der mais tarde, voc toma? E a frase veio aos borbotes sem que eu pudesse me controlar: "Prometo que fico bonzinho, que no brigo mais, que no falo mais palavro, nem bunda mais eu digo... Mas eu quero ficar sempre junto de voc"...

Olharam-me penalizados porque julgavam que eu estava falando de novo com Minguinho...

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No comeo era apenas um roar suave na janela, mas depois aquilo se transformou em batidas. Uma voz vinha do lado de fora bem mansinha.

- Zez!... Levantei-me e encostei a cabea na madeira da janela.
- Quem ?
- Eu. Abre. Puxei o trinco sem fazer rudo para no acordar Glria. No escuro, parecia um milagre, brilhava todo "ajaezado" o Minguinho.

- Posso entrar?
- Poder, pode. Mas no faa barulho que ela pode acordar.

- Garanto que no acorda. Pulou para dentro do quarto e eu voltei para a cama.
- Olhe o que eu trouxe para voc. Ele fez questo de vir visitar tambm.

Trouxe o brao para a frente e eu vi uma espcie de pssaro prateado.

- No d pra ver direito, Minguinho.
- Repare bem que voc vai ter uma surpresa. Eu ajaezei ele todo com penas de prata. No est lindo?

- Luciano! Que bonito voc ficou. Voc devia ser sempre assim. Pensei que voc era um falco daquela histria do califa Stork.

Alisei sua cabea emocionado e senti pela primeira vez que ela era maciazinha e que at morcego gostava de ternura.

- Voc no reparou uma coisa. Espie bem. Deu uma volta para mostrar-se.
- Estou com as esporas de Tom Mix. O chapu de Ken Maynard. As duas pistolas de Fred Thompson. O cinturo e as botas de Richard Talmadge. Ainda por cima, seu Ariovaldo me emprestou a camisa de xadrezinho que voc tanto gosta.

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- Nunca vi coisa mais linda, Minguinho. Como voc conseguiu juntar tudo?

- Bastou eles saberem que voc estava doente e me emprestaram.

- Que pena que voc no possa ficar sempre vestido assim.

Fiquei olhando Minguinho e preocupado se ele sabia do destino que o esperava. Mas no disse nada.

A, ele se sentou na beira da cama e seus olhos s expandiam doura e preocupao. Aproximou seu rosto dos meus olhos.

- Que  que h, Xururuca?
- Mas Xururuca  voc, Minguinho.
- Pois ento, voc  o Xururuquinha. No posso querer a voc com mais amizade, como voc faz comigo?

No fale assim. O mdico me proibiu de chorar e de ficar emocionado.

- Nem eu quero isso. Eu vim porque estava com muita saudade e quero ver voc bom e alegre de novo. Na vida tudo passa. Tanto que vim para levar voc a

passear. Vamos?

- Estou muito fraco.
- Um pouco de ar livre, cura voc. Eu ajudo para que pule a janela.

E ' samos.
- Aonde vamos?
- Vamos passear no encanamento.
- Mas eu no quero ir pela Rua Baro de Capanema. Nunca mais eu vou passar por l.

- Vamos pela Rua dos Audes at o fim. J agora Minguinho se transformara num cavalo que voava. No meu ombro, Luciano se equilibrava feliz.

No encanamento Minguinho me deu a mo para que eu me equilibrasse nos grossos canos. Era gostoso quando havia um buraco e a gua espirrava como fontezinha,

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molhando a gente e fazendo ccegas na sola dos ps. Sentia um pouco de tontura, mas a alegria que Minguinho estava me proporcionando dava a impresso de que j ficara bom. Pelo menos meu corao batia leve.

De repente, um apito apitou longe.
- Voc ouviu, Minguinho?
-  uma apito de trem ao longe. Mas um estranho rudo veio se achegando e novos apitos cortavam a solido.

O horror me atingiu todo.
-  ele, Minguinho. O Mangaratiba. O assassino. E o barulho das rodas sobre os trilhos crescia assustadoramente.

- Sobe aqui, Minguinho. Sobe depressa, Minguinho. Minguinho no conseguia se equilibrar no cano por causa das esporas brilhantes.

- Sobe, Minguinho, me d a mo. Ele quer matar voc. Ele quer matar voc. Ele quer esmagar voc. Quer cortar voc em pedaos.

Mal Minguinho trepara no cano e o trem malvado passou por ns apitando e soltando fumaceira.

- Assassino!... Assassino!...   -

Entretanto o trem continuava rpido sobre os trilhos. Sua voz vinha entrecortada de gargalhadas.

- Eu no sou culpado... Eu no fui culpado... Eu no sou culpado... Eu no fui culpado...

Todas as luzes da casa se acenderam e meu quarto foi invadido por rostos semi-adormecidos.

- Foi um pesadelo. Mame me tomara nos braos tentando contra o peito esmagar os meus soluos.

- Foi s um sonho, meu filho... Um pesadelo.

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Recomecei a vomitar enquanto Glria contava para Lal.

- Acordei quando ele gritava assassino. Falava de matar, esmagar, cortar... Meu Deus, quando vai acabar tudo isso?

Mas poucos dias depois acabou. Estava condenado a

viver, viver. Numa manh, Glria entrou radiante. Eu estava sentado na cama e olhava a vida com uma tristeza de doer.

- Olhe, Zez. Em suas mos existia uma florzinha branca.
- A primeira flor de Minguinho. Logo ele vira uma laranjeira adulta e comea a dar laranjas.

Fiquei alisando a flor branquinha entre os dedos. No choraria mais por qualquer coisa. Muito embora Minguinho estivesse tentando me dizer adeus com aquela flor; ele partia do mundo dos meus sonhos para o

mundo da minha realidade e dor.

- Agora vamos tomar um mingauzinho e dar umas voltas pela casa como voc fez ontem. J vem j.

Foi quando o rei Lus subiu na minha cama. Agora deixavam sempre que viesse perto de mim. No comeo no queriam que se impressionasse.

- Zeze!...
- Que , meu Reizinho? Na verdade ele era mesmo o nico rei. Os outros, o de ouros, o de copas, o de paus e o de espadas eram

apenas figuras sujas dos dedos que jogavam. E o outro, ele, nem chegara a ser um rei mesmo.

- Zez, eu gosto muito de voc.

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- Eu tambm, de voc meu irmozinho.
- Voc hoje quer brincar comigo?
- Hoje eu brinco com voc. O que voc quer fazer?
- Eu quero ir no Jardim Zoolgico, depois quero ir na Europa. Depois eu quero ir nas selvas do Amazonas e brincar com Minguinho.

- Se eu no ficar muito cansado, a gente vai fazer tudo isso.

Depois do caf, sob o olhar feliz de Glria, ns fomos saindo de mos dadas para o fundo do quintal. Glria encostou-se na porta aliviada. Antes de chegar ao galinheiro, virei-me e dei adeus para ela. Nos seus olhos brilhava a felicidade. Eu na minha estranha precocidade adivinhava o que se passava em seu corao: "Ele voltou para os seus sonhos, graas a Deus!"

- Zez...
- Hum.
- Cad a pantera negra? Era difcil recomear tudo sem acreditar nas     coisas. A vontade era contar o que de fato existia. "Bobinho, nunca existiu pantera negra. Era apenas uma galinha preta e velha, que eu comi numa canja".

- S ficaram as duas leoas, Lus. A pantera negra foi passar as frias na selva do Amazonas.

Era melhor conservar a sua iluso o mais possvel. Quando eu era criancinha tambm acreditava naquelas coisas.

O Reizinho arregalou os olhos.
- Ali naquela selva?
- No tenha medo. Ela foi to longe que nunca mais vai acertar o caminho da volta.

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Sorri com amargura. A selva do Amazonas era apenas meia dzia de laranjeiras espinhudas e hostis.

- Sabe, Lus, Zez est muito fraco, precisa voltar. Amanh a gente brinca mais. De bondinho de Po de Acar e do que voc quiser.

Acedeu e comeou a voltar devagarzinho comigo. Ele ainda era muito pequeno para adivinhar a verdade. Eu no queria chegar perto do valo ou do Rio Amazonas. Eu no queria deparar com o desencanto de Minguinho. Lus no sabia que aquela flor branquinha tinha sido o nosso adeus.

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CAPTULO OITAVO

Tantas so as velhas rvores

AINDA NO ANOITECERA e a notcia tinha sido confirmada. Parecia que uma nuvem de paz voltaria a reinar sobre a nossa casa e nossa famlia.

Papai me pegou pela mo e diante de todos me sentou no colo. Balanou devagar a cadeira para que eu

no ficasse tonto.

- Tudo passou, meu filho. Tudo. Voc um dia vai ser pai e vai tambm descobrir como so difceis certos momentos na vida de um homem. Parece que nada d

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certo, provocando um desespero interminvel. Mas agora, no. Papai foi nomeado gerente da Fbrica de Santo Aleixo. Nunca mais vai faltar nada nos seus sapatinhos na noite de Natal.

Fez uma pausa. Ele tambm nunca mais ia esquecer daquilo para o resto da vida.

- Vamos viajar muito. Mame no precisar mais trabalhar, nem suas irms. Voc ainda tem a medalha do ndio?

Remexi os bolsos e encontrei a medalha.
- Pois bem, vou comprar de novo um relgio e colocar a medalha. Um dia ser seu...

"Portuga, voc sabe o que  carborundum?"

E Papai falava e falava sempre. Me fazia mal seu rasto barbado roar no meu rosto.
O cheiro que escapava da sua camisa muito usada me fazia arrepios. Fui escorregando pelos seus joelhos e caminhei para a porta da cozinha. Sentei-me nos degraus e contemplei o quintal com o morrer de todas as luzes. Meu corao se revoltara sem raiva. "Que quer esse homem que me pega no colo?" Ele no  meu pai. Meu pai morreu. O Mangaratiba matou ele.

Papai tinha me seguido e viu que os meus olhos se encontravam de novo molhados.

Quase se ajoelhou para falar comigo.
- No chore, meu filho. Ns vamos ter uma casa muito grande. Um rio de verdade passa bem atrs. Grandes rvores e tantas, que sero s suas. Voc pode fazer, armar balanos.

Ele no entendia. Ele no entendia. Nenhuma rvore deveria ser to linda na vida, como a Rainha Carlota.

- O primeiro a escolher as rvores, ser voc.

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Olhei os seus ps, os dedos saindo dos tamancos. Ele era uma velha rvore de razes escuras. Era um pai-rvore. Mas uma rvore que eu quase no conhecia.

- Depois tem mais. To cedo no vo cortar o seu p de Laranja Lima. Quando o cortarem voc ear longe e nem sentir.

Agarrei-me soluando aos seus joelhos.
- No adianta, Papai. No adianta... E olhando o seu rosto que tambm se encontrava cheio de lgrimas murmurei como um morto:

- J cortaram, Papai, faz mais de uma semana que cortaram o meu p de Laranja Lima.

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LTIMO CAPTULO

A CONFISSO FINAL
OS ANOS SE PASSARAM, meu caro Manuel Valadares. Hoje tenho quarenta e oito anos e s vezes na minha saudade eu tenho impresso que continuo criana. Que voc a qualquer momento vai me aparecer me trazendo figurinhas de artista de cinema ou mais bolas de gude. Foi voc, quem me ensinou a ternura da vida, meu Portuga querido. Hoje sou eu que tento distribuir as bolas

e as figurinhas, porque a vida sem ternura no  l grande coisa. s vezes sou feliz na minha ternura, s vezes me engano, o que  mais comum.

Naquele tempo. No tempo de nosso tempo, eu no sabia que muitos anos antes, um Prncipe Idiota ajoelhado diante de um altar perguntava aos cones, com os olhos cheios d'gua: "POR QUE CONTAM COISAS AS CRIANCINHAS'

A verdade, meu querido Portuga,  que a mim contaram as coisas muito cedo.

Adeus!

Ubatuba, 1967



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NOTA SOBRE O AUTOR

Com o gacho rico Verssimo e o baiano Jorge Amado, o carioca Jos Mauro de Vasconcelos forma, hoje, o trio exclusivo de escritores brasileiros que podem viver somente com os direitos autorais de seus livros. Como surgiu e o que representa esse fenmeno da moderna literatura brasileira?

Jos Mauro de Vasconcelos nasceu em Bangu, bairro do Rio de Janeiro, a 26 de fevereiro de 1920. Filho de famlia muito pobre, a ponto de - ainda menino - ter de viver com uns tios no Rio Grande do Norte, cresceu em Natal. Aos nove anos, aprendeu a nadar e, com grande prazer, lembra dos seus treinos de natao nas guas do Potengi, dos seus sonhos de ser campeo. Ainda em Natal, fez dois anos do curso de Medicina.

Novos sonhos e uma maleta de papelo eram a bagagem do jovem que voltou ao Rio, num velho cargueiro. O primeiro emprego foi de treinador de peso-pena, quando 100 cruzeiros por luta eram o limite entre uma vida difcil e a fome. Virou esttua em 1941, no monumento  juventude do jardim do Ministrio da Educao, no Rio. Jos Mauro era modelo e acabou esculpido por Bruno Giorgi.

De carregador de bananas numa fazenda do litoral do Estado do Rio a garom de boate em So Paulo, Jos Mauro percorreu distncias e empregos em quantidade, no aprendizado de vida que parece essencial a certo tipo de escritores. Outra experincia foi uma bolsa de estudos na Espanha, limitada a uma semana pelo estudante, que no aguentou a vida acadmica e preferiu correr a Europa. A actividade mais importante foi a que exerceu junto aos irmos Villas-Boas, varando rios em plena regio do Araguaia, conhecendo o ambiente hostil e lutando pelos ndios.

Estava amadurecido o homem Jos Mauro. O resultado disso foi seu livro de estria, "Banana Brava", de 1942. Nele, reflete o mundo dos homens sem piedade dos garimpos onde viceja e jamais frutifica a Banana Brava; o livro simplesmente no aconteceu na poca, apesar de algumas crticas favorveis. Depois veio "Barro Blanco", em 1945.

Essa estria das salinas de Macau, no Rio Grande do Norte, conseguiu para Jos Mauro um grande sucesso de crtica. O livro seguinte foi ".. Longe da Terra" (1949), marcando a

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volta do escritor ao serto ("Difcil encontrarmos um livro que nos oferea de maneira to natural a embriaguez da terra", disse o crtico Herculano Pires). Depois de "Vazante" (1951), vieram "Arara Vermelha" (1953) e "Arraia de Fogo" (1955). Para escrever o livro de 1953, percorreu cerca de 250 lguas no serto bruto. "Rosinha, Minha Canoa", de 1962, marcou o primeiro sucesso da literatura de Jos Mauro. Hoje est em 21.a edio e recebeu elogios como o de Abdias Lima: "A narrativa, com sua trama que corre como um rio, sem truques e artifcios literrios, as personagens, com sua dialogao tpica, fazem de "Rosinha, Minha Canoa", uma grande estria nacional.

A imprensa j procurava o escritor em ascenso e perguntava sobre suas preferncias literrias ("Graciliano, Z Lins do Rego"), sobre seu modo de escrever ("Escrevo meus livros em poucos dias. Mas em compensao passo anos ruminando idias. Escrevo tudo a mquina. Fao um captulo inteiro e depois  que releio o que escrevi. Escrevc a qualquer hora, de dia ou de noite. Quando estou escrevendo entro em transe. S paro de bater nas teclas da mquina quando os dedos doem. S a percebo quanto trabalhei. Sou um cara capaz de varar dias escrevendo at a exausto"). "Doido" (1963) conta a adolescncia do escritor em Natal, claro que de forma romanceada, "0 Garanho das Praias" (1964), com sua aco altamente dramtica,  bem diferente de "Corao de Vidro" (1964), um livro de fbulas em que os animais ganham dimenso humana e lrica. De 1966  "As Confisses de Frei Abbora", obra que antecedeu o grande sucesso do escritor, "O Meu P de Laranja Lima". "O Meu P de Laranja Lima" saiu em doze dias. "Porm estava dentro de mim h anos, h vinte anos", diz Jos Mauro. E o livro, publicado em 1968, conquistou os leitores brasileiros, do Amazonas ao Rio Grande do Sul, quebrando todos os recordes de vendagem. Hoje, est na 22.1 edio, com cerca de meio milho de exemplares vendidos.

A crtica tambm se entusiasmou com a obra e no faltaram elogios: "Qualquer pessoa de sensibilidade que leia esse livro de Jos Mauro se projecta na figurinha de Zez. . . " - Ivone Borges Botelho; "Recomendo a todos a leitura de "O Meu P de Laranja Lima" e dos outros romances de Jos Mauro de Vasconcelos, cuja obra est exigindo estudos mais longos, pois  um dos bons narradores que o Brasil j teve em qualquer tempo" - Antnio Olinto; "O Meu P de Laranja Lima"  um documentrio social e um estudo psicolgico - que soa como uma cano, onde h intensa realidade e, por isso mesmo, ternura e amor" - Euclides Marques Andrade.

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Dizia o escritor, na poca: "Tenho um pblico que vai dos
6 aos 93 anos. No s aqui no Rio ou em So Paulo, mas em todo o Brasil. Meu livro "Rosinha, Minha Canoa"  utilizado em curso de Portugus na Sorbonne, em Paris."

As tradues no estrangeiro se multiplicaram. "O Meu P de Laranja Lima" saiu na ustria, Alemanha, Estados Unidos, Inglaterra, Argentina, Itlia, Holanda e Frana, "Barro Blanco" tem edies hngara e alem. "Arara Vermelha" foi publicado na ustria e na Alemanha e o ser brevemente na Holanda. Em preparo, a edio de "Arraia de Fogo" na Hungria. Os direitos de "O Meu P de Laranja Lima" tambm esto sendo negociados na Dinamarca, Finlndia, Tchecoslovquia. Em preparo, esto as seguintes edies de "O Meu P de Laranja Lima": norueguesa, japonesa, sueca e polonesa. -- livros de Jos Mauro mereceram a ateno de professoras, que os levaram para seus alunos. Adotados em inmeros colgios do pas inteiro, servem hoje de texto para as aulas de Portugus de milhares de crianas e jovens. O mesmo ocorre na Argentina, notadamente com "O Meu P de Laranja Lima".

O factor bsico do sucesso de Jos Mauro  sua facilidade de comunicao com o pblico, o que se confirmou nos livros posteriores a "O Meu P de Laranja Lima" - "Rua Descala" (1969), "O Palcio Japons" (1969), "Farinha rf" (1970), "Chuva Crioula" (1972), "O Veleiro de Cristal" (1973) e "Vamos Aquecer o Sol" (1974).

Jos Mauro explica essa caracterstica dos seus livros: "O que atrai meu pblico deve ser a minha simplicidade, o que eu acho que seja simplicidade. A minha linguagem regional est numa atitude compreensiva. Os meus personagens falam linguagem regional. O povo  simples como eu. Como j disse, no tenho nada da aparncia de escritor.  a minha personalidade que est se expressando na literatura, o meu prprio "eu"."

Alm de escritor, Jos Mauro j foi artista plstico, actor de teatro e de televiso. Ganhou prmios como coadjuvante em "Carteira Modelo 19" e como actor em "A Ilha" e "Mulheres e Milhes". Fez ainda "Fronteira do Inferno", "Floradas na Serra", "Canto do Mar" (deste, escreveu o roteiro). Seus livros "Vazante", "Arara Vermelha", "Rua Descala", "As Confisses de Frei Abbora" e "0 Meu P de Laranja Lima" foram filmados. O ltimo foi um grande sucesso de bilheteria.

Escritor de sucesso, homem simples, artista cuja sensibilidade se exerce em vrias reas, Jos Mauro de Vasconcelos  um dos autores mais famosos e acessveis da actualidade, no deixando o xito impedir seus contactos com o pblico, nem suas idas anuais  seiva.


